O campo juncado de cadáveres, o sangue fluindo em jorros, cidades bombardeadas e saqueadas, pessoas desalojadas, inocentes mortos, soldad...

A vida não para

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O campo juncado de cadáveres, o sangue fluindo em jorros, cidades bombardeadas e saqueadas, pessoas desalojadas, inocentes mortos, soldados famintos, exaustos e sem cartuchos, comandantes despreparados e um líder fraco, eis como se desenha o cenário da guerra franco-prussiana (1870-1871), num desastre total para a França, em que a besta vencia o homem (la bête emportait l’homme, Segunda Parte, Capítulo VII), assunto do romance La débâcle (A derrocada, 1892), de Émile Zola, cujo título não poderia ser outro. O final dramático visto em La bête humaine (A besta Humana), em que um trem desgovernado, pela morte de seus condutores, porta, no compartimento de carga, soldados para a guerra, como gado sendo levado para o matadouro, aqui encontra o seu destino (considere o leitor “dramático” e “destino”, ambos com o sentido grego):

“On tuait encore, on détruisait dans tous les coins: la brute lâchée, l’imbécile colère, la folie furieuse de l’homme en train de manger l’homme”.
“Matava-se ainda, destruía-se em todos os cantos: a negligência grosseira, a cólera imbecil, a loucura furiosa do homem em vias de comer o homem”.
Segunda Parte ▪ Capítulo IV

A guerra franco-prussiana é anunciada na série Les Rougon-Macquart desde Nana, passando por La bête humaine, La terre e l’argent, mas eclode em La débâcle com toda a sua crueza e insanidade, e tanto mais crua quanto mais insana. Este romance nos mostra a derrocada de Napoleão III, enfraquecido fisicamente por um mal de próstata, mas combalido, sobretudo, em seu poder. O império está em seus estertores e o imperador vai ao campo de batalha por já não poder se encontrar em Paris, tendo sido afastado, inclusive, de suas responsabilidades militares. Débil de caráter e de saúde, com um passo vacilante de doente (pas vacillant de malade), Napoleão III se torna uma carga difícil de se carregar, atrapalhando o deslocamento das tropas:

“Une inutilité sans nom et encombrante, un paquet gênant, emporté parmi les bagages des troupes”.
“Uma inutilidade sem nome e embaraçosa, um pacote incômodo, levado entre as bagagens das tropas”.
Segunda Parte ▪ Capítulo VI

Diz o poeta Camões que “um fraco rei faz fraca a forte gente” (Os Lusíadas, Canto III, estrofe 138). A fraqueza do imperador e a necessidade de tentar evitar o inevitável, a derrocada de seu império, leva o seu exército à derrota e faz a França descer do pedestal das glórias napoleônicas, do Napoleão I, tio do Napoleão III. E leva-nos ainda a compreender que cada Napoleão tem o Waterloo que merece. A derrota de Napoleão I em Waterloo não foi por incompetência ou fraqueza, mas por estar enfrentando um exército de coalizão e não poder contar com todo o seu exército, detido em alguns pontos, sem conseguir chegar ao campo de batalha. A derrota de Napoleão III é o resultado de falta de estratégia, de provisões, inclusive cartuchos insuficientes e obuses que explodem inocuamente antes de atingir o alvo, aliada à ação desencontrada de pífios generais, que sequer conhecem a geografia do campo de batalha. É isto que faz um dos personagens principais, Maurice, sentir ainda mais a derrota humilhante e a capitulação servil.
Wilhelm Camphausen
A França gloriosa de seu avô, vencedor em Austerlitz, Wagram e Friedland, capitulava, vergonhosamente, como uma degenerescência da raça, nos tempos do neto: “a França estava morta” (la France était morte, Segunda Parte, Capítulo VIII).

A maior parte dos que se encontravam na guerra não sabia a razão de estar ali lutando, ainda mais quando se matavam por outros que estavam, em alguma parte, tranquilamente, fumando seus cachimbos (c'est vexant tout de même d’être là, à se faire casser la gueule pour les autres, quando les autres sont quelque part, à fumer tranquillement leur pipe, Segunda Parte, Capítulo VII), é o que pensa Jean Macquart ou Jean Caporal, cabo do 106º regimento do exército francês, e personagem principal do romance. Duas passagens são relevantes dentro desse cenário de guerra: uma sobre o sofrimento, outra sobre a vida que não para. No primeiro caso, envolvendo uma das personagens, a idosa Madame Delaherche, sob o fogo cruzado das tropas francesas e prussianas, sendo estas em um grande número, sempre comparadas dentro do texto a um formigueiro sem fim. Madame Delaherche vê que o sentido de sofrimento é relativo. O que sofremos assume um significado diferente, quando comparamos com o sofrimento das demais pessoas. Não estamos isolados. Até para sofrer, necessitamos ter a consciência do quanto sofremos. Ao ver o hospital de campanha improvisado no barracão da empresa do filho, hospital mais parecido com um açougue (la boutique d'un boucher, Segunda Parte, Capítulo VI), pela gravidade dos ferimentos ali presentes, pela falta de condições de trabalho, a brutalidade das cirurgias e amputações ali realizadas, a sujeira, enfim, a sua reação lhe dá o tamanho de seu sofrimento:

“— Que de souffrances, mon Dieu! On oublie les siennes”.
“— Quanto sofrimento, meu Deus! Esquecemos os nossos”.
Segunda Parte ▪ Capítulo VI

A outra passagem nos esclarece a respeito do que é a vida. A vida não para. Precisamos despertar para o fato de que enquanto estamos vivos, devemos nos ater à vida e ao que ela nos proporciona, procurando enfrentar as adversidades. Com relação à morte, nada podemos fazer, sentimos a perda dos que se foram, mas não podemos imergir num lamento estéril. Os mortos estão resolvidos, enquanto a vida está em pleno desenvolvimento, não importando as circunstâncias por que passamos. É por isso que o velho camponês, sem pressa, continua a lavrar a sua terra, em meio à guerra, e o comentário de Zola é fantástico, sem descartar dele a ironia, como esclarecimento de que a vida está em franco existir:

“Pourquoi perdre un jour? Ce n’était parce qu’on se battait, que le blé cesserait de croître et le monde de vivre”.
Por que perder um dia? Não era porque se lutava que o trigo deixaria de crescer e o mundo de viver”.
Segunda Parte ▪ Capítulo V

Estes dois episódios nos ensinam que há dores e sofrimentos maiores que os nossos, e que há limites, com relação ao que podemos fazer ou deixar de fazer. Diante disso, ajudar quem está sofrendo mais, quem tem uma dor maior, pode ser até um alívio à nossa própria dor. Por outro lado, a consciência do que podemos fazer nos conduz a uma esperança diante do que nós achamos ser irremediável e pensamos estar além de nossas possibilidades. As outras opções são se enclausurar numa dor, achando que é a única, e sofrer ainda mais querendo fazer o que jamais será possível, por ultrapassar as nossas condições.

Por que perder mais um dia? É a reflexão que devemos fazer, pois a vida está aí para ser construída e a sua construção se dá na dificuldade, não na bonança.

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