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Terra estranha e arrasada, lugar onde aprenderia a conviver com a figura que, ao seu lado, fazia uma sombra sem luz. Ela aproveitava a liberdade no espaço da cena para bailar solta. Trajada num vestido comunitário cintilante que brilhava em lua cheia de notícias populares.

Naquele ambiente, ele passava despercebido e depreciado. O relógio do tempo havia parado e retinia um “tic-tac” ensurdecedor. Seus ponteiros não indicavam qualquer indício
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de auxílio ou solidariedade, servindo apenas como o marcador da existência.

Do torrão de onde viera, ficara o gosto inocente da infância. Sentia saudade da quentura de Mandacaru. Lá, os avós lhe diziam que fome, tristeza e solidão eram coisas do sertão. Isso somente quando o solo tornava-se árido, murchando o fruto da semente: daí se ouvia o choro. Ainda assim, mesmo num duro semblante para o alto, contavam com a união de um povo que dividia as suas preces com um pedaço de rapadura. A ele, o conto servia apenas como história dos antigos.

Nascera na Capital paraibana, saudoso refúgio duma refrescante chuva na porta de um sol abrasador. Mas agora, estava ali, no início de sua púbere idade, morando numa Terra da Garoa de ninguém, totalmente entregue ao maldito frio de deus-dará. Vivendo numa Selva de Pedra, erguida sob a névoa do medo da “morte que pairava entre becos e barracos” cercado pelo cangaço da modernidade.

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Entorpecido pela fome, deitou-se numa tábua e cochilou. Num estado inconsciente, usou depuradamente os sentidos e pôde ouvir o ganido de cães famintos, salivando o amargor da morte. Inspirou. Expirou. A cada renovo de ar que percorria seus pulmões, deixava em seu olfato o fedor de ser, de estar e de permanecer esquecido. Ninguém dali merecia aquilo.

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Deitado sob frios raios fúlgidos, sentiu seu rosto levemente umedecido. Abriu os olhos e viu cães e gatos ao seu entorno. Ainda fraco, ergueu o peito e assentou-se. Olhou rapidamente ao redor e, mais uma vez, escondeu-se dentro de si junto ao amontoado de paus, pregos e resto de madeira de construção. Perturbado, levantou-se e passou a correr atrás dos pequeninos animais.

⏤ Gatinho! Xchiu, xchiu, xchiu, xchiu, xchiu.
br /> No recorte enfeitado na janela da maloca ao lado, uma TV encenava ruído em manchetes de jornais. Alguém aparecia de paletó em horário de sorriso nobre e amarelo-enferrujado. Outra chacina na comunidade: tiros e disputas por território. O incêndio devorou parte da favela: moradores removidos para a Santa Casa da Misericórdia. A maior apreensão de drogas do ano: investigações levaram o departamento de narcóticos a estourar mais uma “boca de fumo”.

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Telespectadores bebiam risos secos entre goles amargos no boteco da esquina: zombavam da própria sorte. Quase todos assistiam, satisfeitos, a mais um reclame no intervalo comercial. Era a paga do alto preço da indiferença do progresso social de se ter luz e água gratuitas, ao valor de nada. Gratuito não, nunca ninguém lhes dera algo de graça. Engenhosos, eles faziam um “gato” com fios, tubos e conexões que os mantinham antenados e engajados com a torcida do Timão e, por ora, com as canelas limpas e os cabelos lavados.

Enojado com o alagamento do córrego do Tietê, ele sentiu o gosto de saneamento básico temperado com a farinha do tráfico. Lembrou-se que à noite, abraçaria os seus irmãos para conter o frio. Conforto.
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Era o único momento em que podia sentir o aconchego do calor humano. Por mais que relutasse as aproximações, de junho a agosto, sentia-se aquecido. Noutro instante, seria nos banhos com gélidas cuias, com o pouco d’água que sobrara na cisterna: buscava aquecer o corpo aos saltos inflamados. No relento molhado, cantarolava sozinho a canção que tinha aprendido durante a semana no “jogral social”:

⏤ Ouviro um Inpiranga as margins pracidas. Dum povo éroico e bravo e recumbante.

Aquela era a canção que lhe fazia crescer impávido e colosso; enquanto compartilhava a existência, tempo e movimento num cubículo que mal conseguia oxigenar suas traqueias. Assistia simultaneamente à realização das necessidades fisiológicas diárias de todos. Insanidade social. Sorria escondido em meio àquela cadeia de horrores. Às vezes, brincava de ser cachorro ou, mesmo, gato. Tentava ser criança; precisava sê-lo para não enlouquecer como os outros homens.

⏤ Fiui. Fiui. Fiui. Au. Au. Au. Au.

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Durante muitos anos, ainda teria o mesmo sonho defensivo. Quase sempre, ele mesmo abria uma vala na sala para enterrar seu agressor. Acordava na calada da noite, com as sirenes da polícia à sua porta. Houvera uma denúncia anônima da legítima defesa. Pediam para averiguar o recinto, e era descoberto cimento fresco debaixo da mesa. Desenterravam o defunto, mas ele nunca conseguia ver direito o rosto daquele que tentava tirar-lhe a vida rotineiramente. O sono era interrompido pelos disparos das madrugadas reais.

Na última vez que sonhou com aquela aberração, sua mente já não pertencia mais àquele território. Não era mais inocente, tampouco menino e não entendia porque ainda sonhava com aquilo. Ainda assim, um policial ordenava que abrisse a cova de seu tormento.

Ao exumar o defunto outrora coberto de barro, viu a imagem que encerraria em definitivo aquele déjà vu juvenil: era ele mesmo que estava sendo soterrado quase todos os dias dentro do próprio buraco que cavava.

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