Sou fascinado por cheiros; além de tudo, alucino-me por essências. “Árvores são fáceis de achar: ficam coladas no chão”, como bem diss...

Ervas para Marias e Joanas

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Sou fascinado por cheiros; além de tudo, alucino-me por essências. “Árvores são fáceis de achar: ficam coladas no chão”, como bem disse Arnaldo Antunes. Dias atrás tive uma felicidade rara: ver uma árvore abrindo, com solenidade discreta, o filme Hamnet e perceber que ela não entrava em cena sozinha. Entrava a natureza inteira, dançando sem coreógrafo, sorrindo com os lábios e, ainda assim, convincente.

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Foto: Halley Tian
A alma humana vaga entre troncos, vento e ervas; e, com as ervas, chegamos às essências. Elas dão o equilíbrio para perceber o ar, as folhas e o mais singelo que existe: a sombra de uma copa. A ciência chama isso de compostos voláteis, mas a poesia chama de lembrança; e o corpo, que não perde tempo com teoria, chama de “vem cá”.

O OLFATO É O ATALHO MAIS ANTIGO ENTRE O MUNDO E O ÍNTIMO
As ervas são rasteiras, mas não se rebaixam; elas estão no chão, nas árvores e também nas mentes. A erva evolui a cabeça pelo nariz, pelo paladar, pela memória. Os sentidos se multiplicam quando ela serve ao corpo e à alma: pela transcendência, traz de volta aquilo que temos de mais íntimo. Pelo cheiro, abre-se a delícia do ar que antevê o sabor; o mundo se amplia; e a íris, encantada, ensaia um infinito de cognição.

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Foto: Annie Spratt
Olho para cima, vejo copas; olho para baixo, encontro o outro teto do mundo: a manta viva das folhas pequenas. As ervas também são rasteiras, algumas sorrateiras. As folhas ao vento se agraciam, e o vento transporta desejos e sonhos com uma eficiência que nenhuma entrega expressa alcança.

É uma logística antiga, só de brisa. E, quando chega, chega no ponto exato da mente.

Sempre foi assim: gosto de imaginar o que há por trás de um aroma, de um rastro perfumado, de um tempero, de um gosto. Às vezes, a brincadeira roça o tenebroso, não por maldade, mas por excesso de mergulho no mundo encantado.

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GD'Art
Na íris, abrem-se fractais e milhares de cores; a cognição leva um susto, porque a mente inventa muito quando a erva estimula, e inventa com convicção infantil do encantamento.

Desde menino, as ervas estiveram comigo: o alecrim no jardim da casa da minha avó; nos caminhos da cozinha, eu encontrava o endro e a cidreira; elas me trazem, ainda, os aromas da fazenda Craibeira. Havia também a erva-sal, que satisfaz os ruminantes numa alegria mastigada com calma. E eu aprendia, sem aula formal, que cheiro é arquivo primordial: guarda tempo, devolve cenas, reorganiza o coração.

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Foto: M. Lujan
A erva, quando é “das minhas”, semeia lembranças que se decompõem no adulto e renascem em folhinhas singelas, folhinhas imensas. Abrir dimensões é uma das maiores brincadeiras humanas; e eu, menino, via o cheiro virar dimensão, o paladar virar lugar e os olhos fazerem excursões a pontos galácticos. Era uma ciência holística sem manual: corpo, ambiente e memória conversando num idioma que não precisa de legenda.

Nunca consegui esconder, desde jovem, que sou usuário e apreciador de ervas, um apreciador das que fazem pensar e das que estendem o ponto de equilíbrio que só o princípio ativo de certas folhas traz. Com dedicação de curador, busco e guardo variedades.

Vou à caça da imaginação e sempre tive cuidado em usá-las. Porque há um detalhe pouco romântico: o que eleva também cobra método, e método é uma forma educada de não estragar o encantamento.

E, sem esquecer o bom de usar, confesso a vizinhança improvável dos aromas que vagam pelos corredores: do jasmim ao alecrim, há um fio. O cheiro suave de uma boa Maria Joana, banhada de alfazema, apazigua; e, quando vem perfumada em colônias e malvas-rosas, parece brincar, incensando o juízo e elevando a alma.

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Foto: David Gabrić
Do cânhamo vem o nome, vem a brincadeira do apelido, e apelido é coisa estranha. A gente batiza por afeto, por malícia ou por preguiça de explicar.

“MACONHA” SOA COMO APELIDO TORTO

No Brasil, ela ganhou uma coleção quase carnavalesca: maconha, palavra de etimologia discutida; cânhamo, quando o assunto é fibra e indústria; diamba, herança africana; liamba, eco banto; fumo de Angola, memória atlântica; beck, no sotaque urbano; erva, simples e direta; baseado, quando já virou gesto; Santa Maria, com ironia devocional; Maria Joana, apelido que humaniza; chá, quando a conversa pede discrição.

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Foto: Elsa Olofsson
Em Marrocos, é kif; na Índia, bhang; na Etiópia, dagga; na China antiga, má. A ciência observa canabinoides; a antropologia registra ritos; e a língua, sempre criativa, transforma botânica em cultura compartilhada.

A PALAVRA, ÀS VEZES, É A PRIMEIRA FUMAÇA

Desde que a botânica começou a ganhar sobrenome latino — *Cannabis sativa*, Cannabis indica, depois Cannabis ruderalis —, a planta já rodava o mundo com passaporte carimbado em muitas línguas.

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Foto: Roman Kasyan
No sânscrito antigo, era ganja; no árabe medieval, hashish; no espanhol do Caribe, marihuana; no México revolucionário, marijuana; na Jamaica ritual, voltou a ser ganja; na França boêmia, virou haschisch; na Inglaterra vitoriana, preferiram hemp; nos Estados Unidos do jazz, bastava dizer grass ou weed.

Cada nome revela uma camada histórica: farmacologia, comércio, diáspora, repressão e uso ritual. A planta muda pouco; o vocabulário é que floresce, como se cada cultura precisasse batizá-la antes de julgá-la.

Só que há exageros: certas invenções laboratoriais extrapolam, e as dimensões se perdem quando o desejo vira pressa. Entram transgênicos, misturas, amônias, e o sentido vai embora como quem esqueceu a chave na porta. Perde-se cheiro, perde-se paladar, perde-se o ponto — e ponto, para erva, é quase religião. O que intranquiliza não é a erva; são os excessos e a negligência que trocam a alma pelo atalho.

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Foto: Unsp
No fim, volto à mesma imagem: árvore colada no chão, um útero entre raízes; erva colada no mundo; e eu colado na essência.

Perceber uma árvore foi perceber uma ética: a natureza não grita, mas insiste. Desde os primórdios, quando o fogo domesticou a noite e a fumaça virou recado, as ervas aromáticas servem de ponte: cozinha, cura, reza, trazem lembrança.

E A LIBERDADE CHEGA COMO REMÉDIO: COM USO, A CURA.

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