No alto da montanha, uma copa majestosa e alongada, sobressai acima de todo o verde brejeiro, mas as curvas da Serra do Espinho, não propi...

O Ipê branco

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No alto da montanha, uma copa majestosa e alongada, sobressai acima de todo o verde brejeiro, mas as curvas da Serra do Espinho, não propiciam uma foto que faça jus à sua beleza! Único, exuberante, um tronco ereto serve de suporte, como um cálice, para uma floração branca e breve, que se propaga através de sementes, levadas pelo vento, pássaros e insetos, à uma distância desconhecida.

“As árvores estão sós.
Mas não o só da solidão: o só da solistência” (Guimarães Rosa).

O acaso escolheu esse local, uma maior proximidade do céu, para confundir os desavisados: não se sabe se as nuvens desceram para a árvore, ou se suas flores, em forma de trombetas, se tornaram nuvens...

A fotografia, mesmo “desfocada”, muda de categoria e simula uma pintura impressionista... a memória retorna ao Musée de L’Orangerie, onde os olhos se perderam diante das obras de Monet...

O registro dessa imagem faz rapidamente a associação perfeita, alguém que conhece todos os ipês brancos da cidade! E como são semelhantes, homem e árvore!

“Eu queria aprender o idioma das árvores. Saber das canções do vento nas folhas da tarde,
Eu queria apalpar os perfumes do sol” (Manoel de Barros).

Ele, como o ipê, tem cabelos brancos e fartos que recobrem sua cabeça rara, o caráter é sua força, o tronco, seu equilíbrio emocional, seus ramos são os braços que se renovam a cada estação, prontos para o trabalho, como se o tempo não interferisse na fragilidade humana.

Nome de santo, no filho do Senhor do Engenho, do qual herdou a paixão pela cultura, teve educação esmerada, sem privilégios, vida acadêmica austera e responsável. Um engenheiro com alma de arquiteto, sempre priorizando o meio ambiente.

“Nenhuma herança é tão rica quanto a honestidade” (Shakespeare).

Alguém para admirar e se espantar, conceito que encontramos na filosofia. Alguém sisudo, que tem um humor surpreendente. Alguém que não teme a vida nem a morte, na verdade, não tem disponibilidade interna para esses questionamentos. Alguém consciente do seu ser-no-mundo, não expectante mas participativo, que fez da sua vida, a linha de frente nos embates político-sociais. Lutou pela igualdade, pela distribuição de terras para os menos favorecidos, pela preservação da flora, contra a construção de espigões na orla, pelo respeito e cuidado com a fauna, com embasamento técnico, tentou que a verticalização não atingisse a área desprotegida do Altiplano, sofreu a cada erosão da Ponta do Seixas, com a construção da Estação Ciência, com a sobreposição dos interesses dos investidores, e mesmo de alguns políticos interessados no “crescimento da cidade”, a qualquer custo.

“Há homens que lutam um dia, e são bons,
Há homens que lutam muitos dias, e são muito bons,
Há homens que lutam muitos anos, e são melhores,
Mas há homens que lutam toda vida´
E são imprescindíveis” (Bertolt Brecht).

Desenvolveu o Plano Diretor nos anos 75 e 92, convidou técnicos de São Paulo, para compor sua equipe, uma referência ainda hoje nos cursos de engenharia e arquitetura, época de uma fiscalização ativa na construção civil, de uma paisagem urbana mais harmoniosa, de respeito às normas, tão diferente dos dias atuais!

“O valor das coisas depende de quem as possui, boas para os que sabem utilizá-las, são más para os que as empregam mal” (Montaigne).

Na sua última atuação em cargos públicos, criou o Viveiro de Plantas Nativas, um projeto inovador e de preservação das plantas originárias da região. Dedicou-se com paixão e afinco, no preparo de mudas para doação e para uso nas áreas comunitárias. Um trabalhador feliz, enquanto conscientizou as pessoas sobre não cultivar plantas exóticas, e no sonho de uma cidade mais verde.

“Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama” (Platão).

Com a Pandemia, resguardado em casa, mesmo vacinado, sua atividade é intensa. Debruçado na escrivaninha do seu gabinete, rodeado por uma biblioteca vasta, escreve um novo livro. Um computador de última geração, alinha os dois tempos, atualiza a tecnologia, um companheiro das horas de pesquisa... cuida de bebês-timbu, encontrados no quintal, órfãos e dependentes. Constrói na sua oficina, uma casinha de madeira, com aquecimento, para aninhar os pequenos... consulta o veterinário sobre a dieta específica e cumpre a rotina de alimentá-los, para tentar salvá-los e, posteriormente devolvê-los ao seu habitat natural...
esquece a idade e os riscos (afinal, eles existem?), e na escada, poda as plantas, colhe frutas... organiza um abrigo seguro para os saguis visitantes... cuida dos ninhos, para que nada os ameace... decide aprender a cozinhar para dividir as tarefas culinárias, o que faz cantarolando... caminha diariamente circulando a casa, nos limites do seu terreno, até que atinja suas metas de tempo x velocidade... conserta tudo que necessita, sem precisar sair de casa... emassa paredes, prepara uma composteira... executa molduras para telas da esposa, e peças de madeira para instalações do filho, artista plástico... enfim, não existe tempo perdido e triste, porque tira real prazer de tudo que faz.

“Uma vida sem desafios, não vale a pena ser vivida” (Sócrates).

Que sua existência seja longa, que suas sementes se espalhem à distância, que suas flores marquem a memória de todos que convivem com Antônio Augusto. Que do alto de sua sabedoria, seja luz para os que sonham com um mundo mais humano, mais justo, onde o bem comum seja a melhor luta e a maior ambição.

“Não há florestas de ipês. Há ipês nas florestas. No ipê a flor é frágil e passageira. O tronco é sólido e resistente. O tronco é a alma. A flor, a palavra” (Pe. João Batista Zecchi).


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  1. Desculpe não referendar o autor, Dr. Antonio Augusto de Almeida, excelente obra !!!
    E também, seu direcionamento
    Doutora Marluce Castor !!!
    O tema me fascina, desculpem !!!

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  2. Linda homenagem poética, no melhor estilo Marluce Castor. O homenageado Antonio Augusto é tudo isso, e mais ainda. Acompanhei a saga dos timbuzinhos: morri de inveja dele.
    Ao ler esta obra tambem me senti homenageado, pois só amante apaixonado da Natureza. O ipê tambem é, para mim, a mais bela das árvores. Principalmente o ipê amarelo.
    Belíssimo texto. Parodiando Ana Adelaide, digo: "Eu tambem quero uma cunhada dessas!"
    Parabens, Dra. Marluce!

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