Antônio Joaquim Pereira da Silva , ou simplesmente Pereira da Silva, foi um importante poeta, jornalista e intelectual paraibano, qu...

Pereira da Silva psicografado por Chico Xavier

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Antônio Joaquim Pereira da Silva, ou simplesmente Pereira da Silva, foi um importante poeta, jornalista e intelectual paraibano, que alcançou a glória da imortalidade na Academia Brasileira de Letras em 1933. Teve, ao correr da vida, sete publicações, a saber: Vae Soli (1903), Solitudes (1918), Beatitudes (1919), Holocausto (1921), O Pó das Sandálias (1923), Senhora da Melancolia (1928) e Alta Noite (1940), tendo deixado obras inéditas Intranquilidade; Meus Irmãos, os Poetas; Os Milagres de Cristo; e Os Homens de Deus.

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Pereira da Silva ▪️ Foto: Humberto Fonseca de Lucena
Poeta de profunda sensibilidade espiritual, Pereira da Silva foi, antes de tudo, um humanista, sempre preocupado com a dor humana, com a origem e o destino dos seres. O título de suas obras deixa transparecer o núcleo de sua jornada. Há, por todos os lados, uma linha mestra que é a base de sua vida: a luta do espírito diante da matéria. Durante muito tempo, a crítica literária pontuou a obra do poeta como sendo uma obra de dor, de sombras, de pessimismo — e aqui é importante e necessário salientar — o poeta ressoa apenas a mesma melodia de Buda e Cristo, para os quais a vida é sofrimento e a felicidade não é deste mundo, sublinhando que as alegrias e os prazeres são fugazes. Há em Pereira da Silva uma nota de estoicismo e de tragédia ao modo dos antigos filósofos gregos.

Caberia uma análise filosófica profunda sobre o ponto central da poética de Pereira da Silva, que, por trás de uma aparente simplicidade, oculta uma persistente voz a clamar no deserto. Não é algo que apareça ao acaso, mas uma melodia que perfaz toda a obra do poeta e que merece atenção da crítica. É preciso seguir as suas pegadas na areia.

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As pegadas na areia
Pereira da Silva, na infância, teve sua vida vinculada aos ritos católicos, como era comum na vida dos vilarejos e cidades do interior do Brasil. É preciso destacar que Araruna — serra paraibana, lugar de nascimento do poeta — tornou-se uma freguesia em 4 de julho de 1854. A palavra freguesia repousa sobre a etimologia de termo latino — filii ecclesiae — ou seja, “filhos da Igreja”. Uma freguesia era uma paróquia administrada pela Igreja. A cidade de Araruna havia nascido ao redor de uma igreja.

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Os símbolos e imagens do cristianismo vão nutrir o imaginário poético do poeta, sem, contudo, que ele fique limitado à sua influência. É preciso salientar que Pereira da Silva faz uso de mitos gregos e nórdicos, de maneira pontual, e trabalha com movimentos de reflexão ao longo de sua obra, sempre abrindo espaço e espraiando caminhos. Sua jornada espiritual é perpassada por reflexões, não ao modo agostiniano, em abertas confissões com teor marcadamente doutrinário, mas, sim, reflexões em que sua sensibilidade vibra uma melodia lírica de elevado clamor.

Sabemos que ele foi apaixonado leitor dos escritores do Romantismo. Teve ao seu lado a obra de Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves, entre outros. E, como uma planta, não se anquilosou diante dos raios luminosos, mas, sim, abriu-se e não se tornou uma estátua de sal ao olhar para os poetas do passado. Reconheceu-lhes os méritos e absorveu, em seu organismo sensível, nutrientes para sua maturação poética.

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Fagundes Varela, Casimiro de Abreu e Castro Alves ▪️ Fonte: Wikimedia
Em vida, foi creditado como pertencente à corrente literária do Simbolismo. Seu vínculo com a corrente não se deve apenas ao fato de ter sido contemporâneo ao movimento em seu nascedouro, mas, sobretudo, por sua sensibilidade e pelo convívio com grandes luminares da corrente, como Dario Veloso, Emiliano Perneta, Rocha Pombo, Nestor Victor e Saturnino Meireles, entre outros. E foi um dos que souberam reconhecer os méritos literários de Cruz e Sousa, considerado o maior dentre os simbolistas. O Simbolismo foi uma corrente estética que se contrapôs ao positivismo e ao materialismo, buscando sondar os recantos dos sonhos, do mundo interior, telegrafando os sinais da transcendência por dentro da própria matéria, buscando desenhar nas águas o mesmo trajeto dos ventos.

O Espiritismo de Allan Kardec
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Allan Kardec, codificador do Espiritismo ▪️ Fonte: FEB
Em 1865, na Bahia, surgiu o primeiro centro espírita no Brasil. O Espiritismo havia surgido na França, organizado por Allan Kardec, pseudônimo do educador Hippolyte Léon Denizard Rivail, entre os anos de 1857 e 1868, quando da publicação do que é chamado de pentateuco espírita, a saber: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e, por fim, A Gênese (1868).

Em Curitiba, o movimento se oficializou em 1902, através da fundação da Federação Espírita do Paraná. Em seus primórdios, o espiritismo teve como principais difusores os maçons; a maçonaria havia chegado à região em 1837, antes da independência do estado, que ocorreria apenas em 1853. Um dos grandes nomes e expoente das ideias sobre ocultismo, cabala, esoterismo e pitagorismo — e que cobriu, por mais de 40 anos de trabalho incansável, a vida cultural do Paraná, sendo, inclusive, maçom e um grande espiritualista — foi o “mestre e amigo” de Pereira da Silva, o colossal Dario Veloso.

Dario Veloso foi um colosso. Sua grandeza como poeta, jornalista e educador deixou fundas marcas no estado do Paraná. Ao seu redor, inúmeros intelectuais cresceram. Foi homem de ideias e de ação. Difícil enumerar seus feitos. Foi a ele que Pereira da Silva dedicou o seu livro de estreia
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Dário Veloso, poeta, educador e filósofo (Rio de Janeiro, 1869⏤1937) ▪️ Fonte: Unespar
Vae Soli, de 1903; à época, Dario Veloso já era responsável como redator, fundador e colaborador de inúmeras revistas, como a Revista Azul (1893), Clube Curitibano (1894), O Cenáculo (1895) e a Revista Esfinge (1899), entre outras. Havia publicado Efêmeras (1890), Esquifes (1896), Alma Penitente (1897), Altair (conto, 1898), *Primeiros Ensaios* (1899), Esotéricas (1900), Ensino Cívico (1901), Teatro de Wagner (1901) e Lições de História (1902). Em 1899, dava aulas no Ginásio Paranaense.

Ele foi, sem dúvidas, o principal elo no início da trajetória poética e jornalística entre Pereira da Silva, o Simbolismo e a intelectualidade paranaense, tendo realmente um papel de “mestre e amigo”, como foi dito carinhosamente por Pereira da Silva.

Nesse cenário, literatura e espiritualidade andavam juntas. E o Espiritismo, assim como a maçonaria e os estudos ocultistas, estava circulando dentro do meio intelectual, e o Simbolismo, enquanto corrente estética, tem paralelos com a sutileza das ideias filosóficas que permeiam o núcleo dessas escolas espiritualistas, deixando antever os mistérios por trás dos véus.

Chico Xavier, o maior médium do Brasil
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Francisco Cândido Xavier, ou simplesmente Chico Xavier, foi um médium de reconhecido valor, chegando a ser indicado ao Nobel da Paz em 1981 e 1982, com mais de 10 milhões de assinaturas recolhidas para a indicação. Através de suas mãos, mais de 400 livros foram publicados. O primeiro livro psicografado por Chico foi Parnaso de Além-Túmulo, em 1932, e que, na época, causou grande convulsão na intelectualidade brasileira. A obra é uma antologia de poesias assinadas por diversos espíritos, incluindo grandes nomes da literatura brasileira e portuguesa, como Castro Alves, Alberto de Oliveira, Antero de Quental, Alphonsus de Guimarães, Antônio Nobre, Augusto de Lima, Augusto dos Anjos, Casimiro de Abreu, Cruz e Sousa, Fagundes Varela, Guerra Junqueiro, Leôncio Correia, Olavo Bilac e Raimundo Correia.

É uma constelação de astros. Chico, à época da publicação, tinha apenas a quarta série do ensino fundamental e trabalhava em um armazém em jornada integral.

Alguns depoimentos da crítica da época:
Opinião de Humberto de Campos:

“Eu faltaria, entretanto, ao dever que me é imposto pela consciência, se não confessasse que, fazendo versos pelas penas do Sr. Francisco Cândido Xavier,
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Humberto de Campos ▪️ Fonte: Arquivo Nacional
os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas características de inspiração e de expressão que os identificavam neste planeta. Os temas abordados são os que os preocuparam em vida. O gosto é o mesmo e o verso obedece, ordinariamente, à mesma pauta musical. Frouxo e ingênuo em Casimiro de Abreu, largo e sonoro em Castro Alves, sarcástico e variado em Junqueiro, fúnebre e grave em Antero, filosófico e profundo em Augusto dos Anjos.”

Opinião de Zeferino Brasil:

“Seja como for, o que é certo é que — ou as poesias em apreço são, de fato, dos autores citados e foram transmitidas do além ao médium que as psicografou, ou o Sr. Francisco Cândido Xavier é um poeta extraordinário, genial mesmo, capaz de produzir e imitar, assombrosamente, os maiores gênios da poesia universal... Em todas elas (nas poesias) se encontram patentes as belezas, o estilo, os arrojos, as imagens próprias, os defeitos, o ‘selo pessoal’, enfim, dos nomes gloriosos que as assinam e vivem imortais na história literária do Brasil e Portugal.”
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Zeferino Brasil, poeta, escritor, jornalista, cronista e crítico brasileiro ▪️ Fonte: Espaço Delfos
Opinião de Menotti Del Picchia:

“Deve haver algo de divindade no fenômeno Francisco Cândido Xavier, o qual, sozinho, vale por toda uma literatura. É que o milagre de ressuscitar espiritualmente os mortos pela
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Menotti del Picchia ▪️ Fonte: Casa de Menotti del Picchia
revivência da obra psicográfica de inéditos poemas é prodígio que somente pode acontecer na faixa do sobre-humano. Um psicofisiologista veria nele um monstruoso computador imantado por múltiplas memórias. Um computador de almas e de estilos. O computador, porém, memoriza apenas o já feito. A fria mecânica não possui o dom criativo. Este dimana de Deus. Francisco Cândido Xavier usa a centelha divina imanente em nós [...].”


Opinião de Monteiro Lobato:

“Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, então ele merece ocupar quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras.”
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Monteiro Lobato ▪️ Fonte: monteirolobato.com
Anos depois, em 1962, uma nova antologia foi publicada, com o título *Antologia dos Imortais*, pelos médiuns Chico Xavier e Waldo Vieira. A obra reúne mais de 100 poetas e, dentre eles, pelas mãos de Chico Xavier, dois poemas do paraibano Antônio Joaquim Pereira da Silva, o nosso Pereira da Silva. Segue, na íntegra, a transcrição dos poemas:

ÚLTIMO DIA
Não era mais o lume de Aladino Que trazia na mão dorida e pasma, Era a tremura de um doente de asma, Ouvindo, inerme, o choro do destino. O leito igual ao chão de lodo e miasma Fez-se lousa de gelo em Sol a pino... Quero gritar em vão, quanto um menino, Amedrontado à sombra de um fantasma. Divago. Embalde movo os lábios perros. Varo – errante viajor – impérvios serros... Meu sonho é um velho cão ladrando à lua... Tudo – silêncio pálido de esfinge... É o nada... A dor do nada que me atinge Mal sabendo que a vida continua...
ÚLTIMA HORA
A noite avança. À luz do olhar nevoento, Escuto o alarme... A rude voz do instinto Fala da morte. Em lágrimas pressinto A lividez do trágico momento. Espantado, atravesso o labirinto Dos delírios e sonhos que apascento. Vencido, o coração pulsa violento, Ave apresada ao peito semi-extinto. Tristeza, sombra e pó... Cinza e canseira... A ideia tomba. É a hora derradeira, Na exalação dos últimos instantes. Desço de todo ao caos que me agonia, Mas livre enfim, soluço de alegria, No caminho dos astros cintilantes.
(poemas mantidos conforme o original)

As poesias são tocantes. Registram dois momentos defronte ao mistério da existência: a morte. O estilo, o vocábulo, a estrutura do verso — tudo lembra a obra de Pereira da Silva, com o frescor cintilante de não estar sob o peso da matéria. Livre, o espírito encontra maior vigor para expressar seu gênio.

Fica aos leitores a interessante jornada literária, as pegadas na areia deixadas pelo ilustre poeta de Araruna. Fica um breve roteiro de uma história profunda entre literatura, espiritualidade e a formação mais profunda de nossa história. Fica, sempre, à luz da mente, a reflexão sobre os mistérios da vida e, para o coração, o bálsamo da poesia.

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