Vênus, figura profícua do panteão romano, tem origem obscura, cogitando-se mesmo a possibilidade de, no princípio, haver sido apenas uma abstração, cuja personificação foi sendo moldada gradativamente. Identificada, nos primórdios, como deusa ligada à vegetação e aos pomares, sua presença é atestada já no santuário de Lavinium, em Ardea, século VI a.C., onde havia um centro de culto a ela.
Vênus Erycina é um epíteto da deusa Vênus, ligado ao Monte Érice, na Sicília. Ela representa uma Vênus mais antiga, poderosa e ambígua, fortemente associada à sexualidade, à fertilidade e à sedução, mas também à proteção e à guerra ▪️ GD'Art
Além de deusa a quem templos e cultos eram dedicados, ela é referenciada na literatura, apresentada como força criadora que tudo faz brotar na natureza, sendo ela mesma a deusa que suscita a primavera. Vênus também é a protetora e mãe dos romanos, assim como é a metáfora da persuasão amorosa, fruto do desejo. Nesse sentido, os olhares que Vênus suscita são múltiplos, sendo a representação do feminino figurado em várias facetas.
Quanto à sua origem, é relevante pensar a etimologia atribuída a seu nome. Trata-se de um antigo
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Desse modo, deveria ser esse o uso religioso do substantivo venus, que é um correspondente exato para a forma do sânscrito uanah, que significa desejo. A raiz wen, “desejar”, está presente no sânscrito vánati, vanóti, váñchati, “ele deseja”, como no védico wunskan, “desejar”, também no gótico wunan, “rejubilar-se”. Nesse sentido, o desejo da obtenção da dádiva está presente no ato de pedir, de suplicar. A mesma raiz encontra-se no vocábulo venenum, “poção, infusão de plantas mágicas”, sinônimo do grego φάρμακον (pharmakon), e como ele, com o sentido pejorativo de “veneno”. Do mesmo modo, corresponde semanticamente ao vocábulo φίλτρον (philtron), com o sentido de “filtro”, mas também de “meio de se fazer amar, encantação, bebida, charme para se fazer amar, charme, sedução, atração”.
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Em Os Fastos, de Ovídio, por exemplo, encontramos a Venus Aprilis. A obra traz como assunto o calendário das festas religiosas e cívicas de Roma e ilustra antigos mitos e costumes latinos. Dos seis meses contidos no poema, abril é aquele dedicado a Vênus, uma vez que, com ele, a natureza se abre mediante a ação da primavera.
Vênus Aprilis ▪️ GD'Art
Além disso, o poeta justifica a aproximação entre os nomes, Afrodite, palavra grega, e aprilis, palavra latina, também pelo fato de que o sul da Itália um dia foi a Magna Grécia, e isso poria em contato os dois vocábulos. E mesmo antes, com o fim da guerra de Troia, muitos gregos aportaram em terras itálicas.
Scopello, cidada da Magna Grécia, conjunto de colônias gregas estabelecidas no sul da Itália e na Sicília entre os séculos VIII e V a.C. ▪️ Foto: Marco Salvatori
“Nutriz, sê favorável”, disse, “mãe dos Amores gêmeos”.
Ela voltou seus olhos para o vate:
“O que, para ti”, diz, “de mim? Certamente coisas maiores cantavas.
Acaso no peito tens antiga ferida?”
“Conheces, deusa”, respondi, “de ferida.” Ela riu, e o ar
próximo a ela era sereno.
Ferido ou são, quando deixei tuas insígnias?
Tu meu propósito, tu minha obra sempre (foste).
OVÍDIO, Fastos, IV, v. 1-8
OVÍDIO, Fastos, IV, v. 1-8
Denominada nutriz, Vênus é aquela que irá nutrir o poeta, inspirando-lhe o engenho a fim de que realize os seus versos. Ele a nomeia mãe dos Amores, Eros e Hímeros, o Amor e o Desejo, que a acompanharam em seu nascimento ao sair das espumas do mar, haja vista que eles
Afresco Marte e Vênus ▪️ Museu Arqueólogo Nacional de Nápoles
O poeta, então, diz nunca a haver abandonado, pois sempre foi ela quem ele perseguira, o que remete à produção do poeta Ovídio, que, salvo as Metamorfoses, até então apenas compunha versos cuja matéria fora o amor.
Ele apresenta, a seguir, a proposição do poema:
Os tempos com as causas, retirados de antigos anais,
Canto, e os astros sob a terra, tanto nascidos quanto tombados.
(OVÍDIO, Fastos, IV, v. 11-12)
Ovídio ▪️ Anônimo, séc. XVIII
Após a proposição, os versos remetem à genealogia dos Júlio-Claudianos, remontando ao ancestral mítico Dárdano, filho de Júpiter. Transcorrem por toda a linhagem troiana, chegando a Eneias, filho de Vênus, que salvou o pai, Anquises, do incêndio de Troia juntamente com os sagrados deuses. Seguem aludindo aos reis albanos, até o nascimento de Rômulo, fundador de Roma.
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Primeiramente, retirou os feros hábitos do homem;
Vieram de si a cultura, o cuidado e o asseio.
OVÍDIO,Fastos, IV, v. 107-108
OVÍDIO,Fastos, IV, v. 107-108
Além disso, as artes surgem sob o seu impulso através da criação poética, quando alguém, uma jovem ferida de amor, desabafa em versos amorosos a dor de ser abandonada. Vênus, então, passa a ser representada como personificação, deusa, cujo culto é instituído nos templos das cidades.
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É interessante observar que, neste episódio, temos um caráter destruidor da deusa, é onde entra a sua ligação com Marte, deus da guerra. Os dois são amantes e atuam como forças opostas, mas complementares. Essa ideia será retomada por Ovídio nos últimos versos deste hino. Por Vênus, a natureza renova-se, e sua ligação com Marte propicia essa renovação. O deus representa a destruição sofrida pela natureza com o inverno, que toma a aparência de morta. Quando a primavera chega, Vênus promove o seu renascimento.
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Assim, em Vênus há a anima da feminilidade, a vis da fecundidade, a persuasio da sedução e o *apertum* do erotismo e da sexualidade. Alma, força, persuasão e abertura: eis alguns dos atributos que compõem os olhares de Vênus, expressões de um feminino.



































