Os grandes homens parecem não ter descanso. Depois que morrem, ficam à mercê do que decidirão fazer com o seu corpo. O poeta latino Pu...

In Memoriam

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Os grandes homens parecem não ter descanso. Depois que morrem, ficam à mercê do que decidirão fazer com o seu corpo. O poeta latino Publio Virgílio Maro, autor da Eneida, morreu em Brundisium, atual Bríndisi, na Itália, em 19 a. C., e teve, a pedido de Augusto, seu corpo trasladado para Nápoles, longe de Mântua, onde nasceu, e de Roma, onde viveu.

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Cenotáfio de Camões, no Panteão Nacional de Lisboa ▪ Foto: V. Oliveira
O poeta Luís Vaz de Camões, cujos restos mortais, duvidosos, por terem sido retirados de uma vala comum, repousam no Mosteiro de Santa Maria de Belém, também conhecido como o Mosteiro dos Jerônimos, ganhou um cenotáfio no Panteão de Lisboa, como homenagem simbólica ao maior nome da Língua Portuguesa. Este mesmo Panteão só abrigou o corpo de Eça de Queirós, 125 anos após a sua morte. O grande escritor de A ilustre casa de Ramires morreu em Neuilly-sur-Seine (1900), próximo a Paris, sendo transportado para Lisboa, onde foi enterrado no jazigo dos condes de Rezende, no cemitério do Alto de São João. Com o abandono do jazigo, os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério de Santa Cruz do Douro, em Baião, vila do Porto. Desde 2021, que a sua ida para o Panteão havia sido aprovada, mas o traslado só aconteceu em janeiro do ano recém-findo.

No ano 2002, assisti, em Paris, à chegada de Alexandre Dumas ao Panthéon, com toda a pompa e circunstância que ele merece. O féretro saiu de Aisne, região próxima a Paris, onde nasceu
Paris, 2002: A chegada dos restos mortais de Alexandre Dumas ao Panthéon.
e foi sepultado o incansável romancista, autor de O conde de Monte Cristo, desfilando pelas ruas parisienses até chegar ao templo máximo da glória francesa.

O local onde deveria repousar o poeta Dante Alighieri também foi objeto de contendas. Tendo morrido no exílio, o poeta foi enterrado na propriedade dos Frades Menores de Ravena, 1321. Giovanni Boccacio, seu maior admirador, responsável por apor o adjetivo Divina à sua Commedia, mostrou-se contra o traslado de seus restos mortais para Florença, cidade natal, madrasta e fingida, que, nas suas palavras, se sentirá piedosa em desejar abrigar o poeta, mas que exultará de júbilo, por não o conseguir. Florença tendo-o perseguido e expulsado em vida, finge querer reavê-lo, na morte. Para Boccacio, Dante não poderia estar em melhor lugar do que em Ravena, onde “jaz em companhia muito mais louvável do que tu [Florença] poderias lhe dar” (Giovanni Boccacio, Vida de Dante, parágrafo 107). O máximo que Florença conseguiu foi um cenotáfio, o famoso túmulo vazio, construído na Basílica de Santa Cruz.

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Túmulo de Dante Alighieri, em Ravena, Itália. Construído em estilo neoclássico no século XVIII, o pequeno mausoléu guarda os restos mortais do autor da Divina Comédia, que viveu seus últimos anos no exílio.
Esse breve trajeto, envolvendo grandes escritores e as discussões em torno de onde deveriam permanecer os seus restos mortais, relíquia, como se diz em latim, tem o objetivo de dar uma sugestão, com relação ao poeta Augusto dos Anjos. A celeuma sobre a remoção do seu corpo, de Leopoldina, Minas Gerais, para a nossa Paraíba, só perde para a inutilidade da discussão sobre a mudança do nome da capital, deixando de ser João Pessoa, para retornar a ser Paraíba ou Parahyba...

Em primeiro lugar, no caso de Augusto dos Anjos, gerar-se-ia um problema: onde seria o túmulo do poeta? Em João Pessoa? Em Cruz do Espírito Santo? Em Sapé? Em segundo lugar, por que tirar o poeta do seu
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Túmulo de Augusto dos Anjos, em Leopoldina, Minas Gerais. ▪ Acervo: Chico Viana
repouso em Leopoldina, cidade que o acolheu e cuida muitíssimo bem de sua memória? Cuida melhor do que nós que não conseguimos colocar uma placa na Rua Duque de Caxias, indicando que ali o poeta viveu, perambulou, às vezes, só; outras vezes, ao lado de uma figura eminente, como José Américo de Almeida, em “espetáculo ambulatório”; lugar onde estudou, ensinou, escreveu, namorou e casou.

Em conversa com o médico e intelectual Manoel Jaime Xavier, ele se mostrou, assim como eu, contra esse descabido traslado, porque quanto mais Augusto se expandir, melhor para a Paraíba e para a sua poesia. É como se fosse, acrescentei, a expansão simbólica de seu famoso e poético tamarindo, que já se ramificou com uma de suas sementes plantada no cemitério daquela cidade mineira, pela professora Ângela Bezerra de Castro e pelo professor Chico Viana. É como disse o poeta, em Vozes da Morte: “depois da morte ainda teremos filhos!”.

Em lugar de ficarmos só no barulho da especulação, acredito que poderiam surgir outras propostas não só viáveis, como exequíveis, para homenagear o poeta como ele merece. Pensamos, Manoel Jaime Xavier
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Manoel Jaime Xavier, médico e escritor, natural de Currais Novos-RN, radicado na capital paraibana. ▪ Imagem: Instagram Endovideo
e eu, inicialmente, em um cenotáfio, à maneira do que existe para Camões, no Panteão de Lisboa. Homenagem que se concretizaria no âmbito do Museu de História da Paraíba, quando ainda em construção, momento em que conversamos com o querido Chico Pereira, que se encontrava à frente do projeto. Na a ocasião Chico Pereira foi receptivo à ideia, sobretudo pelo fato de que o poeta Augusto dos Anjos se casou na Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, demolida para abrigar o jardim do antigo Palácio do Governo, depois Palácio da Redenção. Seria, para o visitante, uma bela visão, encontrar ali uma homenagem ao maior nome de nossa poesia e um dos maiores da Língua Portuguesa.

Infelizmente, Chico Pereira, após um período de doença, foi-nos arrebatado, recentemente, pela Indesejada das Gentes, e não houve maneira de realizar o nosso intento. Já no apagar das luzes de dezembro último, reuni-me novamente com Manuel Jaime, e retomamos o assunto. Com o Museu recém-inaugurado, achamos difícil viabilizar a construção de um cenotáfio, mas pensamos que no espaço do jardim bem poderia caber uma placa comemorativa a Augusto dos Anjos.

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Museu de História da Paraíba, em João Pessoa. Instalado no Palácio da Redenção, edifício do século XVI, o museu preserva documentos, obras e objetos que narram a formação política, social e cultural do estado, do período colonial à contemporaneidade. ▪ Imagem: Instagram Min. Turismo
A aposição da placa, nos jardins do Museu, integraria o que chamei de Complexo Augustano, registrando a presença do poeta no centro da cidade, em torno da antiga rua Direita/Duque de Caxias, que se espraiaria do Museu de História da Paraíba à Academia Paraibana de Letras.
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Certidão de casamento do poeta Augusto dos Anjos com Esther Fialho, celebrada em 04.06.1910, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, demolida em 1929. ▪ Fonte: Diocese JP.
No trajeto, haveria uma placa indicativa, no início e no final da Duque de Caxias, informando que ali era a rua de Augusto dos Anjos, homenagem com mais sentido do que a pequena rua, com o seu nome, entre a rua D. Pedro Primeiro e a avenida Almirante Barroso, distante dos lugares por onde o poeta passou, quando aqui viveu.

O trajeto terminaria na Academia Paraibana de Letras, onde se encontra, sem dúvida, um dos mais importantes acervos sobre o poeta. Vê-se, logo, na entrada, em posição de destaque, uma estátua de Augusto dos Anjos, em bronze, de autoria do artista Jurandyr Maciel, feita na administração do acadêmico Damião Ramos Cavalcanti, quando presidente daquela entidade. Trata-se, sem dúvida, de um belo cartão de visita.

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A Academia Paraibana de Letras, fundada em 1941. A entidade é instalada em construção histórica no centro da capital do estado.
Dentro da Academia, na casa contígua, que corresponde ao número 37, o caminhante tem a oportunidade de visitar o Memorial Augusto dos Anjos, inaugurado na gestão de Luiz Augusto Crispim, na ocasião presidente da APL. No Jardim de Academos, recuperado na administração de Severino Ramalho Leite, atual presidente da Casa, encontram-se uma herma do poeta e um pé de tamarindo, filho do tamarindo de Augusto, plantado por nós, quando de nossa posse na APL, em março de 2020, com uma placa comemorativa ao fato.

Ao Complexo Augustano, se juntaria o passeio “Nos Passos de Augusto”, durante o mês de novembro, indo para a sua quarta realização, neste ano de 2026, e que integra o calendário cultural da APL, juntamente com o “Dia de Augusto dos Anjos”, comemorado em abril, na data do nascimento do poeta.

Passeio cultural pelo centro da capital da Paraíba, intitulado Nos Passos de Augusto. O objetivo do evento consiste em identificar os lugares onde o poeta Augusto dos Anjos morou, durante os dois anos em que residiu na cidade, de 1908 a 1910.

O conjunto me parece fazer uma justiça ao poeta, que encontrou na Paraíba uma madrasta, como ele diz em carta à mãe, Sinhá Mocinha (Rio, 16 de julho de 1911):

“... é muito de louvar o procedimento de Aprígio, saindo dessa Paraíba madrasta, enxotadora monstruosa de seus filhos.”
Não é nosso desejo reavivar ressentimentos, nem continuar com a polêmica de que Augusto dos Anjos teria ou não direito a se ausentar do Liceu, para ir tentar a sorte no Rio de Janeiro, ou se o então governador João Machado teria sido injusto ou não. Acho, contudo, importante o registro do que o poeta pensava com relação ao fato. Sinto que é hora de deixarmos de lado mágoas antigas e partir para a realização de medidas que venham a tornar cada vez mais presente e viva a sua memória, provocando a paz entre o seu espírito e a Paraíba.

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No Jardim de Academos, na Academia Paraibana de Letras, o pé de tamarindo descendente da árvore de Augusto dos Anjos cresce como memória viva do poeta. ▪ Acervo: José Nunes
Entendemos, finalmente, que a criação desse complexo cultural de grande importância deveria ser realizada, por muitos motivos: por Augusto dos Anjos, por Chico Pereira, que nos deixou, não sem um grande legado cultural, e pela preservação da memória cultural da Paraíba e da cidade de João Pessoa.

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  1. Anônimo3/1/26 07:21

    Bravíssimo, Milton. Palavras de sabedoria e de paz. Parabéns. Francisco Gil Messias.

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  2. Estou inteiramente de acordo, mestre Milton. Aliás, é louvável seu trabalho pela preservação da memória de Augusto

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