Capítulo 2 Meu nome é Celina e estou no meio do deserto de Chihuahua, em algum lugar do Sudoeste do Texas, próximo à fronteira com o M...

A travessia (Cap. 2)

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Capítulo 2

Meu nome é Celina e estou no meio do deserto de Chihuahua, em algum lugar do Sudoeste do Texas, próximo à fronteira com o México. ... Eu voltei aqui porque te prometi, Milagros! E prometi trazer teu filho Miguel até aqui. Eu... eu devia isso a vocês. Ah, Miguel... você tinha apenas sete anos...

Milagros morreu pelo amanhecer. Não havia muito o que fazer. Fizemos uma pequena cova na areia, e a sepultamos. E para os animais não desenterrarem, colocamos esse pequeno monte de pedras sobre a areia.
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Improvisamos uma cruz, amarrei um lenço nela, para marcar. Ainda está no mesmo lugar. Era vermelho, o sol o deixou branco. Miguel, esse sol mata tanto quanto as serpentes. No deserto a areia ferve, reflete na pele, e a garganta fica tão seca que a gente não encontra saliva para engolir.

E esse rosário... — disse CeIina retirando o cordão pendurado na cruz — sempre estava nas mãos dela. Me pediu para lhe entregar, que era para você ficar protegido. Preferi deixar aqui, para você mesmo pegá-lo um dia. E jurei para ela que ia cuidar de você, que ia transpor esse paredão de incertezas, e aqui ia voltar para dizer: "Milagros, deu tudo certo e Miguel está muito bem... e veio te ver!"

— Como vocês nos conheceram? — perguntou Miguel.

— Uma semana antes encontramos vocês. Pareciam famintos.

Repentinamente, surgiu um homem; ele não era uma boa pessoa. Ofereceu comida e mais algum dinheiro em troca de um favor. Queria que Milagros levasse um pacote para ele até certo ponto do deserto. Ela recusou dizendo que preferiria morrer de fome, pois ia ser presa se fosse pega com aquilo. O homem insistiu e quis bater nela. Então eu e minha mãe ficamos revoltadas e pegamos pedras e o ameaçamos. O homem desistiu e foi embora. A gente sabia que aquilo era droga e representaria problemas para todos.

Então pegamos vocês dois e levamos a um pequeno restaurante. Ela nos contou que vinham da Guatemala, que não viam comida há mais de dois dias. Fugiam da miséria do país, da violência dos traficantes e dos maus tratos do marido. Seus olhos eram olhos de uma pessoa triste, sofrida.

A partir dali minha mãe disse que agora éramos quatro. Então foi assim que vocês surgiram em nossas vidas.

Nesses lugares existem coiotes por toda parte que se oferecem para conduzir os imigrantes a pontos determinados. Pagamos para nos levarem até um lugar seguro no Texas.

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Havia outras pessoas com a gente. Todos imigrantes. Depois que cruzamos o rio andamos um dia inteiro, a pé, em terreno pedroso, arenoso e cheio de arbustos.

Lembro que ninguém olhava para o céu ou para as montanhas ou para o caminho. Nossa atenção era somente no chão, na frente e nos lados porque havia cobras, muitas! Era o que mais nos advertiam os coiotes. Cada um de nós carregava um pequeno galão de água. Não havia comida, sombra e nem descanso.

Diziam que precisávamos seguir, que aquilo era um atalho, e que havia um carro nos esperando pelo anoitecer. Meu Deus, nunca rezei tanto! Em certo ponto você começou a chorar e Milagros lhe botou nos braços. Depois minha mãe percebeu que ela mancava, e estendeu os braços para lhe carregar. E quando minha mãe cansou, eu lhe carreguei.

O sol estava indo embora quando chegamos ao ponto marcado pelos coiotes. Não tinha carro nenhum. Eles pediram para aguardarmos. Pensamos que íamos morrer ali. Só então pudemos sentar e descansar. Mas devíamos ficar atentos por causa das serpentes.

Veio a noite e continuamos ali. Lembro que um rapaz pegou alguns gravetos para acender uma fogueira. Ele estava desesperado com a ideia de ser picado. Mas um dos coiotes disse que não podia, que ali era rota da patrulha, e o fogo poderia nos denunciar.

Horas depois ouvimos um ronco de um motor de carro. Era uma van. Viajamos por toda a noite, muito mal acomodados, em estrada de barro, com muitas curvas e solavancos. Eu não conseguia dormir, só rezava. Nossa!... Como disse, nunca rezei tanto em minha vida!

Paramos pelo amanhecer. Um deles disse que logo à frente havia um posto de imigração. Por isso, precisamos descer e pegar novo atalho. Dessa vez eles não iam nos acompanhar, mas disseram que estariam nos esperando adiante, depois do posto. E a cada um entregou um mapa. E aconteceu o pior. Os pés de Milagros sangravam e isso nos fez atrasar. Ficamos para trás e acabamos nos perdemos do grupo.

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Aquele dia demorou a passar. Andamos, mas não muito. Os pés de Milagros estavam cheios de bolhas e muito inchados. Não havia estrada, não havia coiote, não havia ninguém. Estávamos sem comida e em lugar nenhum.

Mas tínhamos água e muita fé em Deus. Veio a noite e escolhemos esse lugar para nos abrigar. Então eu acendi uma fogueira para nos proteger do frio e dos animais. Quando o dia amanheceu Milagros estava morta. Foi um momento terrível! Você chorava muito e não foi fácil para nós. Mas fizemos o que devíamos fazer.

Depois andamos boa parte daquele novo dia. Em certo momento mãe disse: "Acho que estamos caminhando em círculo. Vamos pegar o sentido do nascente".

O sol declinava quando nos deparamos com a estrada asfaltada. Choramos de alívio. Carros e caminhões passavam em alta velocidade. Ali eu falei que o que eu mais queria era que a polícia nos encontrasse e nos mandasse de volta para o Brasil. Minha mãe reagiu com rispidez, dizendo que não era mulher de desistir no meio do caminho. E apontou para o norte: "Vamos pra lá, e que se faça a vontade de Deus!"

Poucos quilômetros depois encontramos um posto de combustível com carretas e caminhões estacionados. Por sorte, tínhamos dinheiro e compramos água e sanduíches. Parecíamos animais famintos, pois fazia muito tempo que não víamos comida, a não ser sobras de pão dormido que eu trazia na mochila.

Estávamos horríveis e não cheirávamos muito bem, por isso ficamos afastados das pessoas. Podiam nos entregar! E foi nesse momento que vimos um homem se aproximar. Ele ofereceu ajuda em troca de dinheiro. Ficamos muito desconfiadas, mas não tínhamos muitas opções.

Então ele mandou que fôssemos com ele. Era um carro velho, muito velho! Tomamos um caminho estreito e logo chegamos numa casa cercada por grandes árvores, carros sucateados e um amontoado de coisas inúteis.
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Apesar disso encontramos o que mais queríamos naquele momento: banho quente e um quarto limpo.

Passamos três dias ali. Durante esse tempo ele fez algumas ligações e disse que tinha pessoas que nos deixariam em Houston, e que eu precisava pagar por isso. Cobrou um valor muito alto. Disse-lhe que não tínhamos tanto dinheiro. Então ele pediu nosso contato no Brasil. Minha mãe tentou convencê-lo de que tínhamos deixado tudo para trás e, portanto, não havia contato. Fiquei muito desolada com sua reação de absoluta intransigência.

Entretanto, minha mãe lembrou de Tião. Talvez lá pudessem ajudar. Era nosso único elo com o Brasil. Então ligamos para a Arquidiocese de Olinda. Chamaram meu irmão e minha mãe pediu para falar com o bispo. Disse que era urgente e importante, e explicamos a situação.

Ele foi muito compreensivo e demos graças a Deus por sua abençoada generosidade. No dia seguinte ele depositou a quantia restante. E assim chegamos em Houston.

Houston era um lugar grande, desenvolvido, com incontáveis edifícios e avenidas limpas e bem pavimentadas. Ficamos realmente encantados. Mas esse encanto logo caiu por terra quando o motorista parou o carro num sinal e disse que nos deixaria no sinal seguinte, pois ali seria o fim da linha.

Eu e minha mãe nos entreolhamos, como a dizer: e agora?

Não tínhamos dinheiro nem ninguém e nenhum lugar para ficar. A única coisa que tínhamos era fome e sede! Nossa, como estávamos esfomeados! Adiante avistamos uma lanchonete e eu pedi para ele nos deixar naquele ponto. Afinal, estaríamos num lugar onde havia água e comida. Antes de partir, o homem falou que tivéssemos cuidado com a polícia. Ele estava certo: parecíamos mendigos e naquele estado éramos presas fáceis para a imigração.

Ficamos meio escondidos e esperamos. Daí a algum tempo vimos sair da lanchonete um casal e três crianças. Eu me aproximei e eles se mostraram assustados com nossa presença.

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Eu perguntei no meu portunhol limitado se ele poderia nos arranjar um pouco de água, e imaginei que ele deveria ser um desses imigrantes bem sucedidos, pois não tinha jeito de americano. Ele pareceu incomodado com nossa aparência e perguntou o que tinha acontecido.

Então contei nossa história e clamei, de mãos postas, para ele não chamar a polícia. Ele me olhou consternado, e seu olhar logo ficou distante. Talvez buscasse na memória a lembrança de um acontecimento similar que por ventura tivesse ele passado. Quando voltou a si, pediu para esperar um instante e entrou na lanchonete.

"Ah meu bom Deus, ele vai chamar a polícia!" — Eu disse de mim para mim enquanto mirava nos olhos da minha mãe. Ela, que leu meu pensamento, balançou negativamente a cabeça, fazendo dizer que ele era uma pessoa de bom coração e nada de ruim ia nos acontecer.

Daí, minutos depois, ele voltou com uns pacotes. Era água, refrigerantes e sanduíches. Agradecemos muito, e eu percebi que seu olhar continuava tão vago e distante quanto antes. Então pensei: "será que um dia ele passou pelo que estamos passando agora?"

Quando voltou a si perguntou se tínhamos algum lugar para ir, alguém conhecido, algum contato.

Eu respondi que estávamos sozinhos e que as coisas seriam mais fáceis se fôssemos apenas nós duas. E apontei para você, Miguel, esforçando-me para tirar dele a nossa salvação. Mas ele apenas meneou a cabeça num gesto de comiseração, ao tempo em que comprimia os lábios com os dentes. Pensou por alguns segundos e, por fim, desejou-nos boa sorte. Então entrou no carro — era uma camionete — onde a mulher e os filhos já se encontravam, e foi embora.

Daí uns vinte minutos depois ele voltou. Agora estava sozinho. E dessa vez não pensou nem hesitou. Apenas disse-nos:

Vámonos! Suban em la camioneta. Yo voy a llevarlos para mi casa y después veré lo que puedo hacer!


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