Pensamos descontinuamente e nossa mania de classificação, que nos torna um Homo taxonomicus (olha aí a mania...) nos ajudou a exacerbar e...

Gatos não viram cachorros

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Pensamos descontinuamente e nossa mania de classificação, que nos torna um Homo taxonomicus (olha aí a mania...) nos ajudou a exacerbar essa postura. Segundo Richard Dawkins, a evolução não pode ser pensada descontinuamente (A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais). Ele traz como exemplo a famigerada ausência de fósseis intermediários entre os primatas, os chamados elos perdidos.

Do mesmo modo que essa falta pode ser útil para que pudessem ser classificados os fósseis já encontrados, estabelecendo diferenças entre o Homo ergaster e o Homo habilis — aquele mais próximo de nós do que este —, ela se revela danosa, porque nos impele a pensar em descontinuidade, como se de repente deixássemos de ser uma espécie e nos tornássemos outra. Nenhum chimpanzé deixou de ser chimpanzé (Pan troglodytes) ou o bonobo deixou de ser bonobo (Pan paniscus) para se tornar ser humano (Homo sapiens):

“As pessoas e os chimpanzés sem dúvida são ligados por uma cadeia contínua de intermediários e por um ancestral comum, mas os intermediários estão extintos; o que resta é uma distribuição descontínua” (DAWKINS, p. 365).

De fato, há sempre um ancestral comum, chamado de concestral, de que se derivam as espécies. Se houvesse um continuum em fósseis, não teríamos como fazer essa classificação entre elas, com os nomes que conhecemos, mas numa escala graduada, diz Dawkins, como a Celsius ou a Farenheit (p. 366), que nos fornece um exemplo muito didático: a água fria não se transforma em quente, de repente, mas de acordo com um aumento contínuo de temperatura (p. 368).

Sabemos que não pode haver cruzamento entre um ser humano e um chimpanzé, mas se pensarmos no continuum, os vários indivíduos, derivados de um mesmo concestral e compreendidos nessa caminhada, poderiam fazer um intercruzamento sem problemas, dada a proximidade que haveria entre eles:

“Quando falamos de todos os animais que já viveram, e não só dos que estão vivos hoje, a evolução nos diz que existem linhas de continuidade gradual ligando precisamente cada espécie a todas as demais. Quando o assunto é história, mesmo espécies modernas aparentemente descontínuas como ovelhas e cães são ligadas, pelo ancestral que elas têm em comum, em linhas ininterruptas de suave continuidade” (p. 365).

Essa reflexão proporciona a leigos como eu compreender que a vida é continuidade. A descontinuidade a que estamos acostumados e que nos é imposta por uma ilusão da aparência, não passa de uma ficção conveniente. Se um chimpanzé não pode se tornar um ser humano é porque ocorreu um fenômeno chamado de especiação,
em que, num determinado momento, por uma razão qualquer, de um mesmo ancestral a espécie se bifurcou, acabando por gerar duas espécies, “como um modelo para o que ocorre em cada ponto de ramificação na evolução” (p. 369), afinal “gatos não viram cachorros, ou vice-versa” (p. 365).

Dawkins aproveita, então, para dar uma alfinetada nos nossos padrões éticos, duramente afetados pela visão canhestra da descontinuidade. O que alivia, de certa forma, a nossa consciência, com relação a comer carne, por exemplo, é que todas as espécies que participaram, em algum momento, desse processo contínuo estão mortas. Se elas estivessem vivas e pudéssemos ver a cadeia e não os seus extremos, dificilmente comeríamos carne (ressalto que sou carnívoro assumido...). Só vemos o homem e o boi, o carneiro, o bode, o porco, a galinha ou o peixe. Indo mais adiante, eu acrescentaria que só vemos o homem e a singela folha de alface, esquecendo os elos que nos ligam a ela, um ser vivo tanto quanto nós e as espécies animais que frequentam diariamente a nossa mesa.

Mesmo quando alguns animais evoluem diretamente um do outro, no caso da lagarta para a borboleta há uma continuidade tal, que não dá para dizer o que é uma e o que é outra a não ser estabelecendo definições a partir das etapas consolidadas nas duas extremidades – lagarta e borboleta. A lagarta faz uso das instruções dos seus genes, para produzir uma borboleta, tanto quanto a borboleta usa seus genes para produzir novas lagartas (p. 372) e de ambos os lados, a transformação exige uma continuidade, nunca é abrupta.


Processo semelhante é a relação entre um embrião e um ser humano. O embrião não se torna, repentinamente, um ser humano. É a continuidade da instrução genética, atuando lentamente nessa transformação, que resulta num ser humano. O que ocorre é que o nosso hábito de pensar descontinuamente torna conveniente para nós a ficção de achar que a vida só existe no ser humano, não no embrião. Não há um momento, diz Dawkins, em que um embrião se torna “humano” (aspas dele, p. 368). Esta argumentação, que tem como base o processo evolutivo, é das mais lúcidas que já li a respeito do aborto, ainda que Dawkins não tome abertamente uma posição com relação ao aborto e que o cerne de sua discussão não seja esse. O aborto aparece como um dos elementos de crítica à nossa ética, baseada na descontinuidade. Por conta do vício desse tipo de pensamento, somos levados a acreditar e a defender que se pode matar um embrião, mas não um ser humano.

Nós, apesar de nossa empáfia como seres humanos e talvez por isso mesmo, ainda não nos demos conta das contradições éticas em que vivemos. Tudo é tão preto no branco, que esquecemos da graduação imensa e ininterrupta entre uma e outra cor.

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  1. Brilhante, Milton! Profundo. Nos estimula a realizar reflexões profundas sobre vida e seres vivos.
    Parabens!

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