Em um dos recessos do doutorado na universidade de Zaragoza, sai viajando pelo norte da Espanha. Lá fui eu de carro, seguindo o roteiro Ara...

As cabras e a Via Láctea

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Em um dos recessos do doutorado na universidade de Zaragoza, sai viajando pelo norte da Espanha. Lá fui eu de carro, seguindo o roteiro Aragon – Navarra - País Basco - Cantábria até chegar a ao principado das Astúrias, terra natal de Fernando Alonso, campeão de Fórmula 1.

Assim que atravessei a fronteira entre a Cantábria e as Astúrias, li num paredão rochoso: “¡Cantabrones de m...!”. Nem suspeito o que os asturianos possam ter contra os cantábrios. Porém, infelizmente, essas brigas de vizinhos são bem comuns no continente europeu. Em outra oportunidade, deixando Castilla La Mancha, li outra provocação, pichada na placa que sinalizava a entrada da autonomia de Madrid: “¡Madrid es Castilla!”. A frase também incluía um palavrão de fácil tradução que prefiro omitir.

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Em outras partes do país encontrei chavões do tipo: “¡Galiza libre!” e “¡Abajo Madriz!”. Sim, assim mesmo, escrito com “z” por algum ativista exaltado e mais afeito à sua causa do que ao vernáculo.

Em Bilbao, no País Basco, vi placas que sinalizavam Paris a quase 1000 Km e Berlim a 1963 Km de distância e que simplesmente ignoravam Zaragoza e Barcelona, a apenas 302 e 609 Km, respectivamente. Pois é. Até as placas de trânsito só enxergam o que querem.

Em Barcelona recolhi um folder do Zoológico da cidade com uma foto de um leão na capa e uma frase, escrita em catalão: “Ele é nosso rei!”. Uma maneira sutil de dizer: “a monarquia espanhola não nos representa”. Em vários desses lugares eu só vi a bandeira nacional espanhola hasteada na representação do governo central. Era tanta região querendo a independência que, na época em que vivi por lá, parafraseei a expressão que ficou famosa por se referir ao último baile da Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro: “Espanha, o último a sair, apague a luz!”

Imagino que existam razões históricas e políticas ponderáveis para todas essas manifestações e pretensões. Longe de mim questionar a legitimidade de qualquer uma delas. O caso é que, em minha ignorância romântica, a Espanha sempre foi um país tão admirável e intensamente belo que eu nunca me interessei muito pelos seus conflitos internos.

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Embora nunca tenha deixado de percebê-los, prefiro olhar para a exuberante diversidade constituída por aquele maravilhoso país de países. Juntas, as regiões e tradições dos diversos povos ibéricos compõem um conjunto extraordinário de tesouros culturais. Por esse e tantos outros motivos é que a variedade e multiplicidade da Espanha a fazem única, extraordinária, magnífica e arrebatadora.

É verdade que em toda parte do mundo há disputas regionais e que o bairrismo não é uma característica exclusiva dos povos europeus. Contudo, sendo o Brasil um país de oito milhões, quinhentos e dezesseis mil quilômetros quadrados, talvez estas disputas estejam mais diluídas entre nós. Na Europa, são cinquenta países dividindo o continente, cada qual com inumeráveis “nações” reivindicando mais autonomia. Certa feita, num debate com eurocéticos ouvi um professor responder do seguinte modo aos ataques contra a aproximação política e econômica dos países do continente: “Eu mencionarei apenas um benefício que a União Europeia nos trouxe: não há mais guerras entre nós.”

Ele se referiu às centenas de embates bélicos por territórios nos quais milhões de europeus morreram disputando alguns metros ou pequenas faixas de terra. Enquanto isso, no Brasil, o Barão do Rio Branco, um dos maiores gênios diplomáticos da história, definiu os contornos geográficos de um país de dimensões continentais sem disparar um único tiro.

Em sua dança à beira do abismo, desfilavam suavemente em meio a rochas e pedregulhos com a mesma desenvoltura de um bailarino
O escritor Fausto Wolff, de origem alemã, escreveu sobre duas cidades germânicas que, durante a idade média, travaram uma guerra sanguinária, com centenas de mortos de cada lado, somente porque os dirigentes de uma delas disseram que o urso do brasão da outra era uma ursa. Conflitos armados significam mães chorando os seus filhos mortos. De fato, só por parar as guerras no velho continente a União Europeia já justifica a sua existência.

Saindo da longa digressão e retornando ao relato das férias, eu estava a caminho do Parque Picos de Europa, quando parei rapidamente em Covadonga, onde os cristãos espanhóis, durante a “retomada”, venceram a sua primeira batalha sobre os mouros no século oito. No local foi construído um santuário, como Fátima (Portugal) e Lourdes (França). É um lugar emblemático para quem cultiva sentimentos épicos e triunfalistas. Como nunca foi o meu caso, dei por visto e logo segui em frente, parando novamente, adiante, para comprar a mais típica bebida asturiana, a sidra, que é feita a partir da fermentação de uma maçã azeda e ácida, a malus domestica, muito diferente daquelas que consumimos em casa. Apesar da matéria-prima não ser agradável ao paladar, a bebida é bem doce e tem apenas cinco por cento de teor alcoólico. A região produz milhões de litros e tem até selo com denominação de origem.

Às margens das estradas, há várias barracas vendendo garrafas de sidra artesanal. Alguns motoristas se aventuram em goles ilegais, seduzidos pelo curioso modo como a bebida é servida. A garrafa é levemente agitada e depois erguida, até o braço esticar, e um copo, largo e da boca grande, é colocado o mais baixo possível, rente ao corpo. Com a garrafa e o copo assim posicionados, a bebida é despejada na parede interna do copo, que fica meio inclinado. A distância entre o gargalo e o copo produzem um jato que, no atrito com o vidro, gaseificam a dose que será tomada naquele momento. Apesar de apreciar tanto a bebida quanto o ritual, nunca me aventurei no malabarismo.

Abastecido de sidra, prossegui até os “Picos de Europa”, que são uma formação montanhosa na cordilheira cantábrica com cumes muito elevados. Como o nome sugere, os montes ali situados estão entre os mais altos do continente.

Fiz o check-in ainda cedo no hotel e peguei o teleférico que levava ao topo da montanha, logo a frente, de onde, pelo menos na teoria, se poderia avistar o mar cantábrio e boa parte da costa.

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A atração principal era a vista, mas, justo naquele dia, o céu tinha se fechado. O horizonte estava todo coberto por nuvens densas e nada se via desde a cabine do teleférico. Chegando ao topo, o mesmo. Uma neblina densa cobriu o firmamento como uma extensa e opaca cortina branca.

Sem jeito a dar, comecei a vasculhar a paisagem do alto da montanha em busca de algo interessante. O cenário do cume era pedregoso, árido e acidentado. Uma paisagem monótona e nada convidativa. Afastei-me um pouco do grupo de turistas desapontados, carrancudos e dispostos a discar para o “Reclame com Deus”, e me aproximei das únicas habitantes locais, as cabras montesas.

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Eram grandes. Cada uma com cerca de um metro e meio de cumprimento e uns setenta e sete centímetros de altura. E pesadas, podendo chegar a cento e dez quilos. Em sua dança à beira do abismo, desfilavam suavemente em meio a rochas e pedregulhos com a mesma desenvoltura e elegância de um bailarino no palco.

Recordei-me ali da apresentação de um prodigioso exemplar daquela espécie, durante a festa de Nuestra Señora del Pilar, em Zaragoza, em um número circense de rua. Um cigano empilhou duas latas no alto de uma escada dupla de madeira. Uma delas tinha o tamanho da de leite em pó, e a outra era das mesmas dimensões da de leite condensado. Enquanto o velho cigano tocava um realejo e a tangia com uma vareta fina, a enorme cabra escalou os degraus até o topo e, chegando lá, subiu nas latas, até ficar perfeitamente equilibrada sobre a menor delas. Como se não bastasse a façanha, ela ainda começou a girar trezentos e sessenta graus sobre as pontas dos cascos. Parece mentira. Eu, mesmo testemunhando, não consegui acreditar.

Em deferência aquele feito extraordinário, pensei em me aproximar de uma delas e fazer um carinho, mas logo me lembrei do esguicho de baba que vi um turista receber nos olhos, quando uma lhama nervosa o identificou como um possível predador. Algumas espécies atacam utilizando diferentes tipos de secreções corporais. Os pinguins de Humboldt, por exemplo, disparam excrementos a mais de um metro e meio. Mesmo que os caprinos não se defendam desse modo, ser lançado do cume de uma montanha por um bode não ficaria bem em meu necrológio. Por precaução, desisti do gesto afetuoso.

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À noite fui dar uma volta em frente ao hotel. Dessa vez o céu estava perfeitamente limpo.

Foi quando a vi, na forma de uma enorme mancha luminosa no céu. Era a Via Láctea!

Eu sabia que o Caminho de Santiago estava alinhado com ela, mas, quando o percorri, nunca a tinha observado a olha nu.

Fiquei espantado, pasmo, estupefato, fitando aquela maravilha do Cosmos.

Agradeci a Deus naquele momento, porque, para além de poder perceber as comezinhas disposições tribais e os ódios religiosos que nos separam, Ele também me deu a condição de apreciar aquele imenso borrão resplandecente, milagrosamente suspenso nos céus e “longe das cercas embandeiradas que separam quintais”, como cantou Raul Seixas.

De quais seios emanaram os respingos cintilantes que formaram a Via Láctea? Seriam úberes de vacas ou de cabras celestiais? Seja como for, eles dissiparam a neblina do meu dia e iluminaram a escuridão da minha noite...


Emerson Barros de Aguiar é escritor neoarmorial, teólogo e jusfilósofo progressista
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