Vênus, figura profícua do panteão romano , tem origem obscura, cogitando-se mesmo a possibilidade de, no princípio, haver sido apenas u...

Os olhares de Vênus, expressões de um feminino

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Vênus, figura profícua do panteão romano, tem origem obscura, cogitando-se mesmo a possibilidade de, no princípio, haver sido apenas uma abstração, cuja personificação foi sendo moldada gradativamente. Identificada, nos primórdios, como deusa ligada à vegetação e aos pomares, sua presença é atestada já no santuário de Lavinium, em Ardea, século VI a.C., onde havia um centro de culto a ela.

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Vênus Erycina é um epíteto da deusa Vênus, ligado ao Monte Érice, na Sicília. Ela representa uma Vênus mais antiga, poderosa e ambígua, fortemente associada à sexualidade, à fertilidade e à sedução, mas também à proteção e à guerra ▪️ GD'Art
 
A despeito do caráter religioso a que está vinculada, a sua representatividade perpassa vários vieses. Assim sendo, ela é reverenciada através de diversos epítetos que a caracterizam, a saber: Vênus Erycina, do monte Eryx, na Sicília; Genetrix, Geradora, de caráter fecundador; Obsequens, Complacente; Verticordia, que altera os corações, etc. Assimilada a Afrodite com o advento das guerras púnicas entre romanos e cartagineses, a sua feição erótica, sedutora e propulsora do desejo, enredando deuses e mortais na malha de Eros, teve proeminência.

Além de deusa a quem templos e cultos eram dedicados, ela é referenciada na literatura, apresentada como força criadora que tudo faz brotar na natureza, sendo ela mesma a deusa que suscita a primavera. Vênus também é a protetora e mãe dos romanos, assim como é a metáfora da persuasão amorosa, fruto do desejo. Nesse sentido, os olhares que Vênus suscita são múltiplos, sendo a representação do feminino figurado em várias facetas.

Quanto à sua origem, é relevante pensar a etimologia atribuída a seu nome. Trata-se de um antigo
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neutro abstrato, venus, de que deriva o verbo veneror, venerari, antigamente empregado apenas para exprimir um movimento — mais ainda, uma atitude do homem em relação aos deuses de modo a obter a sua benevolência, graça, favor (venia). Assim, a veneror atribui-se um movimento de confiança conquistada, obtida por um ato de súplica, imbuído de um caráter sedutor, de maneira que a divindade a quem seria direcionada a rogativa cederia e concederia a dádiva.

Desse modo, deveria ser esse o uso religioso do substantivo venus, que é um correspondente exato para a forma do sânscrito uanah, que significa desejo. A raiz wen, “desejar”, está presente no sânscrito vánati, vanóti, váñchati, “ele deseja”, como no védico wunskan, “desejar”, também no gótico wunan, “rejubilar-se”. Nesse sentido, o desejo da obtenção da dádiva está presente no ato de pedir, de suplicar. A mesma raiz encontra-se no vocábulo venenum, “poção, infusão de plantas mágicas”, sinônimo do grego φάρμακον (pharmakon), e como ele, com o sentido pejorativo de “veneno”. Do mesmo modo, corresponde semanticamente ao vocábulo φίλτρον (philtron), com o sentido de “filtro”, mas também de “meio de se fazer amar, encantação, bebida, charme para se fazer amar, charme, sedução, atração”.

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Tais sentidos coadunam-se com os traços de Vênus, a deusa. E foi essa abstração da expressão venus a ser personificada, particularmente designando toda sorte de força. Logo, Vênus assume diferentes faces, e, no desenvolvimento do mito, ela vem a desempenhar papéis diversos.

Em Os Fastos, de Ovídio, por exemplo, encontramos a Venus Aprilis. A obra traz como assunto o calendário das festas religiosas e cívicas de Roma e ilustra antigos mitos e costumes latinos. Dos seis meses contidos no poema, abril é aquele dedicado a Vênus, uma vez que, com ele, a natureza se abre mediante a ação da primavera.
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Vênus Aprilis ▪️ GD'Art
O nome do mês adviria do nome grego da deusa, Afrodite, cuja raiz ἀφρός (aphrós), espuma, remete ao nascimento da deusa, saída das espumas do mar, em uma etimologia literária construída pelo poeta. Aproximar-se-ia, sonoramente e em sentido translato, de aprilis, pois assim como Vênus é a responsável por fazer todos os seres surgirem e abrirem-se para a vida, o mês de abril, em que surge a primavera, traz a abertura da natureza — “lembram abril ser denominado a partir do tempo que se abriu” (OVÍDIO, Fastos, IV, v. 90). Nela, a terra dá frutos, as flores se abrem, tudo brota.

Além disso, o poeta justifica a aproximação entre os nomes, Afrodite, palavra grega, e aprilis, palavra latina, também pelo fato de que o sul da Itália um dia foi a Magna Grécia, e isso poria em contato os dois vocábulos. E mesmo antes, com o fim da guerra de Troia, muitos gregos aportaram em terras itálicas.

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Scopello, cidada da Magna Grécia, conjunto de colônias gregas estabelecidas no sul da Itália e na Sicília entre os séculos VIII e V a.C. ▪️ Foto: Marco Salvatori
O poeta inicia fazendo a invocação à deusa, rogando-lhe o favorecimento na composição dos seus versos:

“Nutriz, sê favorável”, disse, “mãe dos Amores gêmeos”. Ela voltou seus olhos para o vate: “O que, para ti”, diz, “de mim? Certamente coisas maiores cantavas. Acaso no peito tens antiga ferida?” “Conheces, deusa”, respondi, “de ferida.” Ela riu, e o ar próximo a ela era sereno. Ferido ou são, quando deixei tuas insígnias? Tu meu propósito, tu minha obra sempre (foste).
OVÍDIO, Fastos, IV, v. 1-8

Denominada nutriz, Vênus é aquela que irá nutrir o poeta, inspirando-lhe o engenho a fim de que realize os seus versos. Ele a nomeia mãe dos Amores, Eros e Hímeros, o Amor e o Desejo, que a acompanharam em seu nascimento ao sair das espumas do mar, haja vista que eles
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Afresco Marte e Vênus ▪️ Museu Arqueólogo Nacional de Nápoles
fazem parte do seu séquito. São instrumentos do seu agir. Ao voltar o rosto para o vate, assim chamado por ser poeta inspirado pelos deuses, ela pergunta-lhe qual é o seu desejo, uma vez que cantava uma arte considerada maior, o gênero épico. Pergunta-lhe se acaso está ferido no peito, atingido pelo aguilhão do amor, pois são desses assuntos de que ela trata. Sendo Vênus aquela que tem o doce sorriso, ela ri, suavemente, serenando o ambiente com o seu halo.

O poeta, então, diz nunca a haver abandonado, pois sempre foi ela quem ele perseguira, o que remete à produção do poeta Ovídio, que, salvo as Metamorfoses, até então apenas compunha versos cuja matéria fora o amor.

Ele apresenta, a seguir, a proposição do poema:

Os tempos com as causas, retirados de antigos anais, Canto, e os astros sob a terra, tanto nascidos quanto tombados. (OVÍDIO, Fastos, IV, v. 11-12)
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Ovídio ▪️ Anônimo, séc. XVIII
O poeta propõe cantar o alvorecer e o ocaso dos astros, como também as constelações. Além disso, os acontecimentos com suas causas, referindo-se às festas religiosas e aos cultos realizados durante o mês de abril e suas origens, registradas em antigos anais.

Após a proposição, os versos remetem à genealogia dos Júlio-Claudianos, remontando ao ancestral mítico Dárdano, filho de Júpiter. Transcorrem por toda a linhagem troiana, chegando a Eneias, filho de Vênus, que salvou o pai, Anquises, do incêndio de Troia juntamente com os sagrados deuses. Seguem aludindo aos reis albanos, até o nascimento de Rômulo, fundador de Roma.

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Vem, então, o Hino a Vênus (OVÍDIO, Fastos, v. 91-131), que traz, em sua composição, os atributos da deusa. Ele está dividido em dois momentos. Primeiramente, a deusa é reverenciada como força abstrata; depois, ela é mostrada como personificação. Como abstração, atua tal qual força causal de tudo que existe na natureza, tanto no âmbito aquático, terrestre e também celeste, impulsionando homens, animais e vegetação à criação e à procriação. Ela tanto instiga o desejo quanto apazigua a feracidade, pois, pela concórdia, une animais que antes digladiavam. O próprio cosmo se mantém perene por causa dela, uma vez que, sendo a expressão de Eros, atua dinamicamente desde a origem da formação do universo, como força pulsional, sendo, portanto, elemento estruturante.

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Ela é apresentada como força civilizadora, pois confere ao homem o poder de modificar a natureza, ao mesmo tempo que se integra a ela:

Primeiramente, retirou os feros hábitos do homem; Vieram de si a cultura, o cuidado e o asseio.
OVÍDIO,Fastos, IV, v. 107-108

Além disso, as artes surgem sob o seu impulso através da criação poética, quando alguém, uma jovem ferida de amor, desabafa em versos amorosos a dor de ser abandonada. Vênus, então, passa a ser representada como personificação, deusa, cujo culto é instituído nos templos das cidades.

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Remete-se, em seguida, ao episódio do julgamento do monte Ida, em que as três deusas — Hera, Atena e Afrodite — disputaram a posição da mais bela, recebendo o pomo de ouro. Páris, juiz da disputa, optou por Vênus, tendo em troca a mulher mais bela já existente, Helena, rainha de Esparta. O príncipe troiano vai até Esparta, sendo recebido como hóspede por Menelau, rei da região e esposo de Helena. Logo que o rei se ausenta, Páris, imbuído da influência de Afrodite, leva a rainha juntamente com os tesouros de Menelau, o que causa a ida dos gregos a Troia, acontecendo, assim, a guerra entre gregos e troianos.

É interessante observar que, neste episódio, temos um caráter destruidor da deusa, é onde entra a sua ligação com Marte, deus da guerra. Os dois são amantes e atuam como forças opostas, mas complementares. Essa ideia será retomada por Ovídio nos últimos versos deste hino. Por Vênus, a natureza renova-se, e sua ligação com Marte propicia essa renovação. O deus representa a destruição sofrida pela natureza com o inverno, que toma a aparência de morta. Quando a primavera chega, Vênus promove o seu renascimento.

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Mas, a despeito desse caráter destruidor da deusa, ela não é afeita à batalha, e isso o poeta deixa claro quando se refere ao episódio em que Vênus participa da guerra de Troia a fim de defender seu filho Eneias, e é atingida por Diomedes, guerreiro grego (HOMERO, Ilíada, V, v. 330 sgs.). Ferida, ela volta para o Olimpo. Atena, deusa da guerra, zomba da irmã, dizendo que o campo de batalha não é o seu lugar, visto que lá ela vai apenas para se esfregar nas armaduras dos guerreiros.

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Como mãe de Eneias, príncipe da família real troiana e fundador das bases da futura Roma, Vênus é ancestral de Augusto e da família Júlia, mencionada pelo poeta a fim de prestar ao imperador a dedicatória do poema. Nesse sentido, a deusa é referenciada como personalidade, e não como abstração, o que situa o seu campo de ação em dois planos: um concreto e outro imponderável.

Assim, em Vênus há a anima da feminilidade, a vis da fecundidade, a persuasio da sedução e o *apertum* do erotismo e da sexualidade. Alma, força, persuasão e abertura: eis alguns dos atributos que compõem os olhares de Vênus, expressões de um feminino.

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