Histórias não obrigatoriamente nasciam de cordel fictício ou repassador de notícias, ou de almanaque ibérico abarrotado de mitologia mour...

Maria, pede chuva

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Histórias não obrigatoriamente nasciam de cordel fictício ou repassador de notícias, ou de almanaque ibérico abarrotado de mitologia moura, e não necessariamente exalava-se de senzala ou de floresta indígena, nem mesmo de origem facilmente rastreável, mas, é certo que boa parte delas tinha brotado da memória de uma tradição oral que se veio firmando, muito provavelmente desde o tempo, ainda não tão longevo, em que nós, aldeões serranos, vimo-nos encantados — e mais ainda, alvoroçados —, por conta não de que um império tivesse acabado de virar república, mas pela novidade de um governo cujos contornos embora se assomassem para nós ainda indecifráveis, surpreendia ao dar a impressão de piscar uma luzinha de interesse por nossas vidas remotas.

Parecia de fato estar se ocupando conosco. Embora de um jeito tal que não cessasse de trazer pequenos ou grandes aborrecimentos a alguns, pequenas ou grandes alegrias a outros, com as tantas novidades cartoriais, as inovações coletadoras de impostos, a importância súbita de algum insignificante personagem que era, no entanto, capaz de entender tais códigos.

O levantamento de uma cerca e a importância das pessoas segundo estivessem dentro ou fora dela, a pequena plaqueta de chumbo à flor do chão que, muitos anos depois, haveria ainda de jazer sepultada pelas coisas do vento, quando alguém em uma vez ou outra perdida a limparia para vê-la, sem qualquer idéia mais precisa de serventia que viesse a ter, mas que com muito respeito e horror quase sagrado tinha aprendido a dizer daquilo que era o marco geodésico. Primeiro censo demográfico, primeiras eleições, atropelo de analfabetos, empáfia do senhor juiz, grosseria do distinto delegado, corre-corre da senhorita de tal – solteirona, vesga, abnegada dos altares e serviços da igreja, disputada nos saraus declamatórios e vetusta nos conteúdos da crestomatia –, consciente de seus deveres cívicos com a pátria num momento de difícil transição, mas sem tirar o olho do senhor juiz, baixinho e caolho, mas sem dúvida um excelente partido.

Uma massa de situações propícias à admiração, espanto ou riso, estaria na origem do hábito que se tinha de eternamente reviver pequenos causos. Porém o que contava mesmo era aquela frase deixada escapar num momento qualquer, inesperada, com a marca – e expressando a condição – de seu mundo preliminar e certamente mal ajustado aos novíssimos fatos, conquanto conserve o atrevimento de ser inusitada o bastante para fazer jus a uma situação que – dali pra frente – tornar-se-á ímpar. Única.

Podendo tal frase não passar da resposta mordaz daquele que renunciaria à liberdade para não perder a piada, respondendo no mesmo diapasão de uma pergunta, que, por vício de linguagem, omitira o verbo ser Não senhor governador, nunca fui preso por ladrão, mas pela polícia,

ou ainda, desse fraseado infinitamente tosco e grandiloquente que, pelo modo intempestuoso e epifânico com que foi de encontrão às palavras, mas não ao exato sentido das coisas, logrou alcançar pelo menos certa simultaneidade de som entre fato e narrativa, sendo este o caso manifesto de um matuto filósofo – É Inácio Gabão –, analfabeto e com uma indiscutível atenuança para a observação dos fenômenos naturais: o cujo não perderia a chance de exercer seu mister, quando, na noite anterior, de fúria invernal, uma enorme rocha rolou de lugar imemorial Foi o timósfero que andava agitado, houve o dilocreto e deu-se a dirrubação.

Mas ao longo dos anos o relato de tais acontecidos ia secando seu drama. Configurando a peculiaridade de alguém que se tinha transformado naquela meia dúzia de palavras dentre todas que disse (ou nem disse) na vida. O contexto perderia rapidamente sua importância, e quando vagamente oferecido, daria a impressão de que o acontecido não se dera com outra finalidade que a de produzir mais uma alegre benfeitoria labial, que seria afinal transformada em uma sentença dita e compartilhada por todos. Seriam esses exemplos e histórias inevitáveis nas conversas noturnas, dentro das casas.

Mas, tudo que foi sendo somado em dizeres de espírito de alguém que se afundou em vexame, ou dele escapou, que comentou a própria má ou boa sina, a punição exemplar ou injusta, que fez tal exclamação espantosa por uma admiração que talvez não lhe fosse descabida – mas que falou por si, e de modo misterioso respondeu por todos –, acabou se constituindo em um vasto repertório de reações verbais, de resposta pronta e lugar comum para qualquer situação que guardasse a mais remota semelhança da original, e servindo assim à preservação da integridade comum.

Era a identidade tipicamente montanhesa, mantida em anacronismo próprio, característica peculiar, num modo de compensação para destino de mundo à parte. Criativo versus defasado. Embora universo aldeão, permanentemente às vésperas da surpresa.

Perfeitamente natural é que contassem com essas expressões, sempre mais antigas que recentes, para os arranjos de povoação e transporte no tempo que sempre se viam exigidos a fazer, especialmente por imposição daquelas horas em que nada mais era sensato, sequer possível de ser feito no mundo, no interlúdio que se dava depois de algum fumegante jantar, ainda com as sombras atenuadas, e durante as conversas que se seguiam – com jeito de conspiração – esperando o momento de recolher-se. Quando não raro acontecia dessas conversas tomarem rumo diferente, mais saudoso e evocativo.

A imaginação bruxuleava junto com os candeeiros – utensílios que permitiam a uma sombra gesticular por teto e parede, uma voz ter sua boca, um mal-cheiro eventual ser identificado na origem –, e talvez isso, ou o rosnar incessante daquele eterno vento (impedido por portas e janelas travejadas) fizesse que o tempo fosse se descolando dos assuntos do dia à dia, e anacronicamente fosse recuando para a revivescência de uma aldeia infinitamente mais primordial e exemplar, já que havia uma significativa diferença entre o que dali mais para a frente poderia acontecer – caso acontecesse –, e aquilo que certamente já tinha acontecido e era um fato, mesmo quando aparentemente perdido em um tempo anterior a noite mais improvável da lembrança, e sem possibilidade alguma de que alguém surgisse caminhando no meio da cerração noturna (vindo de outras mais antigas) e exalasse aquela fumacinha branca ao abrir a boca para lhes dar um testemunho válido.

Uma estranha integridade, no entanto, se introduzia sorrateira nas evocações mais antigas, e que remontavam a uma época com cheiro de onça próxima, tu-ru-tu-tu monótono de casas de farinha, visão funesta de índios desterrados e em penosa locomoção.

Ao tempo dos pequenos hemisférios de negros onde ninguém era bem vindo, surgidos em algum contra-pé geológico, numa contra-mão de caminhos, ali, onde os refugiados não poderiam contar – para indústria geral da vida – com nada além dos quatro, desproporcionados e sempre mal predispostos elementos naturais de uma pátria que era, talvez, entre eles, motivo de umas tantas e toscas indagações que, presume-se, às vezes se fizessem, mas diária e muito provavelmente lidando com tais dúvidas mediante conjecturas e argumentos que somente lhes podiam advir em forma de barro, carvão ou fumaça, uma vez que daquela suposta pátria lhes fosse impossível vislumbrar ou conceber qualquer sentido ou lei além das mais irremissíveis, ou que mais severamente vigoravam dentro dos estreitos limites – fincados por eles – em torno de algumas braças de pau à pique.

De brancos que buscaram nos ares elevados uma panaceia para o cansaço crônico dos que, em algum momento, e por alguma estranha razão, passam a acreditar que uma heráldica de nomes pode estipular interesses da genética, e talvez por isso, se fossem deixando levar pela vastidão e isolamento que os chapadões transmitem para tentar construir o conflituoso sonho de um império à parte. Como trouxessem, além do brasão algum cobre, não lhes foi difícil amalgamar uma indolência disponível e arrastá-la na experiência temerária.

Mas tudo que restava de um sonho visionário, de uma tragédia particular, ou pública, de Serafim, o ermitão centenário que já não lembrava o amor e a consequente desventura que lhe tirou a razão e o sentido de viver entre semelhantes, do soberbo cantador, Limeira – com dentes e viola dourados –, que atribuía razões para o que não tinha nenhuma, nem delas precisava, de Agostinho, de Romano, de Hugulino, de Germano, de Nogueira, de Nicandro, de Severo, de Pirauá, de Adolfo Rosa Velho, de Liberato, dos irmãos Batista e sua indústria de folhetos, da Arte de lutheria com os irmãos poetas e músicos Teodoro e Zé Obrigo, e até dos irmãos Guabirabas – facínoras terríveis, e assim do embaraço de uma vida, dos talentos mnemônicos e quase sobrenaturais de Pitá – trineta de Agostinho –, de um fato curto e para sempre risível,

do anúncio de uma vultosa herança legada por parente remoto em terras remotas, e que já chegou conferindo ao presumido herdeiro notoriedade súbita, crédito fácil e muitas e novas amizades, mas que, uma vez desfeito o engano, serviu para mostrar que num único e movimentado dia um homem pode sair da pobreza e a ela retornar, que em consequência disso poderá dispor de uma chance única tão quanto inusitada de, nesse interlúdio declarar-se falido, e com isto ficar, numa espécie de compensação, para sempre com certo ar de nobreza – nunca antes suspeitada –, e que, pelo efeito de uma incansável repetição desse causo, a todos será concedido ver como o percalço de um único dia irá, por força do uso, se transformar numa epopéia de décadas, e mais: como pode criar uma vertente irônica e lamentosa para as expressões da língua, substituir alguns mitos consagrados da queda e até atribuir um novo nome ao seu protagonista Quem foi Chico-Quebra,

desse outro, um antigo refugiado – a quem a bebida impedira sempre de possuir algum bem – que se propôs numa barganha única, e a preço de oportunidade comprar um burro que morria Para que todos digam: morreu um burro de Zé Pretão.

Desse fazendeiro falastrão, presunçoso e cosmológico, que escolheu dar nome de astros e planetas aos animais -- num injustificável, exagerado xamanismo à multiplicação das reses, já que não possuía mais que uma pequena gleba de terra –, mas no final teve de contentar-se em ver suas esperanças de riqueza resumidas num satélite, no momento em que se viu forçado a reconhecer o próprio pecado da soberba, bem como a mão do castigo divino na grande seca de l877 que lhe dizimou a pequena constelação de bois, deixando-lhe apenas o mais corriqueiro dos objetos do sistema solar: uma vaca por nome Terra e algum bezerro, trôpego, ainda por ganhar um nome, girando em torno dela Vaca Terra, bezerro Lua,

da crueza satânica de certo feirante que revelou-se surpreso pela constatação de ter vendido seu artigo à metade de um freguês, e não a ele todo, quando este, após longo tempo e andando com dificuldade, veio pagar a dívida e justificou a demora pela imperiosa razão de quem passou a sofrer as sequelas de um derrame cerebral, ocorrido pouco tempo depois da compra. Disse, na ocasião, ter ficado com uma banda esquecida Foi a que me comprou, já que a lembrada não me veio pagar,

daquele mais conhecido por Gama, que durante severa estiagem e por não ter absolutamente com que se ocupar, resolve praticar o exercício da diversão tentando equilibrar-se sobre um muro, quando escuta da mulher que poderia cair, minutos antes que realmente caísse. Há muito custo, ajudado por ela e bastante combalido consegue erguer-se, e aí já havia recuperado a voz Maria, pede chuva,

do mesmo, que parou junto aos diferentes partidários das potências que se engalfinhavam no mais grave conflito mundial, acotovelados como podiam em volta do único e público rádio existente para ouvir e torcer com as últimas notícias, e, instado a um palpite, fitou o chão com ar resignado, meio que ausente, mas com aquela contrita e inabalável convicção que têm os pais sobre alguma estranha aptidão dos filhos, quando então predisse – para júbilo da minoria presente – o desfecho da guerra com vitória da Alemanha, porém justificando tanta certeza – para alívio da maioria – em função de um simples capricho doméstico Pois não é que José meu quer,

desse outro, um língua–solta, que ao deixar escapar o que lhe fora confiado, tentou ainda se justificar O compadre vai me perdoar mas segredo grande desse jeito é pra ser guardado por muito mais gente,

das carpideiras profissionais que durante a grande mortandade de 1930, chorariam em enterros errados.

de Antonio Rêgo e sua coerência interna para com um estilo de vida soberbo e inconseqüente.

Tudo que restava era um dito ou outro.

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