Os grandes homens parecem não ter descanso. Depois que morrem, ficam à mercê do que decidirão fazer com o seu corpo. O poeta latino Publio Virgílio Maro, autor da Eneida, morreu em Brundisium, atual Bríndisi, na Itália, em 19 a. C., e teve, a pedido de Augusto, seu corpo trasladado para Nápoles, longe de Mântua, onde nasceu, e de Roma, onde viveu.
Cenotáfio de Camões, no Panteão Nacional de Lisboa ▪ Foto: V. Oliveira
No ano 2002, assisti, em Paris, à chegada de Alexandre Dumas ao Panthéon, com toda a pompa e circunstância que ele merece. O féretro saiu de Aisne, região próxima a Paris, onde nasceu
Paris, 2002: A chegada dos restos mortais de Alexandre Dumas ao Panthéon.
O local onde deveria repousar o poeta Dante Alighieri também foi objeto de contendas. Tendo morrido no exílio, o poeta foi enterrado na propriedade dos Frades Menores de Ravena, 1321. Giovanni Boccacio, seu maior admirador, responsável por apor o adjetivo Divina à sua Commedia, mostrou-se contra o traslado de seus restos mortais para Florença, cidade natal, madrasta e fingida, que, nas suas palavras, se sentirá piedosa em desejar abrigar o poeta, mas que exultará de júbilo, por não o conseguir. Florença tendo-o perseguido e expulsado em vida, finge querer reavê-lo, na morte. Para Boccacio, Dante não poderia estar em melhor lugar do que em Ravena, onde “jaz em companhia muito mais louvável do que tu [Florença] poderias lhe dar” (Giovanni Boccacio, Vida de Dante, parágrafo 107). O máximo que Florença conseguiu foi um cenotáfio, o famoso túmulo vazio, construído na Basílica de Santa Cruz.
Túmulo de Dante Alighieri, em Ravena, Itália. Construído em estilo neoclássico no século XVIII, o pequeno mausoléu guarda os restos mortais do autor da Divina Comédia, que viveu seus últimos anos no exílio.
Em primeiro lugar, no caso de Augusto dos Anjos, gerar-se-ia um problema: onde seria o túmulo do poeta? Em João Pessoa? Em Cruz do Espírito Santo? Em Sapé? Em segundo lugar, por que tirar o poeta do seu
Túmulo de Augusto dos Anjos, em Leopoldina, Minas Gerais. ▪ Acervo: Chico Viana
Em conversa com o médico e intelectual Manoel Jaime Xavier, ele se mostrou, assim como eu, contra esse descabido traslado, porque quanto mais Augusto se expandir, melhor para a Paraíba e para a sua poesia. É como se fosse, acrescentei, a expansão simbólica de seu famoso e poético tamarindo, que já se ramificou com uma de suas sementes plantada no cemitério daquela cidade mineira, pela professora Ângela Bezerra de Castro e pelo professor Chico Viana. É como disse o poeta, em Vozes da Morte: “depois da morte ainda teremos filhos!”.
Em lugar de ficarmos só no barulho da especulação, acredito que poderiam surgir outras propostas não só viáveis, como exequíveis, para homenagear o poeta como ele merece. Pensamos, Manoel Jaime Xavier
Manoel Jaime Xavier, médico e escritor, natural de Currais Novos-RN, radicado na capital paraibana. ▪ Imagem: Instagram Endovideo
Infelizmente, Chico Pereira, após um período de doença, foi-nos arrebatado, recentemente, pela Indesejada das Gentes, e não houve maneira de realizar o nosso intento. Já no apagar das luzes de dezembro último, reuni-me novamente com Manuel Jaime, e retomamos o assunto. Com o Museu recém-inaugurado, achamos difícil viabilizar a construção de um cenotáfio, mas pensamos que no espaço do jardim bem poderia caber uma placa comemorativa a Augusto dos Anjos.
Museu de História da Paraíba, em João Pessoa. Instalado no Palácio da Redenção, edifício do século XVI, o museu preserva documentos, obras e objetos que narram a formação política, social e cultural do estado, do período colonial à contemporaneidade. ▪ Imagem: Instagram Min. Turismo
Certidão de casamento do poeta Augusto dos Anjos com Esther Fialho, celebrada em 04.06.1910, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, demolida em 1929. ▪ Fonte: Diocese JP.
O trajeto terminaria na Academia Paraibana de Letras, onde se encontra, sem dúvida, um dos mais importantes acervos sobre o poeta. Vê-se, logo, na entrada, em posição de destaque, uma estátua de Augusto dos Anjos, em bronze, de autoria do artista Jurandyr Maciel, feita na administração do acadêmico Damião Ramos Cavalcanti, quando presidente daquela entidade. Trata-se, sem dúvida, de um belo cartão de visita.
A Academia Paraibana de Letras, fundada em 1941. A entidade é instalada em construção histórica no centro da capital do estado.
Ao Complexo Augustano, se juntaria o passeio “Nos Passos de Augusto”, durante o mês de novembro, indo para a sua quarta realização, neste ano de 2026, e que integra o calendário cultural da APL, juntamente com o “Dia de Augusto dos Anjos”, comemorado em abril, na data do nascimento do poeta.
Passeio cultural pelo centro da capital da Paraíba, intitulado Nos Passos de Augusto. O objetivo do evento consiste em identificar os lugares onde o poeta Augusto dos Anjos morou, durante os dois anos em que residiu na cidade, de 1908 a 1910.
O conjunto me parece fazer uma justiça ao poeta, que encontrou na Paraíba uma madrasta, como ele diz em carta à mãe, Sinhá Mocinha (Rio, 16 de julho de 1911):
“... é muito de louvar o procedimento de Aprígio, saindo dessa Paraíba madrasta, enxotadora monstruosa de seus filhos.”
Não é nosso desejo reavivar ressentimentos, nem continuar com a polêmica de que Augusto dos Anjos teria ou não direito a se ausentar do Liceu, para ir tentar a sorte no Rio de Janeiro, ou se o então governador João Machado teria sido injusto ou não. Acho, contudo, importante o registro do que o poeta pensava com relação ao fato. Sinto que é hora de deixarmos de lado mágoas antigas e partir para a realização de medidas que venham a tornar cada vez mais presente e viva a sua memória, provocando a paz entre o seu espírito e a Paraíba.No Jardim de Academos, na Academia Paraibana de Letras, o pé de tamarindo descendente da árvore de Augusto dos Anjos cresce como memória viva do poeta. ▪ Acervo: José Nunes





































