Na manhã de sol ofuscado por nuvens escuras que sinalizavam o veranico de janeiro sobre a cidade de Alagoa Nova, Gonzaga e eu sentamos ...

Ave, Avelima!

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Na manhã de sol ofuscado por nuvens escuras que sinalizavam o veranico de janeiro sobre a cidade de Alagoa Nova, Gonzaga e eu sentamos na praça, enquanto Antônio David buscava ângulos diferentes para registrar cenas do cotidiano da cidade, sobretudo no entorno da igreja.

A manhã ia longe, corria vento com cara de outono, o cheiro das flores na praça e os verdes dos canaviais misturavam-se com os pios dos pássaros que ouvíamos e reouvíamos. Havia sombra de nuvens e de árvores. A cidade era lastro de sossego, com seu frescor.

Nessa ocasião, Gonzaga falou do conterrâneo Luiz Avelima que, como ele, deixou a cidade em busca de sonhos construídos pela poesia, com destino às redações de jornais.

UBE-PB
Alagoa Nova é uma cidade que anda comigo desde quando me embrenhava pelos livros, e a descobri prodigiosa na produção dos homens de letras, com vitórias nos escrutínios da vida, na política e nas artes. Terra de imortais. Chegou a ter três nomes integrando, ao mesmo tempo, os quadros da Academia Paraibana de Letras.

Gonzaga Rodrigues, estimado cronista, ali nasceu e carrega consigo a poesia telúrica da paisagem da infância. Igualmente, Carlos Romero, outro poeta da crônica, andarilho pelos quatro cantos do mundo, nunca esqueceu da terra onde pisou no tempo de criança. Do mesmo modo é Wills Leal, pois saiu dali contaminado pelo cinema.

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Outros nomes, também afeitos às letras e às artes, ocuparam espaço na Academia, como Pedro Gondim e Samuel Duarte, que se destacaram, de maneira semelhante, na política nacional.

Na manhã de vento preguiçoso e nuvens lentas a passear pelo céu do Brejo, meu olhar circulava ao redor da praça para catar a paisagem revelada pelos amigos cronistas, cúmplices da minha escolha pelo gênero. É na crônica que consigo expressar o que pela poesia não alcanço dizer.

Eudes Barros chegou a mim como poeta esquecido. Eu o conheci pelas descrições de Ascendino Leite. E foi Carlos Romero, seu irmão, quem incorporou os acréscimos à imagem do poeta, igualmente portador do olhar telúrico emanado da região brejeira. Eudes não integrou a galeria dos luminares da Casa de Coriolano de Medeiros porque o tempo consumiu seus anseios de homem dedicado ao jornalismo e à literatura.

Quando chegou nesta capital, no início da década trinta, do século passado, carregava sonhos típicos de adolescente. Ascendino queria um emprego no Jornal O Norte, do qual Eudes era editor, e foi falar com ele numa folga das aulas do Liceu Paraibano

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Homem afável, como descreveu o autor de O Brasileiro, apiedou-se do jovem que implorava espaço para as aptidões de repórter.

– Era uma manhã, por volta das dez horas. Ele estava deitado sobre resmas de papel, nas oficinas do jornal que, em 1932, ficava na Rua Cardoso Vieira. Disse-lhe o que queria e, depois de olhar-me por um instante, fez algumas perguntas, e mandou retornar na manhã seguinte.

Eudes Barros se destacou como poeta, olhava para a infância em Alagoa Nova, como fez no livro Cânticos da Terra Jovem, lançado em 1928, no qual descreve a paz da infância de um menino que andava com baleeira e bisaco com bolinhas de barro vermelho. Livro que pede reedição.

Alagoa Nova também produziu o múltiplo Luiz Avelima, que passeia pelas artes com desenvoltura, seja como poeta, tradutor de Dostoiévski, compositor, cantor ou ativista cultural. Militante político, sempre teve a mão estendida às causas sociais.

Naquela manhã de sol, de uma visita sem pressa, percorremos os caminhos do Engenho São Geraldo, lugar de emoções para Gonzaga. Caminhos que Avelima conhece, para onde retornou trazendo a glória dos palcos e das letras que São Paulo guardou para ele.

A. David Diniz
Foi por conta de Gonzaga, Carlos Romero, Wills e Avelima, que têm vasto apreço pela cidade, que fiquei de rabicho pelo lugar, sem nunca esbarrar de querer.

Depois da entrevista dele, que escutei no canal no Artes Brasilis, na internet, ainda mais cresceu a admiração por este alagoa-grandense. Ele expôs seu carinho pela terra onde nasceu e pelos frutos que brotam do lugar. Ave, Avelima!

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