Sou fascinado por cheiros; além de tudo, alucino-me por essências. “Árvores são fáceis de achar: ficam coladas no chão”, como bem disse Arnaldo Antunes. Dias atrás tive uma felicidade rara: ver uma árvore abrindo, com solenidade discreta, o filme Hamnet e perceber que ela não entrava em cena sozinha. Entrava a natureza inteira, dançando sem coreógrafo, sorrindo com os lábios e, ainda assim, convincente.
Foto: Halley Tian
O OLFATO É O ATALHO MAIS ANTIGO ENTRE O MUNDO E O ÍNTIMO
As ervas são rasteiras, mas não se rebaixam; elas estão no chão, nas árvores e também nas mentes. A erva evolui a cabeça pelo nariz, pelo paladar, pela memória. Os sentidos se multiplicam quando ela serve ao corpo e à alma: pela transcendência, traz de volta aquilo que temos de mais íntimo. Pelo cheiro, abre-se a delícia do ar que antevê o sabor; o mundo se amplia; e a íris, encantada, ensaia um infinito de cognição.
Foto: Annie Spratt
É uma logística antiga, só de brisa. E, quando chega, chega no ponto exato da mente.
Sempre foi assim: gosto de imaginar o que há por trás de um aroma, de um rastro perfumado, de um tempero, de um gosto. Às vezes, a brincadeira roça o tenebroso, não por maldade, mas por excesso de mergulho no mundo encantado.
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Desde menino, as ervas estiveram comigo: o alecrim no jardim da casa da minha avó; nos caminhos da cozinha, eu encontrava o endro e a cidreira; elas me trazem, ainda, os aromas da fazenda Craibeira. Havia também a erva-sal, que satisfaz os ruminantes numa alegria mastigada com calma. E eu aprendia, sem aula formal, que cheiro é arquivo primordial: guarda tempo, devolve cenas, reorganiza o coração.
Foto: M. Lujan
Nunca consegui esconder, desde jovem, que sou usuário e apreciador de ervas, um apreciador das que fazem pensar e das que estendem o ponto de equilíbrio que só o princípio ativo de certas folhas traz. Com dedicação de curador, busco e guardo variedades.
Vou à caça da imaginação e sempre tive cuidado em usá-las. Porque há um detalhe pouco romântico: o que eleva também cobra método, e método é uma forma educada de não estragar o encantamento.
E, sem esquecer o bom de usar, confesso a vizinhança improvável dos aromas que vagam pelos corredores: do jasmim ao alecrim, há um fio. O cheiro suave de uma boa Maria Joana, banhada de alfazema, apazigua; e, quando vem perfumada em colônias e malvas-rosas, parece brincar, incensando o juízo e elevando a alma.
Foto: David Gabrić
“MACONHA” SOA COMO APELIDO TORTO
No Brasil, ela ganhou uma coleção quase carnavalesca: maconha, palavra de etimologia discutida; cânhamo, quando o assunto é fibra e indústria; diamba, herança africana; liamba, eco banto; fumo de Angola, memória atlântica; beck, no sotaque urbano; erva, simples e direta; baseado, quando já virou gesto; Santa Maria, com ironia devocional; Maria Joana, apelido que humaniza; chá, quando a conversa pede discrição.
Foto: Elsa Olofsson
A PALAVRA, ÀS VEZES, É A PRIMEIRA FUMAÇA
Desde que a botânica começou a ganhar sobrenome latino — *Cannabis sativa*, Cannabis indica, depois Cannabis ruderalis —, a planta já rodava o mundo com passaporte carimbado em muitas línguas.
Foto: Roman Kasyan
Cada nome revela uma camada histórica: farmacologia, comércio, diáspora, repressão e uso ritual. A planta muda pouco; o vocabulário é que floresce, como se cada cultura precisasse batizá-la antes de julgá-la.
Só que há exageros: certas invenções laboratoriais extrapolam, e as dimensões se perdem quando o desejo vira pressa. Entram transgênicos, misturas, amônias, e o sentido vai embora como quem esqueceu a chave na porta. Perde-se cheiro, perde-se paladar, perde-se o ponto — e ponto, para erva, é quase religião. O que intranquiliza não é a erva; são os excessos e a negligência que trocam a alma pelo atalho.
Foto: Unsp
Perceber uma árvore foi perceber uma ética: a natureza não grita, mas insiste. Desde os primórdios, quando o fogo domesticou a noite e a fumaça virou recado, as ervas aromáticas servem de ponte: cozinha, cura, reza, trazem lembrança.
E A LIBERDADE CHEGA COMO REMÉDIO: COM USO, A CURA.













