Viver é caminho sem volta. Cada momento, cada dia. Toda conversa com amigos no bar é infinita. As grandes e as pequenas emoções vividas. T...

Quando sonhar não basta

literatura paraibana lau siqueira digressoes reflexoes amor maturidade sabedoria verdades desencontros
Viver é caminho sem volta. Cada momento, cada dia. Toda conversa com amigos no bar é infinita. As grandes e as pequenas emoções vividas. Tudo parece banal, mas não é. Nunca mais aquele momento irá se repetir. Parece óbvio, mas também parece óbvio que as pessoas desprezam o óbvio e pagam caro por isso. Do que se apresenta como desprezível ao que há de mais relevante, o tempo não perdoa. A vida vai nos engolindo aos poucos e se formos indigestos, vomita nossos sonhos um por um.

Enquanto comíamos pipoca ontem na casa da minha filha, lembrava das razões que a própria razão desconhece. Nada é absoluto, mas viver é aqui e agora. O resto é passado e futuro. Parecia só uma mastigação coletiva,
mas estávamos cobertos por um amor inabalável. Aquele amor que não se mede nem se repete. Apenas eu, minha filha, minha neta e meu neto recostados comendo pipocas. Tudo pulsava tão comum, mas aconteceu ontem e hoje já estou com saudades.

Pouco paramos para pensar sobre pequenos atos. Mas, nada passará impune. Não será expelido da minha memória o êxtase numa meditação com uma iogue indiana em 1979, em Porto Alegre. Jamais se perderá a sensação de pássaro quando no dia 6 de fevereiro de 1986, a médica colocou nos meus braços a minha primogênita. Também não esqueço o dia 9 de maio de 2017. Numa maternidade de Boa Vista esta mesma primeira filha paria meu segundo neto. Do outro lado da avenida, esperava tomando sucessivos cafés e tequilas, no extinto Café Colômbia.

O que mais importa na estruturação da nossa personalidade é o respeito para com a delicadeza. Coisas das quais podemos até fugir, mas que nunca nos abandonarão. Não esqueço quando anos atrás encontrei uma jovem amiga nas ruas de João Pessoa. “Estou indo conhecer meu pai”, disse. “Que coisa boa”, respondi. E logo perguntei: “mas onde ele morava?”. “Morava aqui mesmo, em João Pessoa”. Fiquei chocado. A moça tinha vinte anos. Nunca havia encontrado o pai que morava na mesma cidade. Ele perdeu vinte anos da própria vida e anulou nela um sentimento irrecuperável.

Vivo cercado de memórias. Boas e ruins. As memórias dos meus próprios erros, dos aprendizados colhidos na moenda dos dias. As dores profundas e as perdas que nunca fizeram falta. Costumo dizer aos amigos que me orgulho dos meus erros. Mais que dos poucos acertos. Meus erros não me envergonham.
Aqui e ali penso que algumas coisas poderiam ter outro rumo. Por exemplo, sempre fui péssimo no manejo com dinheiro. Sempre fiz o que me dizia Rita Lee: “gasto tudo que tenho pelo prazer de sonhar”.

Conheci pessoas importantes sem projeção e celebridades sem valor algum. Pessoas talentosas na miséria e oportunistas patológicos vivendo do talento alheio. Pensei um dia ser revolucionário e entrei para o partido comunista. Até receber as teses do congresso partidário para discussão, já impressas em livro. Nada seria discutido. Estava tudo consumado e eu já não acreditava no que chamavam de socialismo real e, especialmente, no realismo socialista. Um gênero da literatura que não nos ofereceu mais que um belo romance: “A mãe”, de Máximo Gorki.

Vivi entre trombadas e desencontros. Sempre com mais dúvidas que convicções. Preferi acreditar nas incertezas, ainda assim tombei feio tantas vezes. Aprendi a combater por dentro as minhas qualidades e lapidar as imperfeições. Revolução é aqui e agora. Aprendi que esta é uma luta que não tem fim. Todos os dias nascemos um pouco. Todos os dias fechamos e abrimos portas. Derrubamos muros aos murros e plantamos coisas muitas vezes colhidas pela tempestade.

Com os pés fincados na maturidade, me sinto menino. Gosto do gosto de aprender. Leio com atenção os gregos, mas também escuto as verdades do rapaz que trabalha na zeladoria do meu prédio. Acho que o defeito de muitos intelectuais é acreditar que não há vida inteligente fora dos livros. Certamente não conheceram o campesino Mariano Belarmino. Um analfabeto que memorizava versos inteiros e que pronunciava palavras como “derradeiro”. Palavras lindas da nossa Língua Portuguesa, mas que estão distantes dos modismos acadêmicos.

Cada dia passado é uma Lua subtraída. Também é dia para a contabilidade dos ganhos nesta vida irreparável. Aprendi a respeitar meus sonhos. Mesmo os impossíveis. Aprendi que o amor não se recolhe e se prende, mas se espalha, se liberta, se solta no mundo a cada manhã. Cada dia é uma colheita de novas emoções. As tristezas sempre chegam, é verdade. Mas também é verdade que se vão e nos deixam mais densos e intensos. A escolha de ser rijo ou suave é que permite melhorar o destino. Plantar hortênsias nas margens do caminho. Colher os frutos e extrair o melhor sumo. Na razão das abelhas e dos invisíveis deste mundo brutal. Eu vou.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO
SUA PARTICIPAÇÃO É IMPORTANTE. COMENTE!

leia também