Wellington Hermes Vasconcelos de Aguiar foi quem me recepcionou por ocasião do meu ingresso na Academia Paraibana de Letras. E quando o e...

O Wellington Aguiar que eu sei

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Wellington Hermes Vasconcelos de Aguiar foi quem me recepcionou por ocasião do meu ingresso na Academia Paraibana de Letras. E quando o escolhi, falaram alto a nossa amizade e a admiração que eu tinha (e tenho) pelo historiador e pelo cronista. Aliás, o homem Wellington, impulsivo, temperamental, revolto, teria tudo para não reunir os atributos do historiador que o foi, ou seja, um homem dedicado à pesquisa, atividade que exige paciência, pertinácia, disciplina, método...

Quando remontava à Revolução de 30, parecia escrever no calor da hora, como se estivesse no epicentro dos episódios, à imagem e semelhança de um correspondente de guerra, mais para Joel Silveira do que para Rubem Braga. Mas se possuía o temperamento impulsivo e quase sempre escrevia sem meias-palavras, sem meias-tintas, impregnava-o um lirismo terno, pungente, quando discorria sobre a João Pessoa dos seus amores, a respeito das ruas, becos e vielas dessa mui antiga cidade de Filipéia de Nossa Senhora das Neves.

No meu discurso de posse na Academia Paraibana de Letras, observei: “(...) para recompor o perfil da cidade antiga, ele remove o revestimento de asfalto das avenidas, os paralelepípedos das ruas e becos da João Pessoa de hoje, de agora, para dar no chão batido onde rastreia, passo a passo, o itinerário dos nossos ancestrais”. E concluía: “‘Cidade de João Pessoa – A Memória do Tempo’ é uma ode a esta urbe que se integra à existência de cada cidadão que acolhe, embala e adormece no seu solo sempre renovado por sucessivas gerações”.

Numa bem cuidada edição da Ideia, Wellington Aguiar lançou o seu último livro: “Dona Joaquina, As Normalistas e outros Textos”. Nele, além de reunir dois trabalhos inéditos – os que emprestam o título ao volume –, selecionou mais de uma centena de artigos veiculados em jornais, revistas e outras publicações do gênero. E em quase todos, a presença do polemista desassombrado, instigante, que esgrimia o estilete das palavras em defesa de convicções políticas das quais podemos eventualmente discordar, mas nunca sequer pôr em dúvida de que escrevia movido por sentimentos arrivistas ou interesses escusos.

Elogiar, para Wellington, consistia numa via de mão única, sem retorno, sem outro interesse a não ser o de homenagear àqueles pelos quais nutria a mais sincera admiração, a exemplo de João Pessoa, a quem denominava de “O Reformador”.

Mas a par de textos que enfocam a história coletiva, cujos acontecimentos repercutiram no dia a dia dos brasileiros, outros se atêm ao microcosmo de homens e de mulheres que, não obstante circunscritos às suas vidas simples, prosaicas, às suas próprias circunstâncias, fizeram a sua história individual, como foi o caso da indômita Dona Joaquina. Outros, a exemplo do tribuno João da Costa e Silva, o popular Mocidade, embora vindos de outras plagas, identificaram-se com a alma das ruas e dos homens de João Pessoa, além de reunirem o que o pessoense possui de mais intrínseco, de mais visceral, de mais orgânico: o gosto pela contestação.

Ainda rapaz, Wellington Hermes Vasconcellos de Aguiar me conheceu menino da Avenida dos Tabajaras, cujos semáforos, setas e sinais de trânsito que orientam o fluxo dos veículos de hoje, propiciaram-me um poema com o qual o autor de “O Passageiro do Dia” se identificava plenamente, já mesmo por discorrer a respeito de uma das artérias de João Pessoa:

os tabajaras depuseram as suas setas no arco das esquinas privaram-nas de velocidade no arco das esquinas puseram-nas em repouso no arco das esquinas no arco das esquinas as setas fluem o tráfego mas congestionam e desorientam o antigo menino da avenida dos tabajaras menino antigo de uma tribo cuja aldeia ainda não era tão global

Texto lido por ocasião da homenagem póstuma prestada a Wellington Aguiar na Academia Paraibana de Letras


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  1. A Avenida Tabajaras, a avenidas das lindas casas!!!Que bela homenagem a um amigo Sérgio... parabéns!!!

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  2. ei, gil,ei, poeta, meu abraço amigo.

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