Lá na Serra do Teixeira, cariri paraibano, está o palco dessa história, a cidade de Princesa Isabel, onde nos idos de 1930, o C...

Tozinho, o faz tudo

conto humor faz tudo piada
Lá na Serra do Teixeira, cariri paraibano, está o palco dessa história, a cidade de Princesa Isabel, onde nos idos de 1930, o Coronel José Pereira, chefão da política naquelas brenhas de mundo, como retaliação ao governo da província, diante de sua briga com o mandachuva João Pessoa, declarou que aquela localidade dali em diante iria ser “Território Livre de Princesa”. Princesa continuaria brasileira, mas apartada da Paraíba.

O que aconteceu depois daquele 28 de fevereiro não é importante para o que vou rabiscar nas linhas seguintes. Só fiz essa leve alusão a um fato ligado à “Revolta de Princesa”, para dizer aqui que o mais notável princesense não foi o valente Zé Pereira, mas sim Tozinho.

Saile Campos
Quem? Tozinho. Vou contar quem foi Tozinho. Cidadão comum, sertanejo, não era ligado às oligarquias, nem aos poderes de quaisquer esferas, nem fora soldado na tropa de Zé Pereira. Tozinho viveu mais para cá nos tempos, nem por isso menos importante do que o marrento coronel.

Agora vejam vocês, a fama desse nosso ilustre personagem (Tozinho, e não Zé Pereira) não consta dos manuais de história, mas chegou até nós ao jeito dos heróis de Homero, pela boca do povo. E vocês sabem como é essa tal de boca do povo. Chega onde menos esperamos e os feitos de Tozinho ganharam vida aqui no bar de Dona Chiquinha, ali na cidade velha, no beco chamado Padre Malagrida. Lá desse botequim alguém me trouxe o enredo.

O pároco que rezava suas missas na Igreja do Bom Conselho, a principal de Princesa, que sempre em suas orações tentava falar com Deus, um dia foi conversar pessoalmente com Ele e os fiéis carpiram com muita tristeza aquele passamento. Não tardou chegar um novo pastor para aquelas almas que se viram sem a proteção lá de cima. Quem recebeu o novo padre foi Dona Carminha, beata fervorosa e que gostou muito de ver o novo religioso tão animado.

Hammer
A primeira atitude que o recém chegado sacerdote tomou foi consertar o relógio matriz que estava em petição de miséria, e perguntou à Dona Carminha quem poderia fazer o serviço.

— Aqui quem pode dar um jeito nesse relógio é o Tozinho.

O reverendo mandou chamar Tozinho que chegou todo prestativo.

— Deixa comigo, padre.

No outro dia o relógio estava com seus ponteiros bem regulados e marcando as horas sem atraso. Preciso que só. Mas havia outra coisa que necessitava de reparos: um jeep 51 que há anos fora deixado ao tempo. Dona Carminha veio em socorro.

— Aqui quem pode dar um jeito nesse jeep é o Tozinho.

O padre o chamou e meia hora depois Tozinho apareceu para atender aos reclamos daquele homem de Deus.

— Deixa comigo, padre.

Nem preciso dizer que uma semana depois, aquele monte de ferros e parafusos estava tinindo em folha. O padre deu a partida e o bicho (estou falando do jeep) pegou na hora. Tozinho ficou com o moral nas alturas e ganhou a confiança do sacerdote.

Sara Torda
Todo mundo sabe que missa sem cantoria não é missa de respeito. E cantar sem um instrumental orientando as vozes fica difícil. Dona Noquinha, pianista renomada de Princesa, estava acamada com reumatismo, cobreiro e unha encravada. Tudo de uma vez só. Tocar piano, nem pensar. E o pior, o piano estava desafinado.

— Vamos primeiro afinar essa coisa – decidiu o vigário – mas quem pode fazer a afinação, Dona Carminha?

— Acho que aqui quem pode dar um jeito nessa coisa é o Tozinho – informou a beata que logo chamou o faz tudo da cidade,

— Deixa comigo, padre.

O padre deixou. Tozinho trouxe o diapasão, um martelinho apropriado e depois de uma tarde na labuta o piano estava afinado de fazer gosto. Só que quem iria tocar? Dona Noquinha estava de fazer dó. Então, Dona Carminha olhou para o padre, o padre olhou para Dona Carminha quando ouviram a voz de Tozinho.

— Deixa comigo, padre.

Afinal, Tozinho estava com o moral lá em cima, ou não estava? O padre confiou.

Na hora da missa nosso amigo apareceu de gravata borboleta, todo pimpão. Chegada a hora, o coro da igreja se aprumou para a Ave Maria, foi quando Tozinho enfiou a mão no teclado e aconteceu aquele desastre. O que era aquilo? Música não era. Quem teria colocado na cabeça dele que o próprio era pianista? Os fiéis caíram na risada, O padre também. Só Dona Carminha aplaudiu o amigo charlatão e ainda fez seu elogio.

— Parece um “Betovi”.

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