As paisagens de minha terra sempre retornam no reencontro de amigos ou quando descubro uma antiga fotografia, mesmo desbotada, que remo...

O amigo de infância

As paisagens de minha terra sempre retornam no reencontro de amigos ou quando descubro uma antiga fotografia, mesmo desbotada, que remonta à época da minha infância.

Desta vez, não foi a fotografia que busquei guardada no baú, mas o reencontro com um amigo de infância, afastado pela pandemia, que me trouxe o passado de seis décadas como se as imagens fossem atuais.

Chegava em Serraria ansioso para rever o amigo. A casa de Roberto Bernardino fica nos arredores da cidade, um passo a mais da ponta da rua, de onde se observa uma das belas paisagens do lugar, semelhante
Serraria (PB)@serraria.a.sao.paulo
a residência de outro Roberto, igualmente ex-prefeito, Roberto Guedes Cavalcanti, ali perto. De ambas residências avistamos o vasto mundo em torno de Serraria até onde a vista alcança, de rara beleza em demanda de Areia ou Arara, seja no amanhecer ou observando as nuvens ao pôr do sol.

No silêncio que o lugar proporciona, debaixo de uma centenária jaqueira, rodeado de palmeiras e uma vegetação que cobre os declives em redor de sua casa, com borregos e ovelhas pastando no entorno, galos em cantar persistente, Roberto nos recebeu na manhã ensolarada. Mal começávamos a palestrar, recordando amenidades, o pavão exibe-se para nós com sua calda içada, de beleza sem igual. Enquanto canários da terra e tizius cantavam nas árvores por perto, colocamos em dia as conversas atrasadas.

Mais que de repente, inesperadamente, como que a defender seu território, vem desembestado a nosso encontro o carneiro branco com listra preta no pescoço, chifres longos dobrados para baixo, pronto para nos dar marradas. Ao grito do dono, o animal parou. “Não se movam nem corram”, disse. Parece coisa de vaqueiro, mas é verdade, carneiro consegue derrubar um boi, avalie uma pessoa da nossa estatura.

Serraria (PB)@serraria.a.sao.paulo
Roberto Bernardino é desses colegas que nos abraçam, e revela sinceridade. Nossa amizade nasceu quando, juntos, começamos a aprender as primeiras letras no salão que papai mandou construir junto da casa de minha avó, no sítio onde nasci. Sua irmã Salete era a professora, a dedicada professora que nos ensinou, primeiro, as vogais e depois o alfabeto completo. Paciente, pegava na minha mão para ensinar a cobrir as letras, dava noções sobre os números de 1 até 10, e depois todo o Algarismo.

Saímos dessa escola rural para o Grupo Escola Francisco Duarte, em Serraria, com conhecimento das letras do alfabeto. No grupo escolar aonde Roberto e eu passamos a estudar, nossos primos, parentes e aderentes, todos os dias estávamos a escutar as orientações de dona Eterna Carvalho, a diretora da Escola, sempre com conselhos para que tivéssemos bons modos.

Igreja Sagrado Coração de Jesus - Serraria (PB) @serraria.a.sao.paulo
Fomos catequizados e juntos recebemos a primeira comunhão na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, numa manhã ensolarada de domingo.

A jaqueira frondosa, com larga sombra, cedeu espaço para nossa conversa. Uma conversa que descambou, como sempre, para a paisagem da infância. Seu pai, meu padrinho Chico Neco, me acolhia e abençoava com elevado carinho e eu retribuía com admiração e estima pelo que ele representava para mim, como um pai adotivo que o Batismo proporciona. Ele sempre tinha um agrado, que eu guardava no bolso da calça como uma reserva de poupança. Uma liderança anônima que somente não foi prefeito de Serraria porque que pouca sabia ler e escrever. Seu filho, como que orientado pelos deuses, cedo ingressou na política, vereador mais de uma vez e duas ocasiões prefeito, e a esposa Lourdinha, uma vez administrou a cidade. Ele, atualmente, está no segundo mandato de vice-prefeito, coroando os cinquenta anos, atuando na política em Serraria.

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