"Mãe, só tem uma". Pois é, crescemos ouvindo essa máxima. Embora ginecologicamente seja correta, a história mostra que, bem... ...

Mães que valem por duas

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"Mãe, só tem uma". Pois é, crescemos ouvindo essa máxima. Embora ginecologicamente seja correta, a história mostra que, bem...

... Não é bem assim!

Existem aquelas que adotam crianças com carinho exemplar. Existem tias que são verdadeiras mães, muitas vezes prestando uma assistência melhor do que a mãe ocupada.
Ou até mesmo ausente. Essas tias, mais tardes, também se revelam como avós impecáveis.

Existem as madrastas, geralmente mal-afamadas, estigmatizadas pelos contos de fadas. Salvo honrosas exceções. Germano Romero, por exemplo, só se refere a Alaurinda como “a minha boadrasta!”

Mas vou me debruçar sobre uma figura que não tem a publicidade das mães, mas muitas vezes as substitui com louvor: a Avó! Se mãe só tem uma, existem avós que valem duas mães. Aqui em casa temos uma delas.

A avó dos meus netos é uma figura! Faz tudo o que uma mãe faz, e algo mais “que nem a Shell lhe dá.” Dói o bracinho? Ela tem uma massagem especial. Cortou o lábiozinho? Imediatamente improvisa o gelinho, contendo o sangramento. Ralou o joelhinho? Tem um considerável e oportuno estoque de bandaids, de tamanhos variados. Tem sempre a pomadinha certa que o dodói exija.

Dificuldade para a netinha dormir? Tem a cantiga de ninar exata:


"Encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora E conta logo sua mágoa toda para mim Quem chora no meu ombro Eu juro que não vai embora..."

E quando o menino é daqueles inquietos, que se mexem demais e não dormem logo? A vovó Ilma reza junto com ele o Santo Anjo do Senhor, para concentrar e pegar no sono. Geralmente funciona. Para a tossezinha chata, ela tem sempre uma latinha de pastilhas Valda guardada.
Se a tosse é mais séria a vovó Ilma empunha o seu "super-nebulizador", com soro fisiológico e Clenil A.

Os netos estão desocupados e barulhentos? Vovó Ilma convoca todos para fazer docinhos: brigadeiros, biscoitinhos, bolos deliciosos com a crosta quase crocante. Eles adoram preparar a massa, usando o rolo; bater os ovos; misturar tudo e derramar na forma. E raspar o tacho!

Respondeu ao pai? Vovó Ilma não está para brincadeiras: puxa-lhe as orelhas de forma delicada, repreendendo e ensinando a respeitar seu pai e os mais velhos. O menino briga com a irmã, o irmão ou os primos? Entra em cena a vovó-embaixatriz, que dá um show de diplomacia, desses de causar inveja ao incompetente ministro do Itamaraty.

A netinha cresce, e surgem as chateações inevitáveis causadas pela sobrecarga hormonal. É quando entram em cena os conselhos da vovó.

Uma vovó que se preze tem que ter um bom arsenal de coisas que atraiam os seus netos. Caixas onde guarda seus brincos, suas voltas, os seus trancelins, que exercem um verdadeiro fascínio, especialmente nas meninas. Sapatos de salto alto para a netinha desfilar todo o seu charme. Chapéus, luvas, echarpes e cachecóis.

Guarda-chuvas e sombrinhas que sugiram espadas para brincar. Almofadas e travesseiros, para guerras de travesseiros. Lençóis e colchas que sirvam para fazer um acampamento no meio da sala.

Duas gatas e duas cachorras, para animar a meninada, e estimular o amor e o cuidado para com os animais.

Deve ter em casa uma farmacinha com uma variada quantidade de pomadas, ungüentos, analgésicos, antissépticos e esparadrapos. Metros de gaze, que possam servir para “enrolar uma múmia.”

E uma boa sandália japonesa para eventuais situações, por que não? A vovó Ilma nunca usou. Mas serve para intimidar os recalcitrantes!

Não podemos esquecer que uma boa vovó deve contar com a presença de um bom vovô, para poder descansar tranqüila.

Um avô que ajude na confecção das barracas na sala; nas experiências de química; nas de ótica, utilizando os espelhos da vovó. Contar histórias de assombração engraçada e ensinar a jogar xadrez e gamão.

Que organize uma caça-ao-tesouro pela casa, com as pistas anotadas em bilhetinhos e espalhadas pelos lugares mais improváveis: do quadro de avisos para o oratório. Do oratório para a geladeira. Da geladeira para a fontezinha da sala. Da fontezinha para... Até chegar ao tesouro (geralmente doces). Os meninos adoram! Mas às vezes a zoada que fazem termina acordando a vovó...

Para distrair a meninada e deixar a vovó descansar, vovô faz de tudo. Até mesmo sair pela casa bancando o palhaço, como se estivesse puxando o circo, cantando: “Pompeu! Pompeu!”

E a meninada responde, em coro: “Tua mãe morreu!”

Aí o avô: “E a cabeça do palhaço?”

E os netinhos: “O urubu comeu!”

O vovô-palhaço continua, pela casa: “Dona Maria, se eu pedir, você me dá...”

Os meninos respondem, rindo: “Uma rede de presente e um pinico pra mijá?!”

Todos caem em gargalhada! Uma alegria, para os netos e para o besta do avô...! Pois é, isso sim, é que é vida de avós. Dificilmente a mãe faz essas coisas. Ora por que não tem tempo, está ocupada; ora por que não tem saco, de tão cansada. Aí voltamos ao começo: “Mãe, só tem uma.” E eu respondo: “Mas avós têm de sobra!”

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  1. Que felicidade ter uma avó e um avô com esse frescor para brincar com os netos que são a grande recompensa por haver sido pai. Só faltou o dinheirinho que a avó sempre comparece para animar o encontro com os amigos. Parabéns Zé.

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  2. Maravilha!!Lindo demais!!

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  3. Agradeço a todos pelas palavras generosas e estimulantes.
    E digo mais: pais criam por obrigação. Avós criam por prazer!

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  4. Deliciosa receita de avós. Pode servir de inspiração para muitos encorujados.

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  5. Maravilha, me identifiquei com vovó Vilma...amei, parabéns. DEUS abençoe você e toda família.🙏🙏🙏🙏🙌🙌🙌

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  6. Raquel A. N. da Costa2/11/20 11:52

    Caro José Mário
    Concordo plenamente com os conceitos que você expõe neste seu artigo, revelando a dualidade que vivenciamos, como mãe e avó.
    Portanto, minha afirmação: "sou mãe duas vezes"!
    Grata pela lembrança de nosso papel.

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  7. Beleza de texto !! do depoente avô!!!
    Parabéns José Mario Espinola!!
    Sensacional!!
    Paulo Roberto Rocha

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