Noel Rosa é considerado, atualmente, um dos maiores nomes da música popular do Brasil em todos os tempos. A obra do “Poeta da Vila Isabel...

A Voz do Morto

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Noel Rosa é considerado, atualmente, um dos maiores nomes da música popular do Brasil em todos os tempos. A obra do “Poeta da Vila Isabel” vem sendo objeto dos mais elaborados estudos acadêmicos e, frequentemente, regravada pelos nossos principais intérpretes. Mas, nem sempre foi assim. Nos anos imediatamente posteriores a sua morte, Noel Rosa e as suas músicas foram praticamente esquecidos. Para o jornalista e escritor Ruy Castro:

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“o enterro e a missa de sétimo dia para Noel foram apoteóticos, mas o esquecimento começou assim que o padre recolheu os paramentos. Nos onze anos seguintes, a música de Noel desapareceu das lojas de discos, ninguém o cantava no rádio, a imprensa o esqueceu”.

Durante esses anos a música de Noel Rosa permaneceu em uma espécie de limbo e foi uma cantora, amiga do compositor, quem manteve viva, nesse período, a obra do “filósofo do samba” e foi a responsável, nos anos finais da década de 1940, pelo ressurgimento, em grande estilo, das canções de Noel.

Foi de tal forma relevante a participação da cantora Aracy de Almeida para a preservação, e o posterior renascimento, da música de Noel Rosa, que o seu nome ficou, indelevelmente, vinculado ao nome de Noel, como a grande intérprete do compositor de Vila Isabel.

A maioria das pessoas tem somente a lembrança de Aracy de Almeida nos últimos anos de sua vida, como a jurada ranzinza em programas populares de televisão, sempre dando notas baixas aos calouros, entrecortadas por divertidas e curiosas gírias. Para o poeta e compositor Hermínio Bello de Carvalho aquilo era um “estereótipo que a televisão exacerbara para consumo das massas, exposto cruelmente como um ser humano intratável, desglamourizada e permanentemente de maus bofes”.

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Mas, segundo depoimento de Hermínio, que era seu amigo, Aracy era uma pessoa de “fino trato, de inteligência incomum”. Na casa da cantora, no bairro do Encantado, as paredes eram cobertas por quadros de Di Cavalcanti, Clóvis Graciano, Heitor dos Prazeres e Aldemir Martins. Na sala, um busto da cantora, esculpido por Bruno Giorgi. “Na vitrola, Bach, Armstrong, Ella Fitzgerald”. E Hermínio comentava seus contatos telefônicos com Aracy: “Rasga essa máscara ótima de seda / E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos” é a voz de Araca do outro lado da linha, recitando para mim Augusto dos Anjos”.

Nascida no Rio de Janeiro, no subúrbio do Encantado (daí o titulo de “Arquiduquesa do Encantado” que lhe deu Hermínio Bello de Carvalho), Aracy de Almeida foi uma das maiores intérpretes da música popular brasileira. Para se avaliar a sua importância como cantora basta dizer que ela era a intérprete favorita de Noel Rosa. Para o jornalista João Máximo, biógrafo de Noel:

“Aracy era cantora rara cujo traço mais marcante, além da voz naturalmente triste, pungente às vezes, é a sinceridade: impossível não acreditar em cada palavra, cada nota do que ela canta”.

Aracy de Almeida sempre manifestava a sua gratidão pelo apoio que, no início da sua carreira, recebeu de Noel Rosa.

“Noel pra mim foi muito bom, porque realmente quando eu comecei ninguém fazia fé em mim […] e o Noel me deu a mão […] só ele acreditou em mim [...] Ary Barroso, Assis Valente, Joubert de Carvalho, Lamartine Babo e Custódio Mesquita – essa gente não me dava música porque me achava um lixo, tá entendendo? Por causa dessa minha vida, desse meu modo de falar de coisas assim, eles não gostavam de mim […] De maneira que quem acreditou em mim mesmo foi o Noel, que gostava desse meu gênio, me achava uma pessoa genial”.

A cantora, além do mais, tornou-se amiga inseparável e companheira de vida boêmia do Poeta da Vila Isabel, o que ela própria contava, na sua linguagem sempre direta e desabrida:

“eu convivi uns cinco anos com Noel […] a gente saía pra beber […] e eu ficava nessa até de manhã, quando Noel me levava pra casa […] passei a conhecer com ele os piores lugares do Rio de Janeiro. No rádio, havia gente que franzia o nariz diante de nós. Éramos tidos como gente que não prestava. […] Mas vamos botar as cartas na mesa: entre mim e Noel nunca houve coisa nenhuma”.

Dois meses depois da morte de Noel Rosa, Aracy de Almeida iniciava o seu empenho na divulgação da obra de Noel, gravando Último Desejo , uma canção inédita deixada pelo compositor, que foi a última música que ele fez.
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“Último Desejo”, que Noel (já muito doente) compôs para a sua grande paixão (Ceci, uma dançarina da zona boêmia do Rio) se tornou um dos grandes clássicos da música popular brasileira. A interpretação emocionada que Aracy deu à canção, com o acompanhamento da flauta e do conjunto de Benedito Lacerda, para muitos é insuperável.

Após a morte de Noel Rosa, Aracy de Almeida, que já havia se firmado como uma das grandes cantoras da chamada Era do Rádio, e que era apelidada de “O Samba em Pessoa”, passou a gravar canções dos principais compositores da época. O repertório de Aracy inclui as primeiras gravações de músicas que se tornaram clássicos do cancioneiro popular brasileiro, como “Camisa Amarela” (Ary Barroso), “Fez Bobagem” (Assis Valente), “Louco” (Wilson Batista e Henrique de Almeida), “Não me diga adeus” (Paquito e Luís Soberano) e “Saia do Caminho” (Custódio Mesquita e Evaldo Ruy).

No final da década de 1940, com o fechamento dos cassinos, a vida noturna no Rio de Janeiro havia se deslocado para as boates de Copacabana e Aracy de Almeida passou a circular não mais nos “piores lugares do Rio de Janeiro”, como no tempo em que ela flanava com Noel Rosa, mas em ambientes sofisticados, da alta sociedade carioca, como o nightclub Vogue, onde foi contratada como cantora.

Os companheiros inseparáveis de vida boêmia de Aracy de Almeida passaram a ser, não mais os sambistas do Estácio e adjacências, mas jornalistas e intelectuais como Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Fernando Lobo e Vinícius de Moraes. Talvez, por influência desses novos amigos, Aracy começou a cantar na Vogue os esquecidos sambas de Noel Rosa (curiosamente, com acompanhamento de músicos norte-americanos como Booker Pittman e Louis Cole). As apresentações de Aracy na Vogue, interpretando as músicas de Noel, alcançaram grande sucesso.

Devido à repercussão dos shows de Aracy de Almeida na Vogue, o compositor Braguinha (então diretor de uma gravadora) produziu, a partir de 1950, uma série de três discos de Aracy cantando exclusivamente músicas de Noel Rosa. Feitos com esmero, com arranjos do maestro Radamés Gnattali e capas do pintor Di Cavalcanti, os discos foram fundamentais para o ressurgimento da obra do Poeta da Vila. Para se avaliar a importância dessas gravações, tome–se o caso de Conversa de Botequim , uma das músicas que foram regravadas por Aracy. Este samba que, atualmente, é uma das músicas mais conhecidas de Noel Rosa, tinha, na época, apenas uma única gravação, feita, em 1935, pelo próprio compositor. Era um samba, praticamente, desconhecido.


Durante a década de 1950, Aracy lançou algumas músicas, de compositores seus amigos, que tiveram grande destaque, como Se eu morresse amanhã , de Antonio Maria, Quando tu passas por mim , de Vinícius de Moraes e Bom dia tristeza , uma inusitada parceria de Vinícius com o paulista Adoniram Barbosa.

Com o decorrer do tempo, Aracy começou a se queixar da vinculação excessiva do seu nome ao de Noel, argumentando que tinha, também, grandes sucessos na sua carreira de cantora com músicas de outros compositores.

“[…] isto está se tornando um pouco ‘chato’ pra mim. É o seguinte: Eu explico pra vocês. Eu entro num bar […] mesmo que não vá lá pra cantar, mas pra bebericar e tem sempre um que fala assim… Aracy, canta ‘Feitiço da Vila’ pra gente… ou, então, outros já ‘baratinados’ que gritam assim… Aracy, canta agora o ‘Último Desejo’. E ainda um outro lá no fundo que grita… canta aquela do Manoel Rosas […]”

Em 1968, Aracy de Almeida procurou Caetano Veloso revoltada com o tratamento que havia recebido na Bienal do Samba, um festival de músicas que foi realizado em São Paulo. Caetano conta que Aracy não só pediu para ele fazer uma samba para ela cantar, mas, praticamente, ditou como a música deveria ser feita:

“me tratar como glória nacional pensando que vai me salvar […] eu já tou de saco cheio com esse negócio de Noel […] eu tenho que arrastar esse morto o resto da vida […] quando eu canto é a voz desse morto […] faça uma música da pesada pra eu gravar [...]”

Caetano Veloso atendeu a Aracy de Almeida e fez o samba A Voz do Morto .


“Eles querem salvar as glórias nacionais / As glórias nacionais / Coitados / Ninguém me salva / Ninguém me engana / Eu sou alegre / Eu sou contente / Eu sou cigana / Eu sou terrível / Eu sou o samba / A voz do morto [...]”

Aracy de Almeida morreu, no Rio de Janeiro, no dia 20 de junho de 1988, aos 73 anos. No seu velório, Hermínio Bello de Carvalho fez o seguinte comentário:

“O mais triste é saber que toda essa gente veio aqui para se despedir da jurada de televisão. Quase ninguém mais lembra que ela foi uma grande cantora”.



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  1. Parabéns por mais um artigo de fino lavor sobre a nossa música. A grande Aracy certamente leria com gosto e aprovaria esse belo texto.

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