Todas as pessoas nascem dotadas de espírito gregário, e por isso costumam exercer a busca de umas pelas outras. Além disso, existe o inst...

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Todas as pessoas nascem dotadas de espírito gregário, e por isso costumam exercer a busca de umas pelas outras. Além disso, existe o instinto de perpetuação das espécies, o que as faz buscar um companheiro.

Quando uma pessoa é tímida, tem dificuldade de relacionamento, às vezes recorre a especialistas. Outrora existiam, nos jornais, os tais Correios Sentimentais, colunas onde essas pessoas encontravam correspondentes para se comunicar. Muitas vezes terminavam em casamento. Mas às vezes corria o risco de dar errado.

O mundo evoluiu, e os Correios Sentimentais deram lugar ao... FÊICIBÚQUI! Sim, o que vós modernosos hoje chamais de face book. Mas que ainda conserva os mesmos riscos do namoro à distância. Como é o caso que veremos adiante.


Alicia Patrícia era uma belíssima jovem moradora de Brusque, em Santa Catarina. Filha de alemão com cabocla era um morenaço nos seus 1,76 de altura, olhos verdes profundos, corpo bem esculpido. Um manequim!

Mas não conseguia casamento. E por um simples detalhe: tinha um estúpido mau-hálito, que ninguém suportava. Nem seus pais! Então resolveu freqüentar sítios de relacionamento no fêicibúqui.

Em pouco tempo aprofundou sua correspondência com um rapaz de Teresina, no Piauí, chamado Cauê Cauan, que demonstrou muuuito interesse por ela. Passavam horas trocando palavras no uotizápi, namorando pelo celular.

Acontece que Cauan era uma figura que chamava a atenção: louro de 1,86 de altura, olhos azuis cristalinos, presença que não passava despercebida. Um outdoor! Mas não conseguia casamento, pois nenhuma moça suportava o seu... CHULÉ!

Para seu desgosto até a sua mãe só conversava com ele tampando o nariz com os dois dedos... Tudo isso só fazia piorar o complexo do bichinho...

Sem ter a menor idéia dessas idiossincrasias recíprocas, o namoro dos dois evoluiu pela internet. Trocaram fotografias, emojis e correspondências, onde compartilhavam seus gostos por hábitos, leitura (mentiras dos dois, pois nenhum lê!), pratos prediletos, novelas preferidas, heróis da TV. Ela se descreveu conforme a fotografia que enviou para ele. E, naturalmente, omitiu o mau-hálito.

Ele, por sua vez, respondia a tudo o que ela indagava, e também se descreveu conforme a fotografia que lhe enviou. E, naturalmente, omitiu o chulé!

A correspondência evoluiu para romance. E o romance despejou no mar do casamento! Casaram-se por correspondência. Marcaram um encontro no hotel Quatro Rodas, de Olinda.

Para ir encontrar-se com ele, ela fez gargarejo com Periogard, e encheu a boca com vários tabletes de chiclete: hortelã, canela, framboesa, menta, baunilha, café... tutti-frutti!

Para ir ao encontro dela, ele recorreu a uma daquelas botinas de caipira, com um rabicho atrás e que, depois de fechadas, não sai nem um arzinho de dentro. Calçou meias grossas, embebidas no perfume Alfazema, da Garrão.

Encontraram-se no saguão do hotel, trocaram beijinhos tímidos, e subiram para o apartamento. Ela sempre mascando quase um quilo de chicletes e procurando falar pouco. Ele confiando na hermeticidade das botinas.

O apartamento, por ter sido reservado para uma lua de mel, estava sugestivamente decorado, perfumado com uma suave fragrância de água-de-colônia, e à meia-luz.

Chegados ao quarto ela foi direto para o banheiro tomar uma ducha e vestir uma camisola. Sozinha, sentindo-se mais confiante, pensou:

“Ele agora é meu marido, não tenho mais o que esconder!” E jogou o bolo de chicletes na privada e deu descarga.

Esperando no quarto por ela, sentado na cama king-size, ele pensou:

“Ela agora é a minha esposa, e eu não tenho mais o que esconder!” E jogou as meias na lixeira. Tirou a roupa e deitou-se na cama. No friozinho gostoso do ar-condicionado, à meia-luz... logo, logo ele adormeceu.

Acordou-se com ela deitada ao seu lado, colada em seu corpo, ciciando no seu ouvido:

“Meu bem, eu tenho um segredo para te contar...”

Ele rápido respondeu, saltando da cama:

“JÁ SEI! VOCÊ COMEU A MINHA MEIA!”

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  1. Ótima essa história..Parece que foi verídica!!! sim👏👏👏👏
    conhecia como piada!!!
    Parabéns José Maria Espínola👏👏👏👏
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Presentes algumas das caracteristicas do bom conto (v.Machado): o choque das situacoes dos dois personagens e o desfecho surpreendente e ironico. Parabens!

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  4. Em dias como os que estamos vivendo, uma estória como esta nos dá prazer excepcional, pois nos conduz a um viver alegre e descontraído.
    Ah, como seria bom se nossos dias dias sempre fossem pontuados por falares desse tipo.
    Afinal, temos o direito de uma boa risada!

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  5. Gostei muito da crônica.👋👋👋👋👋👋👋

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  6. Alô, Zé Mário, meu fraternal abraço! Um verdadeiro tônico, tua narrativa, para nossas ansiedades e, muitas vezes, até medo, pelo momento que estamos vivenciando ante a ameaça que paira no ar advinda da 'bolinha invisível de carrapateira'(a imagem do Corona se assemelha, heim?). Durante a leitura os músculos, que muitos denominam, da mímica facial iam formando nos cantos de minha boca para explodir numa sonora gargalhada no desfecho da estória. Já pensastes, se ela, enquanto ele dormia, fosse lhe beijar os pés? Certamente, o acordaria aos gritos: "você colocou os pés em minha boca!". Um abraço!

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  7. Esqueci de colocar o nome na mensagem acima. Jesus Soares da Fonseca.

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  8. Agradeço a todos pelos comentários generosos. Realmente, o mar não está para peixe. Mas, não custa nada fazermos esforços para abrandar.
    Muito obrigado!

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