As cartas são o antídoto literário da efemeridade da vida. Segundo Goethe : “o mais significante memorial que uma pessoa pode deixar”. Po...

Carta de 11 de julho de 1944

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As cartas são o antídoto literário da efemeridade da vida. Segundo Goethe: “o mais significante memorial que uma pessoa pode deixar”.

Poucas cartas sobreviveram dos campos de concentração construídos pelos nazistas para exterminar o povo judeu durante o Holocausto.

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Museu do Holocausto (EUA)
Aqui está uma nota curta quase indecifrável, da prisioneira tcheca Vilma Grunwald para seu marido médico Kurt. Ela, Kurt e seus dois filhos, John e Frank (Misa), foram presos como milhares de inocentes famílias judias transportadas para Auschwitz.

Na seleção, o médico da SS Josef Mengele envia o coxo John para a esquerda - para execução instantânea no campo de extermínio. Sua mãe, sabendo o que isso significava, opta por se juntar a ele em um ato de amor maternal.

Escreve então, uma nota momentos depois de ambos terem sido separados dos outros dois. Em seguida, a entrega a um guarda e pede que ele transmita ao marido Kurt, que seria colocado para trabalhar no campo de trabalho escravo vizinho como médico responsável pela restauração de prisioneiros feridos a um estado em que poderiam trabalhar novamente. Vilma e John são mortos na câmara de gás momentos depois.

Surpreendentemente, a carta a seguir chegou a Kurt, que sobreviveu ao Holocausto, e após sua libertação se encontrou com seu filho, também sobrevivente Frank. O original desta carta está no Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, localizado em Washington, DC, doada pelo filho dos Grunewald.

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Museu do Holocausto (EUA)

"Kurt, meu único e querido, no isolamento estamos esperando pela escuridão. Consideramos a possibilidade de nos escondermos, mas decidimos não fazê-lo, pois achávamos que seria inútil. Os famosos caminhões já estão aqui e estamos esperando que comece o embarque.

Estou completamente calma. Você - meu único e querido, não se culpe pelo que aconteceu, era o nosso destino. Fizemos o que podíamos. Fique saudável e lembre-se de minhas palavras de que o tempo vai curar - se não completamente - então - pelo menos parcialmente. Cuide bem do garotinho de ouro e não o estrague muito com o seu amor. Ambos - continuem saudáveis, meus queridos. Estarei pensando em você e em Misa. Tenha uma vida fabulosa, devemos embarcar nos caminhões.

Para a eternidade, Vilma.


Infelizmente, a revolução tecnológica que nos deveria levar a um mundo de fraternidade, paz e segurança, está nos tornando piores, com um crescente ódio entre as pessoas, incentivados pela desinformação constante por meio dos meios de comunicação em massa.

Antes de tomarmos a vacina contra esta terrível pandemia que nos assola, precisamos nos imunizar contra a avalanche de notícias falsas que recebemos diariamente.

Esperamos que esse triste exemplo nos sirva de lição para que as tragédias da história não se repitam e a humanidade possa desenvolver e aplicar a bondade que está imbuída no homo sapiens.


Sérgio Rolim Mendonça é Engenheiro Sanitarista e Ambiental
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  1. Um tema arido e ao mesmo tempo comovente e revelador, levando a uma incursao no tenebroso mundo do holocausto. Parabens, Sergio Rolim

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  3. As crises do capitalismo são as crises do liberalismo na passagem do século 19 para o vinte, e do neoliberalismo, do 20 para o 21. Na esteira delas o fascismo está sempre ali, de mutuca. O que faz o texto oportuno

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    1. Obrigado Lacet. A tecnologia tem facilitado ao ser humano a mostrar suas garras exarcebando seu lado ruim.

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  4. Às vezes o Pêndulo da ideologia exagera em sua oscilação, esticando muito mais do que deveria. E o resultado é o extremismo desumano observado na Alemanha nazi-fascista e na Rússia stalinista, extremismo este bem representado no episódio narrado.
    Pois não é que o Pêndulo está esticando novamente, com riscos para o retorno dessas manifestações de bestialidade?!
    Muito comovente a história, Sergio. E muito bem escrito, o texto.

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