A degradação como espetáculo. É o que me vem à mente quando me deparo com essas maratonas impostas a participantes de programas de tevê, t...

A noite dos desesperados

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A degradação como espetáculo. É o que me vem à mente quando me deparo com essas maratonas impostas a participantes de programas de tevê, tipo Big Brother. E, isso, porque sou assaltado pela lembrança de “A noite dos desesperados”, filme de 1969 sob a direção primorosa de Sydney Pollack.

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O cenário é o da depressão de 1929, quando multidões amargavam o desemprego e a fome nos Estados Unidos. A oportunidade de três refeições diárias e a chance de um prêmio superior a mil dólares levaram o casal Gloria Beatly (Jane Fonda) e Robert Syverton (Michael Sarrazin) à inscrição num baile pavoroso. Os casais rodopiavam por dias seguidos até a absoluta exaustão. Venceria quem por mais tempo resistisse à provação humilhante e inumana.

No transcurso do filme, os passos graciosos, os trajes elegantes e os semblantes inicialmente risonhos terminam por ceder lugar, pouco a pouco, ao desalinho, ao desânimo e ao mais completo estágio da miséria humana. Trama densa, sufocante, medonha.

Inspirado no livro de Horace McCoy, “They Shoot Horses, Don’t They?”, o filme recebeu, originalmente, esse mesmo título. Em tradução livre, “Matam cavalos, não matam?” remete ao tiro de misericórdia dado por Syverton na cabeça de Gloria, a pedido da parceira espiritualmente destruída após a desilusão do prêmio.

Em 1970, “A noite dos desesperados” teve nove indicações para o Oscar e levou o de melhor ator coadjuvante concedido a Gig Young que então encarnara o caricato mestre de cerimônia do baile sinistro.


Fui despertado para o tema, agora há pouco, ao perceber a cena estranha no televisor: o giro enfadonho de umas poucas pessoas numa esteira rolante. Eram animadas por companheiros que ali se postavam de pé por trás de balcões. Fui informado de que atuavam em duplas e trocavam posições (dos balcões para a esteira e vice-versa) desde o início da última madrugada. Os finalistas haverão de ganhar um carro e a liderança do BBB, ao que me explicou alguém da casa.

Pois é, 52 anos depois do filme de Sydney Pollack a vida também gira, bizarramente, no País do desemprego, da pandemia e da desesperança. E, nessa dança maluca, uma plateia imensa desvia a atenção de suas angústias para torcer contra ou a favor dos que assim buscam o sucesso, a fama e o dinheiro. É preciso dizer que não são menos caricatos os atuais mestres de cerimônia.


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