Sempre me intrigou o assunto da violência sexual contra as crianças. Pergunto-me: como um homem, — na maioria das vezes um familiar que sup...

Um grito através da dança

ambiente de leitura carlos romero ana adelaide peixoto tavares abuso sexual infantil estupro pedofilia silencio da denuncia violencia sexual

Sempre me intrigou o assunto da violência sexual contra as crianças. Pergunto-me: como um homem, — na maioria das vezes um familiar que supostamente deveria proteger (pai, padrasto, padrinho) — abusa de pré-adolescentes? Onde mora esse prazer de tamanha brutalidade? É distúrbio? Doença? Seja o que for, é abominável esse descompasso do sexo entre um adulto e uma criança, que não entende o que acontece, ainda mais aquele abuso estudado. Quais os caminhos? Quais as estratégias para atingir-se tão aberrante objetivo?

ambiente de leitura carlos romero ana adelaide peixoto tavares abuso sexual infantil estupro pedofilia silencio da denuncia
Coloco em destaque "Inocência Roubada" (2018), produção cinematográfica francesa, com roteiro e direção de Andréa Bescond, que também é a protagonista do filme. Quem não assistiu, evitando o assunto ora abordado, perdeu um dos mais fortes e belos filmes da temporada. Nessa obra, podemos ver, um pouco, a diabólica artimanha do assediador.

Um adulto da família, uma menina linda, mocinha, uma mãe competitiva e cruel, um pai amoroso, uma confiança na amizade... e pronto. Um afago, um elogio e, mais adiante, pedidos repulsivos. A criança intui que há algo de podre naquela abordagem, naquele toque, naquela invasão. Mas, quem há de acreditar numa leitura ainda indecifrável do ponto de vista de uma menina?

Aí é que o abusador se apodera do medo e da vulnerabilidade da garotinha. Mais doces, mais palavras de afagos, mais jogos de manipulação. Sabemos bem como é fácil cair em armadilhas , mesmo quando nos tornamos adultos. O tema de tal magnitude de violência mostra como a arte  (no caso a dança) pode funcionar como fonte de cura. Dança contemporânea para expressar temas tão subjetivos, como a raiva, o abandono, a dor, a paixão.

Odette, a menina, assim se chama por conta do Lago dos Cisnes, o balé. Ela irá conviver com aquele monstro e se fechar no silêncio da solidão, mais tarde das drogas, da inadequação da vida e do sofrimento. Por meio da psicanálise, ela, já adulta, procura sem muita fé um pedido de socorro e aos poucos vai criando confiança na analista e formulando um quebra cabeça de uma narrativa fragmentada, a qual o filme traduz com rimas visuais,
ambiente de leitura carlos romero ana adelaide peixoto tavares abuso sexual infantil estupro pedofilia silencio da denuncia
diálogos entrecortados pelo movimento, som, música e sustos da dança. Um plié na fantasia e um rodopio para ressignificar a realidade. A cura pela palavra. Falando e dançando e desconstruindo a dor e o trauma. O espectador vai acompanhando as sessões de análise, os passos... e os abusos sofridos, tudo sempre em sintonia com a fala de Odette, que mistura real e imaginário (esse lugar ilusório onde o seu desejo de libertação se torna realidade).

O silêncio? É, sim, o sofrimento maior. As pessoas que vivenciam um abuso na infância quase nunca conseguem falar, denunciar o agressor. Ele sabe disso e se apodera desse trunfo. Tem a presa nas mãos. Nas mãos pela inocência.

O mais estarrecedor, no entanto, é a relação de Odette com sua mãe, que minimiza todas as dores da filha. Uma raiva secular. Uma competitividade das mais ferinas. Campo minado para que o monstro Gilbert passe desapercebido com os seus gestos invasores. A criança, perdida na impotência e no descrédito, completamente presa na teia do indizível, tranca-se no sofrimento dessa violação.

Não há coragem para a denúncia, mesmo diante do perigo de que o seu silêncio pode autorizar outros abusos.


Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora
COMPARTILHE
comente via facebook
COMENTE

leia também