Encontrei o proprietário de uma alfaiataria que somente costura camisas. Quando se aproximavam os períodos marcantes das grandes festas do ...

Sob medida

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Encontrei o proprietário de uma alfaiataria que somente costura camisas. Quando se aproximavam os períodos marcantes das grandes festas do ano, e mesmo sem que houvesse feriado à vista, nunca faltava encomenda. Eram algumas máquinas de costura, a pedal ou a eletricidade, cansadas de tanto as agulhas correrem sobre os tecidos e cumprirem a data de entrega da encomenda.

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As confecções não haviam ganhado o mercado de vestimentas. Tudo feito sob medida. Ao lhe perguntar pelo movimento, ele suspirou. Lamentou a queda da procura, a escassez de fregueses, ficando tudo reduzido àqueles que, à antiga, insistem em usar camisas personalizadas, na medida, cortadas e costuradas unicamente para eles. Geralmente, pessoas de perfil bem maduro na extensão da idade. Não que sejam velhinhos, porém acostumados a vestirem mangas curtas ou uma social, mangas longas. Havia a vantagem e até o prazeroso exercício em escolher nas lojas de tecido a consistência e gravura adequadas, a gosto de quem iria usá-las.

Atualmente contam-se nos dedos, os estabelecimentos que não aderiram a confecções pré-moldadas, identificadas pelo número ou letra: P, M, G, GG. Tanto que as lojas especializadas que mantêm o estoque de peças de tecido a serem medidas e recortadas por tesouras amoladas, certinho para a justeza da camisa a ser costurada, são relíquias ou muito reduzidas.

Procurei, há algum tempo, linho para cobrir minha ansiedade de conforto e elegância. Após peregrinar por várias casas do ramo, dei com uns restantes metros de branco perolado mostrados por hábil vendedor. Levou-me ao esconderijo da prateleira como a uma gruta de tesouro. À minha vista, aquela raridade parca, quase a sumir, caso não houvesse eu chegado logo.

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O tecido estava inclusive reservado para alguém que não cumpriu a promessa de ir buscar a relíquia. “Compre logo”, aconselhou o balconista. E levei o corte para a habilidade do alfaiate de quem falo no início desta crônica. Ficou encantado com a maciez e brilho do pano nobre que iria me deixar elegante, conforme garantiu. E assim o foi.

A velocidade do tempo hodierno não admite o luxo em manter certos padrões da moda e costura. Por onde andam as costureiras e alfaiates “particulares”? Na extinta feira da Primavera, onde funcionou, também, a antiga rodoviária, os resistentes alfaiates, em exíguo espaço, não aceitam encomendas para ternos. Raramente, uma calça e reformas de roupas usadas. As costureiras, pelo que dizem, trabalham em fábricas espalhadas pelo Brasil afora, correndo no pedal para entrega de vários tipos de confecções. Costuram por necessidade. Não pela satisfação em ver o cliente amigo provar, em jeitos, com riscos e alfinetes, a veste personalizada.

Nada a reclamar, mas a lamentar. A população cresceu, a escala demográfica que o ateste. A massificação tirou dos antigos profissionais da costura a linha e o pedal. Sobrevivem apenas alguns pela arte e engenho em talhar, teimosos, a elegância na medida do perfil dos fregueses que lhes restam.


José Leite Guerra é bacharel em direito, poeta e cronista
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