Lindas lembranças que têm se assenhorado de minhas noites — e possivelmente do “inconsciente” aliado à minha percepção — me fazem exalta...

Em busca da minha infância recifense, linda e finda

nostalgia infância programa auditório
Lindas lembranças que têm se assenhorado de minhas noites — e possivelmente do “inconsciente” aliado à minha percepção — me fazem exaltar o feliz momento, sabendo que daqui para frente a vida me regateará menos tempo. Passo a valorizar o que ainda pode me restar de felicidade em minha adormecida memória. Imagens esquecidas em profusão levam-me ao Recife, e a um tempo ímpar que lá vivi. Retorno à ruas da Aurora, do Imperador e da Imperatriz, com todos os seus cafés e sorveterias. Vou até a Viana Leal, com a sua icônica escada rolante, e também vejo a Sloper, tão reverenciada por minha mãe.

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Fachada da Casa Viana Leal, decorada para o Natal ▪ 1960sRev. Negócios
Vejo-me dentro do elegante Gemba, com seus pudins-de-leite e a presença de meus pais e de minha irmã Sandra. Juntos admiramos a sorridente movimentação do passado. As imagens que me afloraram do centro do Recife são muito vivas. Retornam-me a alegria da infância.

Imagens que me descortinam um tempo extraordinário em que eu vivi naquela Recife, na Rua Bernardo Guimarães, sombreada por lindos e frondosos oitis.

Da Rua da Aurora, lembro dos seus cafés e sorveterias. Distingo as minhas andanças no Savoy e na Botijinha, lugares frequentados ao entardecer pelas elegantes famílias recifenses. Ali estava a conveniência Sertã, exalando o sabor dos salgadinhos e sanduíches finamente apresentados. Eu e a minha irmã nos deliciávamos entre goles prolongados de Ice Cream Soda com sorvetes. A bebida era uma herança dos americanos no pós-Guerra. O fino e elegante Restaurante Leite compunha igualmente o décor da minha infância.

Os cavalheiros, à tardinha, adentravam em ternos de tropical inglês e de linho branco, com seus chapéus de massa. Suas impecáveis senhoras os saudavam com vistosos e coloridos vestidos de tafetá. Rostos finamente maquiados com rouge e chamativos batons importados da Renée Coty eram todos personagens míticas do filme Casablanca.
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Edifício onde funcionou a sorveteria Gemba, na Rua da Aurora, próximo ao Cine S. LuizAlphabet
Exalavam no ar os perfumes inebriantes de Fleurs de Rocaille, de Caron (1934) e Ma Griffe de Carven (1946). Lembro-me de minha mãe sentada numa mesa, ao fundo do Gemba*, a aguardar pacientemente meu pai chegando "todo de branco, como se estivesse envolvido na sua própria alma”, como diria Ascenso Ferreira. Corríamos sempre para abraçá-lo. As imagens me são reeditadas com linda e colorida precisão. Circunspecta, silenciosa e educada, minha mãe sempre chamava atenção por sua rara beleza.

Invade-me a boca o sabor do pudim do Gemba. Agradava-me observar o seu tom caramelado. Sob os insistentes cuidados de minha mãe, levava pequenas colheradas à boca, evitando sujar minha sempre linda roupa azul marinho.

Percorria sempre com o olhar vagueando pelo teto os detalhes do pé direito e da madeira finamente trabalhada. Atraía-me o décor das luminárias francesas sempre acesas. Os garçons em seus impecáveis ternos brancos deslizavam com destreza por entre as mesas, céleres e atenciosos ao menor dos sinais. O Gemba ficava num belo casarão às margens do Capibaribe.

Lento e prazeroso é o caminhar evocado pela memória do set artístico da Rádio Jornal do Commércio, de seus programas de auditório onde reinava Fernando Castelão. Ecoam ainda nos meus ouvidos os sons da minha feliz infância. Nunca esqueceria o meu primeiro programa de auditório, sempre com meu terno azul.

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"Você faz o show" ▪ programa de auditório transmitido pela Rádio e TV Jornal do Commércio, apresentado por Fernando Castelão ▪ fonte: O Explorador
Minha infância teve sabor de bom-bocado, açúcar cândido e, sobretudo, de pudim-de-leite. Aprendi que uma infância mesclada de caramelo era condição inequívoca para não enraizar um presente cheio de frustrações e de medos. Nunca invejei o chocolate dos outros, porque sempre os tivera. Ao contrário. Desde cedo, aprendi com meu pai atitudes de extrema generosidade. Dividia meu cristalino açúcar, cândido, e o distribuia com a garotada da minha Rua Bernardo Guimarães. A rua dos meus oitis.

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Recife ▪ Vista aérea do bairro da Boa Vista ▪ 1950s ▪ Fonte: IBGE
Ao de novo sonhar, espero que eles nunca me abandonem, e que continuem me fazendo reviver, em frações de minutos, décadas arquivadas e mantidas adormecidas numa esplendorosa e feliz memória da infância. Reverenciando sempre o Recife dos intelectuais boêmios de Antônio Maria, onde Ascenso Ferreira era o dono da noite, admoestado de madrugada pelos amigos, saindo vindo da casa das primas do porto do Recife Velho: "Vai pra casa, Ascenso! Isto é hora de tá nas ruas?!". Lembro-me de Carlos Penna Filho, que brindava em sua leveza poética, cercado de “trinta copos de chop, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados...”, no inesquecível Savoy.

Sonhos e infância felizes são como “bons-bocados” inesquecíveis.
* Gemba é uma palavra de origem japonesa que significa o "verdadeiro lugar".

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