Poemas soltos e livres, os de Vitória Lima. Por isso mesmo, podem dar a falsa impressão de que a autora procede com desleixo no que tange a...

Relendo Vitória Lima

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Poemas soltos e livres, os de Vitória Lima. Por isso mesmo, podem dar a falsa impressão de que a autora procede com desleixo no que tange ao aspecto formal de cada um deles. Ledo engano, pois, fosse assim, Vitória não teria publicado apenas dois livros – “Anos bissextos” e “Fúcsia” –, ambos magrinhos, enxutos, esbeltos, como magrinhos, enxutos e esbeltos são a maioria quase absoluta dos poemas que os compõem. Quero dizer: a produção quase bissexta de Vitória já confirma e chancela o seu rigor e a sua disciplina na elaboração do poema.
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Vitória Lima
Portanto, não deve o leitor confundir espontaneidade – mas uma espontaneidade obtida à duras penas – com negligência formal ou desdouro com relação à linguagem, ao discurso poético.

Não se pense, porém, que os poemas de Vitória são regidos exclusivamente pelo racionalismo, pois, antes de submetê-los à água do alguidar de que fala o eu lírico de “Catar feijão”, ela os escreve munida de uma paciência meio atenta e meio distraída, conforme a concepção de Mario Quintana sobre a fenomenologia poética. E ainda de acordo com o lírico de Alegrete, talvez ela parta do princípio de que, mesmo acreditando na inspiração, a poesia, “como todo verdadeiro jogo, é uma luta da astúcia contra o acaso”. Em suma, se a inspiração chega de forma abrupta, dádiva do acaso, dos céus, dos deuses, cabe ao poeta investir no próprio acaso, para, com astúcia, paciência, engenho e arte, imprimir ao poema o sinete da literariedade. É o que faz a autora de “Fúcsia”.

Por outro lado, Vitória alija “as lebres de vidro do invisível”, o inefável, o etéreo, os temas metafísicos, em prol de um discurso firmado na carnadura do cotidiano, do dia a dia, valendo-se, algumas vezes, de uma dicção calcada na oralidade, numa espécie de conversa ao pé do ouvido com o leitor:

“Quando olho no espelho
lembro da amiga que dizia
‘Quanto mais choro
mais passo batom’”.

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Contudo, essa conversa ao pé do ouvido, longe de se isolar num solipsismo claustrofóbico, fechado em si mesmo, converte-se numa caixa de ressonância capaz de amplificar em muitos decibéis o lirismo, que teria tudo para se confinar nos estreitos limites do “lirismo raquítico”, “funcionário público”, “sifilítico”, segundo as expressões utilizadas por Manuel Bandeira para conceituar o lirismo menor, falho de expressividade.

Outras vezes, no entanto, e à maneira de Walt Whitman, Vitória imprime aos seus poemas um tom discursivo, como o faz em “Eu vi os homens trabalhando”. Mas, mesmo discursivo, eu diria que a sua linguagem substantiva opera uma espécie de síntese capaz de aproximar os extremos, de unificá-los, a exemplo do Magro Stan Laurel e do Gordo Oliver Hardy, conforme procurei demonstrar no poema “de como o magro é continuação do gordo”, do meu livro “A Ilha na ostra”, Edições Sanhauá, 1970, com capa de Flávio Tavares:

“o magro
no gordo existe
como uma roupa
existe no cabide.

o magro
se ajusta ao gordo
como uma roupa
se ajusta ao corpo.

o magro
existe no gordo
como em ambos
existe o chapéu coco.

do gordo é o magro
continuação intensa:
um ponto dentro
de uma circunferência”
.

Apenas dois livros, é verdade, mas suficientes para distinguir e diferençar a voz de Vitória Lima entre as muitas que compõem a produção poética feita na Paraíba.


Sérgio de Castro Pinto é doutor em literatura, professor e poeta
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