Num rompante, ou mesmo por questões de mágoas profundas de quem vive ruminando ressentimentos, desejar a morte de alguém pode parecer um se...

Ideias perigosas

ambiente de leitura carlos romero milton marques junior desejo de morte do presidente helio schwartsman arbitrariedade totalitarismo holocausto vinganca

Num rompante, ou mesmo por questões de mágoas profundas de quem vive ruminando ressentimentos, desejar a morte de alguém pode parecer um sentimento compreensível, é do humano, do humano infeliz, mas humano. O que não me parece compreensível e nem natural é alguém sentar, pensar, calcular, elaborar um raciocínio e sob a falsa alegação de “raciocínio filosófico”, desejar a morte de alguém, tornar isso público e oficial, através de artigo na grande imprensa. É assim que as ideias perigosas tomam corpo.

É assim que de um desejo de Hitler, enviado por  Göring ao general da SS Reinhard Heydrich e deste para o diplomata Martin Franz Julius Luther, a ideia da remoção dos judeus vai crescendo e desemboca na “solução final” do holocausto, depois de reuniões em que o assunto passa a ser meticulosamente discutido e planejado.

Uma ideia perigosa é tudo o que um estado totalitário deseja para se firmar pelo terror, com uma falsa justificativa de estar fazendo o bem para a população, afastando e exterminando os que pensam diferente e, consequentemente, tido como inimigos e perigosos para o Estado.
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Tanto faz ser Sobibor e Treblinka, com seus campos de concentração, quanto a Sibéria, com os Gulags; tanto faz o projeto de segregação nos guetos de Varsóvia, quanto o projeto holodomor na Ucrânia, de matar planejadamente de fome; tanto faz a perseguição de intelectuais, escritores e cientistas na Alemanha de Hitler, quanto na Rússia de Stalin. Tudo começa com uma pura e santa ideia, encampada pelo Estado e tornada política oficial: a ideia de que alguém, que simboliza o mal, deve morrer para que muitas vidas sejam salvas. Assim começa e tem continuidade ao contar com o aplauso de pessoas que se dizem inteligentes e, pasmem, humanitárias. A platitude que comanda com mão de ferro o raciocínio midiático atual não deixa perceber o mal que existe entranhado nesse pensamento. Mal que precisa ser punido de acordo com a lei, venha de onde vier, não importa a pessoa ou o cargo que ela ocupa. O Estado, por sua vez, não pode ser executor de vingança, senão de Justiça. É o que define o Estado democrático, desde o século V a. C., proposto por Ésquilo na Oresteia, mais precisamente na terceira tragédia da trilogia, Eumênides.

O mais perigoso decorre dessas ideias estapafúrdias e ditas filosóficas – de qual filosofia? A platônica do Górgias e da República não é, pois Sócrates diz, em alto e bom som, que a justiça é a virtude da alma e é melhor sofrer uma injustiça do que praticá-la –, o mais perigoso é saber quem vai decidir quem deve ou não deve morrer, para o bem dos demais, depois de encampada a ideia e tornada oficial.
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Pergunto isto, porque a nossa existência está cheia dessas arbitrariedades que, vez por outra, se voltam contra o seu idealizador. O mito nos traz um exemplo, a História nos traz outro. O exemplo do mito vem com o tirano Faláris, de Agrigento, na Sicília, no distante século VI a. C., início da colonização da ilha pelos gregos. Faláris recebe de Perilo, artesão ateniense, um touro de bronze oco, para servir de instrumento de tortura. A vítima era colocada dentro do touro e assada lentamente, soltando urros, que saíam pelas narinas da peça, parecidos com os urros do animal, semelhando a estátua estar viva. Faláris viu que o instrumento funcionava a contento, colocando Perilo para ser o primeiro a testá-lo.

O exemplo da História quem nos conta são os revolucionários de 1789, na França. Exacerbando o movimento e descambando para um período de Terror (1793-1795), os jacobinos, sob o comando de Robespierre, guilhotinaram muitos revolucionários, como Danton. Antes de ser executado, Danton avisou ao antigo companheiro que ele seria o próximo a provar do próprio remédio.
 
E foi.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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