Era uma caixinha mágica. Tinha muitos poderes: Falar, cantar, sorrir, emocionar... Isso era feito em muitos idiomas. Das minhas primeiras...

Caixinha mágica

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Era uma caixinha mágica. Tinha muitos poderes: Falar, cantar, sorrir, emocionar... Isso era feito em muitos idiomas. Das minhas primeiras lembranças ainda moleque ela estava lá. Engraçado como está gravado na memória afetiva mais devido ao que eu ouvia da sua "boca" do que à minha percepção de como era fisicamente aquela caixinha falante. A invenção atribuída ao italiano Guglielmo Marconi chegava aos meus ouvidos antes de ganhar forma aos meus olhos.

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Joesef Key
E veio em canções que, à época, eu nem entendia o significado, mas que me tocaram para toda a minha existência. Era um tal de Raul Seixas a "zumbinar" com sua "Mosca na Sopa" e os caras pintados que se declararam provocativamente Secos & Molhados falando em de um "gato preto cruzou a estrada" em "O vira". Sem falar na enorme lista do Rei, ele mesmo, Roberto Carlos, e as canções que ele fez para todos.

Lá estava a caixinha. Ela não era marinheiro ou surfista, mas navegava e se equilibrava perfeitamente nas ondas... do rádio. As canções se multiplicavam dentro daquele baú sonoro, ganharam ritmos, tipos, instrumentos, sons.

Já durante as noites semanais a caixinha tocava músicas suaves em programas românticos, açucarados, que começavam logo após o "Boa noite" da infalível "A Voz do Brasil". Corações enamorados e ou os partidos diante do tijolinho sonoro remoinham pensamentos, desejos e suspiros. A dose de amor era tonificada pelos locutores de vozes pausadamente e excessivamente melosas e o vocabulário pronto para flechar ouvintes enternecidos. Seus rostos eram desconhecidos, mas as vozes que ecoavam de suas gargantas eram familiares e transformavam suas fisionomias na aparência de galãs ou mocinhas lindas, semelhantes aos artistas de cinema e televisão.

Logo a caixinha mágica passou a revelar através de vozes emocionantes o som de uma bola rolando em um gramado distante, dos gritos da torcida, do gooooooooooooool. Velocidade, coração, pulsação... e gol num grito incontrolável e interminável... comemoração... se fosse do Vasco da Gama.
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Kevin
Frustração caso um adversário fosse o autor do tento. (No momento, melhor voltar à caixinha mágica, kkk). Domingo à tardinha, Sol caindo no horizonte, mas olhos fixos e ouvidos antenados naquele "tijolo" de cor preta protegido por uma capinha de couro que exalava freneticamente os dribles, as faltas, a torcida e o ápice do gol e se fosse jogo decisivo no título. É campeãooooooooooo!!!

Outras vezes, a caixinha permitia atravessar oceanos, terras desconhecidas e encontrar vozes "conhecidas" através nas ondas curtas. Elas vinham de lugares como Inglaterra, Rússia, China e outras paragens que transmitiam em português para o Brasil. Notícias de além-mar, cujo sinal em alguns momentos pareciam balançar nas ondas marítimas, indo e sumindo, retornando e desaparecendo, flutuando pelo espaço.

E ainda hoje tenho uma dessas caixinhas mágicas chamadas de rádio. Vez por outra giro o botão, soltou sua voz musical pelo alto-falante, ou permito que os jogadores corram sem serem vistos, só seguidos pela marcação cerrada da voz do narrador radiofônico, que muitas vezes até davam mais emoção ao jogo ruim. Ou ainda percebo a açucarada voz de um locutor fazendo sonhar corações apaixonados espalhados pelo mundão. Eita caixinha mágica!


Clóvis Roberto é jornalista e cronista
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  1. Deliciisa lembrança. Sou raideira até hoje!

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    Respostas
    1. 😉😀 Que bom que gostou do texto. Feliz por ter despertado boas lembranças. Obrigado!!!

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  2. Maravilha Clóvis ❗Puxar essa memória afetiva de todos nós em seus"particulares momentos"
    E ...ainda hoje curtimos os sons..não da caixa preta( ancestralidade)... mas de outros veículos!!
    Parabéns.. pra variar🖖🖖🖖

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