O restaurante situava-se estrategicamente em um terreno inclinado, exatamente “uma ladeira”, tendo seu estacionamento em sentido perpendic...

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O restaurante situava-se estrategicamente em um terreno inclinado, exatamente “uma ladeira”, tendo seu estacionamento em sentido perpendicular à edificação. Na grande varanda as mesas distribuídas regularmente, seguindo as distancias recomendadas, ficavam bem abaixo do nível da rua... os carros paravam perto, e além do volume visual dos SUV, frequentes na região, a visão favorecia os pés dos visitantes. Um forró de Santanna animava o almoço, com o lépido ir e vir dos garçons bem-humorados, e da cozinha vinha um cheiro de assados, que se espalhava no ar.

Havia apenas uma vaga disponível, e, ocupou o pensamento a questão: quem seria o próximo cliente? Entre um gole e outro de suco de laranja, um som potente de um automóvel ressoou, à procura exatamente do espaço livre. Uma chegada ruidosa, proporcional ao desejo de ser percebido, em seu aparente “status econômico”. A porta do passageiro se abriu, e após alguns minutos, uma muleta tateou o chão,
em busca de um terreno firme. A primeira perna surgiu... feminina, de uma mulher madura, com uma sandália presa às pernas, à maneira grega, de material simples, já desgastada pelo uso. A segunda perna apareceu... e um pé torto, por falhas na sua formação, tentou precariamente se amoldar ao calçado, ainda com um edema considerável no tornozelo.

Rapidamente três associações vieram a memória: o professor de Ortopedia, muito querido, Ronaldo Mendonça e suas aulas... a primeira descrição, feita por Hipócrates, sobre a etiologia do Pé Torto Congênito, que decorria de uma “Compressão”, uma falta de espaço no útero... e por fim, imaginar a dor narcísica que tal deformidade gerou nessa mulher.

“O encontro com a deficiência, principalmente com aquela que atinge a aparência do corpo, movimenta as bases da nossa existência como um espelho perturbador” (Pierre Fédida).

E, como não recordar Machado de Assis e Eugênia? “Linda... mas... era coxa”. “Tu, minha Eugênia, foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor” (Machado de Assis). A senhora no caso, não teria esse padrão estético, pois pertencia a outra faixa etária. “Uma árvore em flor fica despida no outono” (Dalai Lama).

O motorista, após acelerar o carro já estacionado, para maior alarde, abriu a segunda porta, e um par de botas em couro, com fivelas soltas e sujas, pelo que aparentava,
esterco de gado, atingiram o solo com o peso da falta de educação... um homem de compleição forte, de meia idade, desceu da caminhonete. Fechou com força a porta, e se dirigiu à recepcionista, que oferecia álcool e aferia a temperatura... ele relutante em colocar a máscara, mas, a jovem funcionária era tão bonitinha... que seus olhos a mediram de alto a baixo, para avaliar se valia a pena atender ao pedido.

“Nossas horas com amor tem asas, em sua ausência, muletas” (Miguel de Cervantes).

A senhora continuava a procurar segurança para sair do automóvel, que como agravante, era muito alto em relação ao piso, tornando mais incômoda a descida do banco. Nesse interim, a porta traseira se abriu, e botas marrons, de saltos altos e finos, deslizaram para o exterior. Pernas jovens, de uma mulher de vinte anos, que, com uma escova na mão, recolhia algum cabelo que o vento tirava da ordem, “beneficiada pela chapinha.” Evitou passar próximo da senhora, e circulou o carro posteriormente, até chegar ao restaurante. Em seguida, dirigiu-se à mesa onde o senhor a esperava. Solicitaram assistência do maître, para orientar a escolha da aguardente, produzida no galpão anexo. Durante todo este período, a pessoa esquecida se deslocou com muita lentidão, e pela expressão facial, com dor. O pé torto não tratado, pode evoluir com artrite.

“A imensa superioridade do corpo humano consiste porém na sensibilidade, que, se nem sempre comporta sensações reais, nunca deixa de ser condição delas” (Hegel).

O descaso observado, foi confirmado quando enfim, chegou à mesa. Duas muletas que não se conciliavam e que disputavam uma área com as pernas da mesa e das cadeiras... até que, um vizinho, gentilmente, se dispôs a ajudar. O senhor e a jovem sequer a viram! Ela estava totalmente transparente, e o olhar do homem atravessava sua figura e procurava outra mulher que entrava, com short jeans curtinho...

“O que antes de tudo, aos homens importa, é o que se refere aos seus próprios intuitos” (Hegel).

A conversa não a incluía, as risadas, menos ainda, um objeto como o porta guardanapos, seria mais notado... a exclusão da deficiência física começava em casa! A imperfeição incomodava a portadora, mas principalmente aos outros, porque exacerbava o interior sombrio e desumano dos seus acompanhantes.

O cardápio apresentava pratos individuais, e o dois prováveis familiares, dividiam as carnes, enquanto ela olhava abstraída a flor amarela no vaso.

“O vaso dá uma forma ao vazio e a música ao silêncio” (Georges Braque).

O rapaz que a acomodara no lugar, chamou a garçonete e pediu para atendê-la. Ao receber o menu e a atenção mínima que a fazia existir momentaneamente, esboçou um sorriso tímido e agradeceu. De acordo com o teor alcoólico, a euforia foi aumentando, o homem solto, inconveniente, falante... a jovem já bastante desinibida, repetindo os “copinhos de cana”, ficou de pé, ensaiando uns movimentos sensuais de dança...

“E bote tempo que eu não sei o que é sofrer, e bote tempo nisso que ninguém me quer” (Santanna).

Nesse instante, um olhar compassivo e amoroso, até com um viés de orgulho, foi direcionado para a jovem, vindo da senhora... era sua filha! Um amor maior que ultrapassava a ingratidão, a negação e o desprezo! “De tanto andar uma região que não figurava nos livros, acostumei-me às terras tenazes” (Pablo Neruda).

Em dado momento, a senhora manifestou através de gestos, o desejo de ir ao toalete, e empurrando a cadeira com as pernas de alumínio, tentou levantar, ao que o homem, pela primeira vez, voltou-se para ela e argumentou: “deixe para ir em casa, só vai atrapalhar as pessoas no caminho”. Ela calou e permaneceu imóvel.

“O silêncio é a mais perfeita expressão do desprezo” (George B. Shaw).

Na saída, a repetição egoísta da chegada. A jovem passou serpenteando entre as mesas dos rapazes, fez uma selfie, jogando os longos cabelos negros pelos ombros, e novamente evitou passar à frente do automóvel.

O senhor já meio desequilibrado, falou baixinho para a recepcionista, entregou um cartão e, em seguida, afirmou: “é a minha fazenda! Arrastou as botas na calçada, para retirar o excesso de resíduos, e demorar mais diante da constrangida moça, e com um impulso, entrou no carro.

A senhora seguiu devagar, com medo de cair, e ao passar pelo motorista, todas as pessoas presentes escutaram os gritos: “Anda mulher, carrega essa perna inútil logo, tenho que marcar o gado”...

“A vergonha é uma espécie de tristeza também, e que se origina da opinião ou do receio de sermos criticados” (Descartes).

A cena levou o rapaz solidário a balançar a cabeça de indignação, a recepcionista a respirar aliviada por livrar-se do assédio, os rapazes da mesa a disputarem o número do celular que a jovem passara, e a garçonete a apertar o bolso da farda e comemorar a “gorda gorjeta”. E a música continuou.

“Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?

Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?

A violência faz a ronda e escolhe a vítima.

E vocês dizem: “a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando. (Bertolt Brecht).

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  1. Queria tanto que não passasse apenas de ficção… Não sei se presenciasse algo assim me conteria.

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