O dia amanhece bem próximo ao mar, no encantado olhar do tempo, em formidável caminhar pelas deliciosas areias da praia do Cabo Branco. A s...

O belo pomar do Cabo Branco

ambiente de leitura carlos romero juca pontes fundacao casa de jose americo museu cultura paraibana

O dia amanhece bem próximo ao mar, no encantado olhar do tempo, em formidável caminhar pelas deliciosas areias da praia do Cabo Branco. A sorver o gesto das ondas, que tocam e voltam sobre as esquinas da memória. A dividir a maresia com o doce prateado de suas espumas, para, depois, fincar definitiva moradia, bem ali, ao lado do extremo das Américas.

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Justamente, naquela varanda do Cabo Branco. Por ser o sítio escolhido por José Américo e sua amada Alice, para desenharem seus sonhos e caminhos de esperança e, também, erguerem seu domicílio familiar de vida e poesia. Foi ali onde o casal nomeou o melhor lugar para viver até os últimos anos e receber a visita dos mais queridos.

O horizonte floresce com a livre canção dos pássaros, a nos guiar, agora, nessa mesma hora, a esplêndido diálogo com o pomar da Casa de Zé. Passeio pelos ventos de um tempo inaugural, a enxergar a brisa com as palhas verdes dos coqueiros e a ouvir o cair das folhas no quintal. Por fim, a celebrar a festa do orvalho, onde o puro azul do infinito quase sempre aflora pela bela aurora das horas.

“Às vezes o mar e a mata se combinam, revestindo-se do mesmo verde. O oceano, mais volúvel, ostenta, em certas horas, um colorido fabuloso, aqui verde e ali azul. Volto as costas e ouço pássaros soltos. Não é somente a vista que merece recrear-se, os ouvidos levam à alma a certeza de que tudo está em festa”. No dizer de José Américo.

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Verde e azul, flores e cores, folhas e podas, galhos e malhos, talos e ninhos, toras e guardins: são clarins nos mesmos tons e sons que, a todo tempo, descrevem o carinho do seu augusto benfeitor. Transparecem sombreiros, velames e plumeiros, dividindo as nuvens com apressados saguins. Enquanto a água da chuva desenha conchas sobre a luz, singular cenário resplandece com a primavera.

A partir desse ponto, a mágica excursão se estende ao Museu Casa. É, aqui, onde se encontra guardado o coração de sua voz literária. E onde podemos folhear esmaecidas páginas de “A Bagaceira”, a maior de suas obras. Saudada com entusiasmo por Tristão de Athayde, é, também, exultada, ao lado de “Macunaíma”, de Mário de Andrade, como marco inicial do romance regionalista do modernismo no Brasil.

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Nos cantos de cada sala, em cada fio ou detalhe de sacadas e janelas, o museu mantém viva a imprescindível imagem de um dos maiores autores brasileiros. Entre os pertences que marcam uma era cheia de beleza e simplicidade, os singelos chinelos assinalam o meigo balançar da rede, que, por vezes, ofereceu acolhida ao verdadeiro sentimento do extraordinário homem público.

O antes menino de engenho nasceu para ser homem íntegro do seu tempo. De Olho d’Água, em Areia, se mostrou para o mundo, por meio do virtuoso domínio do seu pensamento e pelas imperecíveis características de sua inconfundível caligrafia humana. O escritor desbravaria itinerários líricos e políticos por toda vida, a abrir caminho para o novo e a abrigar permanente diálogo com o futuro.

A busca constante pela reafirmação dos valores culturais de nossa memória mantém conversação constante com o homem e sua terra. Porque, assim, se expressam e, também, são impressas as marcas da Fundação que inscrevem o seu nome, para preservarem os signos do seu valoroso patrimônio, por assim dizer, entre as maiores e vencedoras trincheiras da história.

Para Janete Lins Rodriguez, por seu escolhido olhar ao merecido lugar que ocupa o pensamento de José Américo em nossos florescidos horizontes.

No olhar, o azul do mar, o verde do pomar. Na estante, o modo de ler de Ângela Bezerra de Castro. Na canção, a sanfona de Sivuca. Na lapada, a cachaça tomada, em Areia, com dona Silvana e seu Moura. No gesto, o maior abraço ao time da Casa de Zé. No coração, uma paixão.
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