Flaubert disse, em um trecho de sua correspondência com sua namorada, a poetisa Louise Colet: “Não é nada fácil ser simples.” Complicar...

Por que complicar é fácil e simplificar é difícil?

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Flaubert disse, em um trecho de sua correspondência com sua namorada, a poetisa Louise Colet: “Não é nada fácil ser simples.” Complicar é mais fácil porque acompanha o fluxo natural da mente: pensar demais, seguir devaneios, florear, criar justificativas e abrir desvios que se acumulam como camadas de poeira.

Em sua coluna da última terça-feira Glauco Morais pede a compreensão do pessoense para as mudanças que o “salto de desenvolvimento” v...

O salto de desenvolvimento

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Em sua coluna da última terça-feira Glauco Morais pede a compreensão do pessoense para as mudanças que o “salto de desenvolvimento” vem impondo, nos últimos vinte anos, sobre a paisagem física e o nosso comportamento.

E sendo moço e de boa saúde escreve com justificável otimismo:

Vou-me despedindo da leitura de O Nariz do Morto , no qual o escritor e crítico literário Antônio Carlos Villaça narra suas frustraçõ...

Tudo é Penha na Penha: o que testemunhou a Virgem em 262 anos?

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Vou-me despedindo da leitura de O Nariz do Morto, no qual o escritor e crítico literário Antônio Carlos Villaça narra suas frustrações vocacionais — primeiro como noviço beneditino, depois como religioso dominicano e, por fim, como padre secular. Conheci Villaça e O Nariz graças a Francisco Gil Messias, que dedicou à obra uma excelente

A infância começa com o renascimento do Espírito no corpo físico, constituindo o período de desenvolvimento da personalidade e de execu...

A infância: algumas anotações espíritas

A infância começa com o renascimento do Espírito no corpo físico, constituindo o período de desenvolvimento da personalidade e de execução do que foi estabelecido no planejamento reencarnatório: “Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo.”1

Neste começo de outono penso em você. A cidade está coberta de folhas douradas, marrons e alaranjadas. Um tapete orgânico sobre o duro...

O tempo, Sofia. O tempo.

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Neste começo de outono penso em você. A cidade está coberta de folhas douradas, marrons e alaranjadas. Um tapete orgânico sobre o duro asfalto. Depois haverá o frio. Quando chegar o calor e as primeiras floradas, você virá. E será como se sempre tivesse estado aqui. A sua presença encherá a casa, ocupará os móveis, se derramará pelos cômodos. Você vai ser a flor no vaso, o rastro de luz se infiltrando entre as cortinas da sala, zumbido de abelha, página de livro e nota musical.

“Os historiadores dos corações e das almas têm deveres menores que os historiadores dos fatos exteriores? Alguém acredita que Alighi...

Visões da Ilíada, em Os miseráveis

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“Os historiadores dos corações e das almas têm deveres menores que os historiadores dos fatos exteriores? Alguém acredita que Alighieri tenha menos coisas a dizer que Maquiavel? O sopé da civilização, por ser mais profundo e mais sombrio, é menos importante que o cume? Conhece-se bem a montanha quando não se conhece a caverna?”

Estávamos conversando sobre as peculiaridades do Brasil. O senhor K. citou o personagem Jerônimo, do romance O Cortiço, que deixou de ...

O Brasil não perdoa

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Estávamos conversando sobre as peculiaridades do Brasil. O senhor K. citou o personagem Jerônimo, do romance O Cortiço, que deixou de ser um trabalhador português exemplar e um excelente pai de família depois que conheceu a música brasileira, a nossa cachaça e, principalmente, a Rita Baiana. Terminou por envolver-se num assassinato.

Um dia, sem avisar, a vida mostra seu lado mais negro, tritura o coração e deixa que ele seja visto como uma poeira frágil e fugaz.

Poeira da Vida

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Um dia, sem avisar, a vida mostra seu lado mais negro, tritura o coração e deixa que ele seja visto como uma poeira frágil e fugaz.

Vou tratá-lo por João, nome que ele não tem no registro de nascimento. Já era homem feito quando eu ingressava na adolescência. Alto, a...

Dizer ''trinta-e-três''

cebolinha gibi medico miguel nicolelis
Vou tratá-lo por João, nome que ele não tem no registro de nascimento. Já era homem feito quando eu ingressava na adolescência. Alto, atlético e bonito, chamava, naquele tempo, a atenção do público feminino por onde andasse. Sei de mocinhas apaixonadíssimas e de algumas disputas, quase aos tabefes, por aquele suposto coração de pedra. A muitas esse camarada parecia tão belo quanto desdenhoso, indiferente, seletivo.

Em sua obra clássica O Processo Civilizador (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897–1990) argumenta que as sociedades ociden...

Dinâmica da descivilização

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Em sua obra clássica O Processo Civilizador (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897–1990) argumenta que as sociedades ocidentais passaram, ao longo de séculos, por transformações graduais que envolveram uma crescente regulação dos impulsos, um refinamento das maneiras e a monopolização da violência — seja individual ou institucional — pelo Estado. Contudo, Elias evidencia que tal processo não é linear nem contínuo; ao contrário, é historicamente contingente, podendo apresentar avanços e regressões. Assim como há tendências civilizadoras, existem também processos descivilizadores, caracterizados pela reemergência da brutalidade e pela supressão institucional dos mecanismos que regulam o comportamento humano.

Aqueles que buscam a vida e a sabedoria mais elevada, que procuram vivenciar o saber de acordo com seus princípios intelectuais e espir...

A busca da sabedoria e a inveja dos medíocres

arrogancia inveja firmeza personalidade

Aqueles que buscam a vida e a sabedoria mais elevada, que procuram vivenciar o saber de acordo com seus princípios intelectuais e espirituais, devem estar preparados para serem maculados, ridicularizados e condenados.

Vivemos na era da rápida informação, na qual se pode dizer ou publicar qualquer coisa com apenas um clique. Basta criar uma conta, faz...

Saúde e ciência na era das falsas curas

Vivemos na era da rápida informação, na qual se pode dizer ou publicar qualquer coisa com apenas um clique. Basta criar uma conta, fazer um vídeo ou uma postagem, publicar e... voilà! Em poucos segundos, as visualizações começam a surgir. E isso, de certa forma, passou a ser um grande problema, principalmente quando a veracidade dos fatos nem sempre pode ser comprovada.

A filosofia, enquanto disciplina reflexiva, busca entender as questões fundamentais da existência, do conhecimento, da moralidade e d...

Filosofia como base para reflexão crítica

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A filosofia, enquanto disciplina reflexiva, busca entender as questões fundamentais da existência, do conhecimento, da moralidade e da realidade. Através da análise crítica e do raciocínio lógico, os filósofos se debruçam sobre dilemas que têm acompanhado a humanidade ao longo dos séculos. A indagação sobre a natureza do ser, por exemplo, tem sido uma constante

Não são tão fáceis de serem vistos como em tempos passados: os bilhetes da Loteria Federal. A moçadinha — os mais jovens — provavelment...

Bilhete corrido e essa minha solidão

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Não são tão fáceis de serem vistos como em tempos passados: os bilhetes da Loteria Federal. A moçadinha — os mais jovens — provavelmente não conhecem essa modalidade de aposta. Ao que me consta, foi nosso Dom Pedro II que, em 1844, resolveu por ordem no pedaço e regulamentou uma modalidade de jogatina que já existia, mas não oficialmente. Com a chegada da República, o governo deu um jeito de abocanhar sua parte e a arrecadação obtida nas apostas dessas loterias começou a fazer parte do orçamento federal.

O sofrimento é altamente curativo! Tal afirmação não é uma apologia à dor ou ao sofrimento. Trata-se de entender que o sofrer faz par...

O sofrimento é altamente curativo

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O sofrimento é altamente curativo! Tal afirmação não é uma apologia à dor ou ao sofrimento. Trata-se de entender que o sofrer faz parte da vida e, assim, não deve ser negado. Quando acolhido e digerido, ele promove o amadurecimento psicológico.

Frustrações causam sofrimento, pois, através delas, as ilusões e as fantasias são perdidas. Além disso, elas são imprescindíveis para o crescimento pessoal e para a constituição da nossa subjetividade.

Lentamente ela caminhava como se o coração fosse maior que o corpo. Alheada do mundo. Caída numa bússola, de agulha quebrada. Volta e ...

Deu(s) de si

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Lentamente ela caminhava como se o coração fosse maior que o corpo. Alheada do mundo. Caída numa bússola, de agulha quebrada. Volta e meia esmagava as próprias veias. Dor, tosse, dizia “trinta e três” e nem o tango argentino poderia salvá-la. Mesmo moribunda, seguiu. Vitórias em cima de si mesma. Preferiu abdicar do individualismo; contentou-se com a individualidade. Sempre lutava pelos direitos de todos,

Na literatura de José Lins do Rego sentimos todos os cheiros possíveis de um ambiente de engenho, dos banguês sendo preparados ao mel c...

O cheiro da cachaça

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Na literatura de José Lins do Rego sentimos todos os cheiros possíveis de um ambiente de engenho, dos banguês sendo preparados ao mel cozido em tachos quentes, menos o cheiro da cachaça. Cheiro bom, que fica no ar durante muito tempo. Esse aroma da cachaça quente saindo do alambique, odor incomparável, anda comigo.

Jean-Paul Sartre (1905–1980) e Albert Camus (1913–1960) figuram entre os pensadores mais influentes do século XX, não apenas pela produ...

Sartre e Camus, ainda vivos na Era das Redes

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Jean-Paul Sartre (1905–1980) e Albert Camus (1913–1960) figuram entre os pensadores mais influentes do século XX, não apenas pela produção literária e filosófica que legaram, mas pela intensidade intelectual com que enfrentaram as crises políticas, morais e existenciais de seu tempo.

Alguém já disse que a cama é um móvel metafísico, pois nela o indivíduo nasce...

Devaneios sobre a cama

sono cama vigilia sonho devaneio
Alguém já disse que a cama é um móvel metafísico, pois nela o indivíduo nasce, ama e morre. Vejo-a mais como um móvel físico, em que a gente dorme para aliviar os incômodos do corpo.

Eventualmente nos deparamos com uma ponte em nosso caminho, mas não uma dessas imponentes, de concreto e aço, mas sim uma ponte simples...

Cruzar para o desconhecido

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Eventualmente nos deparamos com uma ponte em nosso caminho, mas não uma dessas imponentes, de concreto e aço, mas sim uma ponte simples, de madeira, que liga alguma margem conhecida à outra, envolta em névoa matinal.

É esse o título do mais novo livro da escritora tão jovem e tão consagrada, Aline Bei . Já havia me encantado com os seus dois romances...

''Uma delicada coleção de ausências''

delicada coleção de ausencias aline bei
É esse o título do mais novo livro da escritora tão jovem e tão consagrada, Aline Bei. Já havia me encantado com os seus dois romances anteriores: O peso do pássaro morto e Pequena coreografia do adeus. A capa já tem uma aquarela de duas flores vermelhas e um título que dança. Dança? Mas esse não era o título do segundo livro? Sim. Tudo se interliga de uma certa maneira. Essa coleção. Essa delicadeza. Essas ausências.

Com esse recente Passeante (Editora Ideia, João Pessoa, 2025), o poeta Ed Porto chega ao seu 21º livro de poemas. Não é pouco. E re...

O mais novo passeio poético de Ed Porto

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Com esse recente Passeante (Editora Ideia, João Pessoa, 2025), o poeta Ed Porto chega ao seu 21º livro de poemas. Não é pouco. E revela a perseverança do autor em seu ofício e sua permanente disponibilidade ao chamado da poesia, após vários anos de batente. Com esse tempo de serviço e seu currículo, é um nome hoje considerado na cena literária paraibana, a despeito da discrição com que seu dono transita pelo mundo. Uma discrição,
poesia paraibana ed porto
Ed Porto @ed_porto_bezerra
diga-se, que mais suponho do que afirmo, só de observá-lo à distância – e também pelo suave tom de sua voz -, conforme constatei em recente encontro, no lançamento de A pele da minha casa, de seu conterrâneo Bruno Gaudêncio.

O mito grego reflete a visão trágica que seus autores tinham da existência. Diversos relatos mitológicos mostram que, por mais que algu...

A vida é uma tragédia?

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O mito grego reflete a visão trágica que seus autores tinham da existência. Diversos relatos mitológicos mostram que, por mais que alguém fosse belo, forte ou inteligente, o destino sempre impunha limites inescapáveis e, muitas vezes, cruéis.

Dez páginas apenas, em corpo 10 dos velhos magazines de linotipo!... Há prefácios assim. Esse de meus frequentes retornos é assinado ...

Não perco por lembrar


Dez páginas apenas, em corpo 10 dos velhos magazines de linotipo!...

Há prefácios assim. Esse de meus frequentes retornos é assinado pelo inesquecível professor José Pedro Nicodemos à edição da nossa Universidade, sob recomendação de um conselho editorial dirigido por Francisco Pontes da Silva, in memoriam.

Dica de leitura Título: TRAÍDA NUNCA MAIS Autor Marcelo Allevato

Traída nunca mais

marcelo allevato traida nunca mais
Dica de leitura

Título: TRAÍDA NUNCA MAIS
Autor Marcelo Allevato

“Três companheiros: um, o ardente coração; outro, a afiada nua; e outro, o esguio, cor de açafrão, arco ululante, liso no toque e a...

Brasões e emblemática árabe-islâmica: elementos chave e simbologia

brasoes mamelucos arabes simbologia islamica
“Três companheiros: um, o ardente coração; outro, a afiada nua; e outro, o esguio, cor de açafrão, arco ululante, liso no toque e adornado por incrustações pendentes e um talabarte. Quando ele arqueia, a flecha passa e geme, como a desesperada aos gritos que uiva pelo seu morto (...)”
Excerto de “Chânfara: Poema dos árabes”; tradução de Michel Sleiman; edição de 2020.

      Desperdiçar os pés Por estradas já Sabidas Sussurrar Ao mesmo vento E aplacar o que poderia ser luz Não é mais se diz...

O velejar da amizade

antonio aurelio cassiano poesia paraibana
 
 
 
Desperdiçar os pés Por estradas já Sabidas Sussurrar Ao mesmo vento E aplacar o que poderia ser luz Não é mais se dizer No desencontro Mas sorrir porque não foi

Lembro do barquinho de papel derretendo na pequena correnteza do rio de leito de paralelepípedos, a toda velocidade sob o olhar sorride...

Das infâncias, brincadeiras

infancia brincadeiras infantis recordacoes
Lembro do barquinho de papel derretendo na pequena correnteza do rio de leito de paralelepípedos, a toda velocidade sob o olhar sorridente dos meninos. Recordo o exato momento dos olhos encontrarem o fruto no meio da folhagem e a destreza do corpo escalando os troncos até a mão esticada ser o suficiente para alcançá-lo pendurado no galho alto. E ainda sinto o cheiro do caju, da manga, do jambo...

De repente, durante o curso sobre Os Miseráveis , surge a pergunta: Victor Hugo é um grande escritor, criador de sentenças e máximas, o...

Com a linha da paródia e da ironia

miseraveis gavroche cisnes victor hugo
De repente, durante o curso sobre Os Miseráveis, surge a pergunta: Victor Hugo é um grande escritor, criador de sentenças e máximas, ou é um mestre que influenciou outros grandes escritores? Respondi que ele foi as duas coisas. Mas foi, sobretudo, mais do que isso. Ele foi um gênio. Cada página de Victor Hugo exige grande reflexão

Cinco bilhões para financiar as campanhas dos nossos queridos políticos é muito? Não, não é. Para a quantidade de safadezas e crimes el...

Financiamento privado de campanha

fundo eleitoral justica distribuicao renda
Cinco bilhões para financiar as campanhas dos nossos queridos políticos é muito? Não, não é. Para a quantidade de safadezas e crimes eleitorais que os candidatos cometem nas campanhas, precisaria ser, no mínimo, dez vezes mais. Portanto, mesmo levando em consideração os "por fora" e outras trambicagens do gênero, cinco bilhões ainda assim são uma merreca. O que lasca é que essa grana é pública, e bem poderia ser aplicada em educação, saúde e segurança.

      As memórias Recortam as imagens de um filme erótico Morreu de tanto viver Várias vezes Nunca disse adeus O vazio ...

A noite em que o céu respira milagres

poesia paulista tatui cristina siqueira super lua
 
 
 
As memórias
Recortam as imagens de um filme erótico Morreu de tanto viver Várias vezes Nunca disse adeus O vazio entre os seios encharcado de suor O gosto de sal Delta corredeira de gozo

As sereias existem? Na mitologia grega, inicialmente as sereias seriam metade pássaro, metade mulher e não possuíam tanta beleza. Depoi...

Sereias no litoral brasileiro

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As sereias existem? Na mitologia grega, inicialmente as sereias seriam metade pássaro, metade mulher e não possuíam tanta beleza. Depois vemos a evolução da figura para metade peixe, metade mulher. O fato é que, não apenas no Brasil, mas em outros lugares do mundo, há depoimentos sobre a existência de monstros marinhos com metade do corpo peixe e a outra metade semelhante a um primata, antes mesmo do que foi registrado em 1564.

Acho que todos temos um deles, vivamos na zona rural, na cidade pequena, ou nas metrópoles surgidas do aglomerado de bairros ora luxuos...

Meu tipo inesquecível

pilar paraiba futebol
Acho que todos temos um deles, vivamos na zona rural, na cidade pequena, ou nas metrópoles surgidas do aglomerado de bairros ora luxuosos, ora simples e periféricos. Sempre entendi que as grandes cidades são feitas de porções pequenas, cada uma com seus modos, suas festas, histórias, personagens e lembranças.

Diante de um mundo marcado pelo sofrimento, Arthur Schopenhauer (1788–1860), filósofo alemão, em sua obra Sobre o fundamento da moral...

Ética da compaixão em Schopenhauer

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Diante de um mundo marcado pelo sofrimento, Arthur Schopenhauer (1788–1860), filósofo alemão, em sua obra Sobre o fundamento da moral, publicada em 1840, propõe uma ética fundamentada na compaixão. Embora o egoísmo e a crueldade constituam aspectos inerentes à condição humana, a solidariedade apresenta-se, em sua filosofia, como o contraponto ético e afetivo ao impulso egoísta, expressando uma resposta existencial diante das falhas da existência que constituem a vida.

O ser humano saudável e livre, em princípio de doenças, é aquele que se aproxima o máximo possível do estado de crescimento, aceitação ...

O ser humano saudável: uma visão humanística

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O ser humano saudável e livre, em princípio de doenças, é aquele que se aproxima o máximo possível do estado de crescimento, aceitação e desenvolvimento íntimo, que lhe permita adotar, de fato, e não apenas para um consumo externo, um padrão de comportamento semelhante ao que sempre advirto: as medidas preventivas dentro do contexto orgânico e o estado da alma.

A busca pelo significado da vida é uma caminhada que atravessa os tempos e as culturas, um tema que intrigou filósofos, poetas e pensad...

Um contínuo aprendizado

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A busca pelo significado da vida é uma caminhada que atravessa os tempos e as culturas, um tema que intrigou filósofos, poetas e pensadores de todas as eras. A existência humana é, sem dúvida, um fenômeno multifacetado, emaranhado em relações, histórias e tradições. Essa complexidade nos leva a questionar o que realmente significa viver e como podemos, através de nossas escolhas e interações, criar um legado que ressoe através das gerações.

Antes de qualquer coisa, devo esclarecer que Brito é um senhor, bem passado nos anos, que cuida dessas minhas encanecidas madeixas. Um...

Brito, ainda bem...

barbeiro professor cronica
Antes de qualquer coisa, devo esclarecer que Brito é um senhor, bem passado nos anos, que cuida dessas minhas encanecidas madeixas. Uma vez por mês, lá estou eu solicitando suas habilidades no ofício para dar uma ajeitada em cabelo e barba para, quem sabe, diminuir um pouco o impacto dessas marcas que o passar dos anos vai deixando em nossas aparências. Velho e desleixado, ninguém merece; então, lá vou eu para que as tesouras de Brito

Era um tempo em que me atormentava a impossibilidade de traduzir em palavras o que me vinha ao pensamento. Por mais que tentasse, as pa...

As portas da alma do mundo

misterio poesia fernando pessoa
Era um tempo em que me atormentava a impossibilidade de traduzir em palavras o que me vinha ao pensamento. Por mais que tentasse, as palavras não conseguiam alcançar o significado daquilo que os territórios sagrados me enviavam.

A comunhão é completa. O prazer é total, envolve corpo e alma, e transcende-os além do mais. É como beber água. Não tem gosto, nem do...

A Nona nunca será a última...

beethoven nona sinfonia musica erudita carlos romero
A comunhão é completa. O prazer é total, envolve corpo e alma, e transcende-os além do mais. É como beber água. Não tem gosto, nem doce nem salgado, mas é de um sabor inigualável, cristalino como a cor, inexistente, e tão presente.

“Não há análise sem um enigma formulado pelo analisante sobre ele mesmo”. Em Análise , de Vera Iaconelli (Zahar, 2025), a escrit...

Análise

psicanálise psicologia
“Não há análise sem um enigma formulado pelo analisante sobre ele mesmo”.

Em Análise, de Vera Iaconelli (Zahar, 2025), a escritora e psicanalista envereda pelo relato autobiográfico, permeado por memórias familiares, reflexão psicanalítica profunda, guiada por sua jornada de anos no divã. Um exercício raro de autoanálise literária, costurando memória, teoria e clínica em uma narrativa que combina confissão, reflexão e elaboração.

Porque é Natal, as ruas se enfeitam como se fossem passarelas da felicidade. Porque é Natal, as pessoas ficam sem dinheiro para com...

Porque é Natal

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Porque é Natal, as ruas se enfeitam como se fossem passarelas da felicidade.

Porque é Natal, as pessoas ficam sem dinheiro para comprar presentes como se tivessem de sobra.

Porque é Natal, as casas se iluminam como se não existisse escuridão nas relações.

Na minha terra vivia o tempo de menino silencioso; extasiado, olhava as estrelas, andava pelas capoeiras escutando os pássaros cantand...

Memórias arranhadas

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Na minha terra vivia o tempo de menino silencioso; extasiado, olhava as estrelas, andava pelas capoeiras escutando os pássaros cantando.

Chegando do interior, com as mãos calejadas e, nos pés, as marcas do barro vermelho, andava por esta cidade como um camponês; olhava constantemente o chão, sem ainda entender o sentimento do poeta português. Cumprimentava autoridades com profunda inclinação da cabeça, em reverência e respeito. Parava diante de monumentos conhecidos pelas fotografias que chegavam à Serraria.

– Eu lhe gosto. – Eu gosto de você. – Hem?! – Eu também gosto de você, ora. – Está me cor...

Solecismo amoroso

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– Eu lhe gosto.
– Eu gosto de você.
– Hem?!
– Eu também gosto de você, ora.
– Está me corrigindo?
– Corrigindo como?
– Você usou o verbo diferente. Era para ter dito “Eu também lhe gosto”, ou coisa parecida. Mas me corrigiu: “Eu gosto de você!”. Disse tudo certinho.

O envelope marrom estava sobre a mesa, à luz suave do entardecer. Dentro dele, o aviso de demissão que ela já esperava há semanas. A ...

Um café de cada vez

mulher moderna klimt
O envelope marrom estava sobre a mesa, à luz suave do entardecer. Dentro dele, o aviso de demissão que ela já esperava há semanas. A empresa enxugava-se, diziam. E ela era uma das gotas sobrando.

A reconstituição de uma época riquíssima, num romance ágil, denso e original. A ficção é a melhor forma de se assistir aos aconteci...

O silêncio do delator

neumanne silencio delator solha
A reconstituição de uma época riquíssima,
num romance ágil, denso e original.

A ficção é a melhor forma de se assistir aos acontecimentos de uma parte do passado como se fosse ao vivo. Tornam-se incrivelmente presentes, nos grandes romances, aquela gente que resistiu à invasão napoleônica em Moscou, aqueles americanos ricos que vagaram pela Europa no entreguerras, aqueles paraibanos que viveram o Ciclo da Cana-de-Açúcar. O Silêncio do Delator, de José Nêumanne, tornou-se, na mesma linha, a maneira mais perfeita de se ver o que foram os muitos grupos de jovens brasileiros dos anos 60, apaixonados – e marcados – por Bob Dylan, Mao e Che, pelos Beatles, mais o cinema de Glauber e Godard, além do tórrido tempero da revolução sexual.

Uma coisa é gostar de livros, ao modo de um leitor contumaz comum, outra é transformá-los em paixão, ao ponto de tê-los como referên...

Bruno Gaudêncio: a bibliofilia militante

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Uma coisa é gostar de livros, ao modo de um leitor contumaz comum, outra é transformá-los em paixão, ao ponto de tê-los como referência central da existência. A estes últimos costuma-se chamar de bibliófilos, ou seja, aqueles que cultivam a arte de colecionar livros. Arte que às vezes se confunde com loucura, bem sabem os que sofrem e gozam com tal hábito (ou será mania?).

Há algo de atroz em alinhar corpos no asfalto, em ter que ir buscar os corpos na mata cerrada, ir puxando um por um até que estejam to...

O Rio de Janeiro & Camboinha

destino tragedia rio janeiro
Há algo de atroz em alinhar corpos no asfalto, em ter que ir buscar os corpos na mata cerrada, ir puxando um por um até que estejam todos expostos, à luz clara da manhã. Mas a atrocidade não é das famílias, não é dos cronistas: é das forças oficiais que consumaram essa realidade, é do governador que as comandou... (Julián Fúks)

Duas cenas marcaram profundamente as notícias da semana diante da tragédia do Rio de Janeiro no combate ao Comando Vermelho e da chacina na mata. A cena das dezenas de corpos estirados no chão, no meio da rua. E a mais triste: a cena de uma mãe, despedaçada pela tristeza, por cima do caixão do filho assassinado. O luto singular. Um rito de reconhecimento da dor do outro. Mais de 100 mortos e dezenas de feridos. E, no
destino tragedia rio janeiro
Lilia Schwarcz
meio de assassinos, gente da favela e policiais. Rio — uma cidade conflagrada, como li nos comentários de tantos. Uma pena de morte imposta pelo Estado. Como disse a historiadora Lilia Schwarcz: “A necropolítica da fabricação do anonimato e da ausência de informações. Mortes usadas como palanques.” E o governador do Rio, Cláudio Castro, chamando a operação de sucesso. Mas o que se viu, como disse Lilia, “foi barbárie com uniforme, terno e gravata. Uma tragédia com data, rosto e endereço, mas que, para o país, tornou-se apenas mais uma linha nas estatísticas da indiferença.” Um massacre!

E toda vez que me encontro diante das dores das mães, me pego com fotos dos meus filhos pequenos. Sincronicamente, o Facebook me trouxe uma foto com meu filho caçula, Daniel, ainda bebê, sentadinho à beira-mar da praia de Camboinha. Era cedinho de um domingo qualquer, há mais de trinta anos atrás, me peguei a pensar. Que privilégio foi o meu! O amor e a singeleza dessa foto para me abstrair da dor das mães da Favela do Alemão e da Penha.

destino tragedia rio janeiro
João e Elizabeth Jardelino
Meus sogros, Seu Jardelino e D. Tezinha, construíram sua casa à beira-mar, onde tinham terreno e a primeira casa desde os anos 60/70. Naquela época, essas praias tinham espaço para pessoas de classe média, hoje habitadas por ricos. Dessa nova casa, eu já tinha Juca como companheiro e Lucas, meu filho mais velho, com 4 anos. Mas foi depois de algum tempo que surgiu uma casa bonita de primeiro andar, com aquela vista de um mar manso e azul. Todos os carnavais, natais, ano-novo, Semana Santa, feriados e férias, eu podia ocupar uma suíte no primeiro andar, e lá eu era amiga do rei. Digo da rainha, pois, depois da partida de J.J., como meu sogro era chamado na intimidade, D. Tezinha morou longos anos sozinha naquela imensa e acolhedora casa. Era perigoso? Sim. Não como hoje. Mas ela se recusou a sair de lá, pois tinha seu jardim todo seu. Assim como em “Nos jardins de nossas mães”, de Alice Walker.

A casa era enorme, mas decorada simplesmente. Tinha um mesão na sala de jantar para todos da família. Uma mesa farta com feijão verde e galinha de cabidela e, no café da manhã, mamão cortadinho e tapioca. Sim! E cuscuz no molho de coco, que amo. Um biquíni, uma canga na cintura e um par de Havaianas (mas não era Fernanda Torres na publi!).
destino tragedia rio janeiro
Ana Adelaide e Daniel
Assim, eu passava os dias. Tomando banho de mar e, depois, uma ducha no chuveirão do quintal, com o leve perfume das pitangas plantadas rente ao muro. Lá na frente, uma churrasqueira em que Juca se arvorava de gaúcho, e um pé de oliveira que eu vi crescer; daí passarmos os dias de lábios roxos. Eu, que vinha da fúcsia dos jambeiros da Av. Almirante Barroso, só mudava de tom. Lilases! Na beira-mar, nos encontrávamos para chupar caju e fazer castelos de areia com as crianças. Hoje, meus sogros e Juca já voaram mais alto e habitam as estrelas.

Quando tinha feijoada, a família toda vinha sentar-se à mesa gigante da sala. Antes, porém, tinha uma cervejinha. E, após essa iguaria, todos se recolhiam às redes para o cochilo costumeiro. E eu, dormindo só por um olho, ficava brincando com Daniel no mormaço enfadonho dos domingos à tarde. Não sem antes ver o sol e a lua, com um caranguejo em cada mão, uma cerveja na outra, mangabas e manga-espada das pintinhas pretas. Noites silenciosas. Crianças que dormiam o sono dos justos. A Rua Max Zagel era calma, crianças nas ruas e vizinhos sentados nas calçadas proseando.

destino tragedia rio janeiro
Júlio Jardelino e o filho Daniel (Praia de Camponha-PB) Acervo da autora
Nas férias de janeiro, meus cunhados que moram fora chegavam de Brasília, Recife e Salvador, e a festa crescia. J.J., com sua bermuda, seu ar bonachão, sempre embevecido com a casa cheia. D. Tezinha, atrás de mimos para todos. Sempre que chega o verão, lembro-me dos tantos amanheceres e anoiteceres da minha vida. Marcantes. Mas esses de Camboinha me levam para um lugar para além de Areia Vermelha e dos navios passantes. Me levam ao infinito. Saudades daquela casa. E de tantas outras casas da minha vida que permearam meus jardins e quintais.

E, quando penso nessas memórias tranquilas e serenas do meu bebê conhecendo o mar, reverencio aquela mãe debruçada no caixão do filho morto, em nome de todas as outras.