Uma manhã fria e nevoenta no brejo. A cidade desfilava seus véus de esbranquiçadas gotículas como filó em vestido de noiva. Não chovia, mas...

O relojoeiro atrasado

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Uma manhã fria e nevoenta no brejo. A cidade desfilava seus véus de esbranquiçadas gotículas como filó em vestido de noiva. Não chovia, mas a cidade lacrimejava invadindo os poros daqueles tijolos tão centenários. O sol insistia em rasgar aquele manto com seus amarelos, mas em vão.

O campanário da igreja matriz, glorificado com o símbolo máximo do tempo – o relógio central – estava invisível. Assim como trinta palmos à frente de cada transeunte, uns poucos naquele amanhecer friorento.
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Dentro da casa o silêncio dos sonolentos e o tintilar das primeiras horas de trabalho. Aromas de café e de mesa pronta.

Mas algo errado havia naquela manhã cinzenta. Não era o frio, este já esperado e saudado como amigo nas férias. Não era o vento gelado, assoviando pelas ruelas de paralelepípedos, vazias de gente. Não era o chiado do dia, aqueles barulhozinhos marcantes de todas as manhãs. O sino não avisou a chegada da manhã. Reinou silêncio das badaladas compassadas, contadas. A hora não veio.

Mas ninguém se importou muito. Só as católicas que apeavam seus terços para inaugurar o dia com bençãos, avisadas pelo bater das horas. A hora não veio.

Dentro das casas também um estranhamento daquela manhã. Na casa verde de portas marrons, o relógio-cuco Herweg não funcionou. Todo entalhado de mogno com dois pêndulos mecânicos, o cuco não deu o ar de sua graça. A portinhola da hora-em-hora permaneceu fechadinha e o cuco dormitado como os habitantes daquela casa. Numa outra casa amarela das portas e janelas azuis, repousava passivo, um relógio carrilhão Rubinick na parede mofada da sala. Apesar do movimento pendular, a hora não passava. Aquele tic-tac que enchia o silêncio da casa cessara. Também, num imponente sobrado em tons pasteis de janelas envidraçadas, um Hermle alemão fazia as vezes de mordomo. Carrilhão de coluna, repousava impávido como um soldado no salão central do casarão. Parado e surdo. Contemplava os transeuntes madrugueiros, mas sem batimentos de hora.

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Lá para as tantas, quando a névoa abandonava o chão da praça central e, enfim, permitia o sol e seus resplendores, a cidade acordava num tempo sem tempo. Relógios de pulso, relógios digitais, alarmes e bips não funcionavam. Parados às seis horas, hora sagrada, Laudes para o mundo cristão e hora de pegar no batente para o mundo do trabalho. E não só os relógios pararam, mas também o tempo!

O dia tornou-se um estribilho. As pessoas daquela cidade acordavam todos os dias com a sensação de já ter vivido aquele tempo. E mais, com a nítida impressão que tudo acontecia da mesma maneira. Mas a vida é uma repetição, pensavam uns. A rotina faz parte da existência, diziam outros. O tempo é mesmo cíclico. O arco solar se repete todos os dias trazendo as manhãs, os vespertinos e os noturnos. A Natureza é o lastro da repetição, com suas estações que sempre voltam, com suas águas brotadeiras de vida e seus solares carregados de cores vivas.

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Mas, sim, o tempo passa. Nos seus ciclos, despeja vida, uma vida a mais. Os anos. O amadurecer. Mas para os moradores daquela cidade das montanhas, o tempo parou. Durante 13 anos não se ouvia falar de aniversários e nem de novidades. Nem mesmo de mortes. As fofocas perderam seu fôlego para a repetição dos fatos. O que de início era júbilo, o não envelhecer, passou a ser mácula. Ao redor, tudo mudava e envelhecia. Ao redor, gente nascia e as notícias eram renovadas. Ser eternamente jovem talvez fosse mais um carma do que um sonho. As pessoas perderam o gosto da vida, que é a novidade. O gosto da vida é o lúdico, é o trágico e o cômico. Mas ali riam-se das mesmas coisas. Brincavam-se dos mesmos jogos. Choravam-se as mesmas desgraças.

O mundo e suas guerras. As maravilhas do mundo. Nada disso era sabido. O que se sabia era aquela velha estrofe, cansada e caduca. Mas a quem recorrer?

Tudo foi tentado. A mais moderna ciência foi usada. A física relativista e inclusive as tendências quânticas não conseguiram explicar aquele fenômeno. Religiosos recitavam suas preces em vão. Até magos foram evocados por alguém pensar que aquilo era um feitiço do tempo, uma praga abjeta para aquela comunidade abraçada aos altos cumes friorentos.

Aquele relógio tinha a história nos traços das marcações dos minutos e horas
Eis que uma menininha que todos os dias passava correndo pelas quinas do coreto da praça, depois de cair pela enésima vez naquele tempo repisado, acudida pelo pai distraído, volta para casa na mesma hora, no mesmo caminho, no mesmo diálogo. Mas alguma coisa se alterou naquela hora. A menininha pula dos braços do pai rumo a um casarão revestido de azulejos portugueses, de janelas adornadas de entrelaces de cimento e cal, de portinholas dividas ao meio, fechadas com ferrolhos maciços. Ela salta e corre, entrando desembestada na casa do relojoeiro da cidade. Lá está o senhor relojoeiro, cultivando seus encantos pela arte da paciência e pelo olhar tranquilo atravessado por um monóculo muito estranho, que só ele usava.

Ela chega perto de um móvel de madeira e vidro, repleto de antigos relógios, peças, parafusos e chaves estranhas. O relojoeiro sempre lá, acostumado a trabalhar e ver a vida correr entre os vidros da loja e dos relógios que consertava. Ele a recebe com carinho enquanto ela, sassaricada, aponta para um velho relógio esquecido numa aparadeira de ferro. Repousava como os outros, adormecido e mudo.

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O relojoeiro ri da cena. Aquele era o primeiro relógio que chegou na cidade. Veio talvez à galope, trazido por um aventureiro que vendia o tempo. Aquele relógio tinha a história nos traços das marcações dos minutos e horas. Sua caixa de madeira, fazia ondulações como uma cabeleira que ia do topo das 12 horas até o largo lateral da face do aparador. Madeira rígida, resistente até ao tempo, nem o relojoeiro sabia ao certo quando ele tinha parado de marcar as horas. Decerto que no dia em que todos os outros pararam, pois ele era alimentado por uma chave de corda uma vez, a cada quarta-feira.

O paciente relojoeiro, impressionado com a ansiedade da garotinha face àquele relógio esquecido, chegou perto dele com a chave numa tentativa vã de que ele voltasse a caminhar rápido em seus minutos e lento em suas horas. Nem um tic, nem um tac. Só aquele som meio zumbido da corda girando como coração do mecanismo.

“O tempo tá preso nele!” disse a menininha ao senhor relojoeiro.

Ao término de alguns giros de chave da corda, o tic-tac invade a oficina do relojoeiro como um choro de um bebê diante do seu primeiro respiro
Ele ergueu-se de sua cadeira, pegou algumas ferramentas e abriu a caixa do relógio parado. Estava intacto, como se novo fosse. Depois de desatarraxar alguns parafusos engastados pelo tempo, retirou a tampa traseira e, com seu monóculo estranho, passou a examinar minuciosamente peça por peça.

O relojoeiro é um anatomista do tempo. Passando pela ponte da rodagem, chegou à platina do tambor. Nada de errado. A verificação começa pela âncora de escape, âncora e forquilha, passando por espirais e cabelo, sistema de molas e balacins que dão vida à corda. Retirada o rochete, poderia passar para desmontagem da platina das rodas dentadas. Como um cirurgião, chegou ao tambor de corda e ao centro do mecanismo, a mola real. Ela faz pulsar um complexo mecanismo por entre pontes, volantes e pinos minúsculos. O relojoeiro é o artista da paciência.

Peça por peça jazia sobre a mesa. A busca agora seria por uma imperfeição causada pelo desgaste natural do atrito entre peças. Um martelo miúdo e quase imperceptível era o lugar da falha. Um martelo simbolicamente na história da humanidade representa a construção. Faz vir à tona as guerras com suas espadas forjadas entre uma batida e outra para afiar a dureza do ferro com o calor das furnas e o peso da bigorna. Martelo e bigorna como um casal que dá à luz a pregos, talheres, esteios e um mundaréu de artefatos da civilização. O martelo que violenta a madeira atravessada por pregos. Dos nórdicos aos senhores fabris que ergueram cidades e pontes, catedrais e ataúdes. O martelo, era o martelo.

Com uma pinça, o relojoeiro raspa com uma lima uma crosta própria do tempo dos metais, a que chamamos ferrugem. O tempo se enferruja também e assim para.

Três horas depois, o relógio de mesa estava prontinho. Agora era dar corda e esperar o mecanismo ressuscitar. Era o relojoeiro algo assim como um deus. Como aquele deus que os modernos acreditavam ter construído o universo como quem constrói uma máquina. O relojoeiro como um deus ex machina, uma inteligência capaz de resolver os impasses criados pelos homens. Ao término de alguns giros de chave da corda, o tic-tac invade a oficina do relojoeiro como um choro de um bebê diante do seu primeiro respiro.

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Aquele som inunda a cidade, atravessa as largas paredes de argamassa, as madeiras centenárias daqueles portões quase rachando os ladrilhos de mosaicos que tornam o chão um caleidoscópio. O som desperta os outros relógios e já se ouvia o badalar lento das 6:30 no campanário. As fruteiras sobre as mesas já apresentavam seus sinais de amadurecimento, com as pintinhas nas bananas antes sempre amarelas, com a rachadura da pele das laranjas e o azedume dos abacaxis e maracujás. Os suores empesteiam os lençóis cansados de tantos anos sem troca. Os primeiros fiapos de bigode aparecem nos moleques. Os velhos se queixam das dores que o frio lhes traz. As senhoras se reencantam com a possibilidade de comprar novos vestidos. Os homens, estes de aprendizado mais difícil, tentam renovar-se trocando seus carros.

A rádio local anuncia o falecimento de várias almas. No hospital municipal, a maternidade abriga outras tantas almas. Cronos, o senhor do tempo, ressurge imponente. Cronos é o deus que devora os próprios filhos, pois o tempo é o criador das gentes, das partículas do mundo. Desmonta para remontar. Destrói para reconstruir. O tempo é o deserto de um oásis. O Tempo é o senhor do restauro. Nos torna finitos, como poeira. Nos torna infinitos enquanto o tempo em nós persistir.


Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor
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