Para Genilda – meu dicionário amoroso Menino pobre, afora os livros da escola, um único livro ocupava, soberano, a pequen...

Amor ao dicionário

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Para Genilda – meu dicionário amoroso

Menino pobre, afora os livros da escola, um único livro ocupava, soberano, a pequena estante (vazia) da minha infância: um pequeno dicionário, de José Baptista da Luz, que tinha como seu auxiliar o que seria o futuro famoso Aurélio Buarque. Este pequeno dicionário foi a raiz do consagrado dicionário de Aurélio. Minha querida irmã mais velha, que costumava decidir o que interessava aos irmãos e jogar fora as coisas, sem pedir licença ao dono, usando de sua generosidade excessiva, transferiu o único patrimônio da família para uma colega de trabalho.
Só sosseguei já maduro, ao encontrar o José Baptista em nova edição, que adquiri com sofreguidão e carrego comigo até hoje.

O dicionário é apelidado de pai dos burros. O termo funde ironia e carinho. Burro não vai ao dicionário. Procurar saber o sentido de uma palavra é inteligência. E há carinho no pai que acolhe o burrinho como se fora seu filho.

Uma das tiras de Quino mostra o pai de Mafalda indo e vindo, de um ambiente pra outro, para consultar um dicionário. Mafalda sentencia: “Deste jeito, você nunca vai terminar de ler um livro tão grosso.” Na sua inocência, Mafalda diz algo que muita gente não sabe: o dicionário é também um livro para ser lido – não só para ser consultado. O dicionário é o romance da aventura das palavras. Flaubert lia dicionários e dizia (não sei se brincando, ou metaforicamente) que eles deveriam ser usados como travesseiros. Diz-se que Nabokov (falante de várias línguas e que mobilizava um vocabulário vastíssimo, na construção de seus romances) era não apenas leitor de dicionário, mas divertia-se decorando verbetes inteiros.

Experimente olhar uma palavra qualquer no dicionário e seguir sua trilha de desdobramentos semânticos. Você irá percorrer o dicionário quase todo e se surpreenderá com a rede quase sem fim de relações entre as palavras. Outra forma de ler um dicionário é escolher uma letra e ir lendo, palavra por palavra, até terminar a letra. Cada entrada levará você a universos verbais inimagináveis. Na maioria das palavras, você não só encontrará sentidos insuspeitos, como até sentidos opostos para uma mesma palavra. Você se surpreenderá, também, com a leveza, a força expressiva, a densidade poética de algumas palavras, ainda em estado de dicionário.
Eu diria que ninguém pode conhecer a pluralidade identitária de uma palavra se nunca invadiu a sua vida privada: o dicionário.

Há dicionários de tudo. Temáticos: de filosofia, de xadrez, de mitologia, de anatomia, de palavras cruzadas, de símbolos, de política, de matemática, de narratologia... Há dicionários de livros: por exemplo: “Dicionário do Grande Sertão.” E há dicionários de autores importantes, como o Dicionário de Eça de Queiroz”, o “Dicionário de Camões”, ou de alguns autores famosos pelo uso de conceitos herméticos ou de uma linguagem abstrusa, cujo sentido os dicionários da área em que eles produzem não conseguem esclarecer satisfatoriamente: dicionário de Foucault, dicionário de Lacan, dicionário de Derrida... Onde houver idéias ou informações, certamente haverá palavras, e, dependendo da necessidade de precisão (ou do nível de imprecisão) da terminologia da área, o dicionário faz-se indispensável. Com dicionários sobre todos os setores do conhecimento e, principalmente com tantos dicionários comuns, é inacreditável que tantos jornalistas e escritores coloquem palavras fora da ordem do sentido. Muita gente que não consegue distinguir o uso da repetição como recurso expressivo e funcional da repetição como consequência da inópia vocabular não se lembra de que existem dicionários de sinônimos e antônimos, dicionários analógicos... Muita gente que escreve, publica e comete tantos erros de regência não sabe que existem dicionários de verbos e regimes, de regime de nomes. Até para quem escreve poemas, e às vezes sofre a angústia da rima procurada, existem dicionários de rimas. Existe até o dicionário de dicionários. Não sei por que diabo as pessoas têm tanta preguiça de consultar o dicionário.

A preguiça doentia, com a conseqüente substituição do dicionário pela lógica contextual, é responsável por terríveis equívocos. Nunca me esquecerei daquela pretensiosa professora de Lingüística que havia chegado da França e, arrotando títulos e nomes de professores franceses, distribuiu conosco um texto canônico de Saussure.
Num determinado momento, uma colega perguntou o sentido de uma palavra à professora – pergunta justa, no caso, pois a colega estava vendo o texto pela primeira vez, e não havia dicionário na sala. A professora enrolou, enrolou, por fim disse que tinha lido o texto no original, que aquela palavra havia sido mal traduzida, e deu um sentido completamente equivocado à palavra. Ora, para quem conhecia aquela palavra, seu sentido era hialino e único, naquele contexto: não havia ambigüidade possível ou polissemia imaginável. Eu não agüentei, e como sempre me expus à antipatia de professores, não me contive e proferi, alto e bom som, a única frase original que cunhei na vida: “Tem gente que vai à França, mas não vai ao dicionário.”

Muitos estudantes de Letras (e, pasmem!, muitos professores de literatura) não entendem que, na análise de um poema, a compreensão equivocada do sentido de uma única palavra leva, inevitavelmente, à incompreensão do verso e pode levar a uma interpretação equivocada de todo o poema. Desprezando o dicionário, metem-se a analisar um texto valendo-se exclusivamente da dedução contextual e cometem desatinos interpretativos.

No tempo em que fui orientador (ou desorientador) de aprendizagem, quando na aula seguinte iríamos estudar um poema, eu costumava dizer aos alunos: “Não se preocupem se não entenderem nada deste poema, pois na próxima aula conversaremos sobre ele e terminaremos entendendo alguma coisa, mas se preocupem em saber, com segurança, o sentido de cada palavra deste poema. Vão ao dicionário e vejam os sentidos de todas as palavras do poema, principalmente daquelas cujo sentido vocês acham que já conhecem. Observem os sentidos que cada verbete oferece para cada palavra e escolham o sentido (ou os sentidos) que melhor se adequa(m) à frase em que a palavra está inserta.” A grande maioria dos alunos não entendia o que estava por trás da tarefa, e sempre algum indagava pelo grupo: “Professor, o senhor está aqui pra ensinar poesia ou pra mandar a gente pro dicionário?” Eu respondia: “Como eu acho que não sei ensinar poesia, a única coisa que eu quero é criar, em vocês, o hábito de ir ao dicionário. Por outro lado, embora o sentido das palavras que o dicionário oferece seja, em muitos casos, apenas a casca do sentido que a palavra tem no poema, como chegar ao cerne da palavra sem romper-lhe a casca? Vamos ao menos descascar as palavras!”

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Vivemos entre palavras. Entre palavras morremos. Agredimos com palavras, amamos com palavras; declaramos guerra com palavras, e uma declaração de armistício, ecoando no universo, é uma bandeira tecida com palavras brancas. Celebramos o amor, a vida, o amor à vida com palavras, e, no final, o choro universal da indesejada despedida transborda nas palavras. Saímos do estado de bicho e ingressamos na humanização quando o primeiro bicho conseguiu, com palavras, comunicar o que queria a outro bicho, que o entendeu.

A palavra é tudo ou quase tudo, e o dicionário é a morada da palavra. Todos os poemas estão no dicionário. Todos os livros. Que me perdoem os religiosos ortodoxos, mas, para mim, se “no princípio era o verbo”, o livro dos livros é o dicionário.

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  1. Maravilha! Crônica muito interessante, eu gosto dos dicionários desde criança. Parabéns e obrigada mestre.

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    1. Mestre, nada, Rejane: mero aprendiz. Eu que agradeço pela sua leitura e avaliação.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Sempre gostei de consultar dicionários para saber da origem e das várias acepções da palavra. Esse interessante texto do Professor Antonio M. De Carvalho me reportou à minha infância e adolescência, quando dei os primeiros passos na literatura. Parabéns, Professor!

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  4. Somos colegas de dicionário, Vicente. Obrigado pela leitura.

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  5. Em cada palavra uma alma guarda a história. E a "história" da professora, que foi à França, mas esqueceu de ir ao dicionário, é um fato cultural muito comum. Sugiro que as pessoas leiam "Grande Sertão: veredas" com vários dicionários, principalmente um dicionário etimológico.

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