Precisava chegar cedo ao aeroporto para participar de uma feira literária. Em vez de aplicativo ou qualquer outro meio de locomoção, p...

Arquitetura do tempo

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Precisava chegar cedo ao aeroporto para participar de uma feira literária. Em vez de aplicativo ou qualquer outro meio de locomoção, preferi pegar carona com meu pai — como há muito tempo não fazia. Ele, taxista experiente, conhecia o percurso perfeito para me deixar a tempo. Éramos apenas nós dois: pai e filho, dividindo o banco confortável do táxi e observando a cidade como sempre fizemos.

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Fui tomado por uma memória antiga: quando criança, eu me sentava no meio do banco de trás, bem no centro, enxergando o mundo como quem o descobre pela primeira vez. Lembrei das mãos dele no volante, firmes, enquanto me ensinava os nomes das ruas, das praças, dos pontos turísticos. Cada esquina tinha uma história. Cada curva, uma lição. Eu conheci a cidade pela voz do meu pai.

Hoje, sentado ao lado dele, percebi como algumas coisas mudam. A cidade já não é a mesma — prédios recentes, casas modernas, mansões luxuosas, jardins de grama rasteira se espalhando. Foi então que um condomínio chamou a atenção do meu pai.

⏤ Olhe isso, rapaz... — disse ele, levantando levemente os óculos. — Essas casas são todas iguais. Parece fabricação em série. Mais parecem clínicas ou armazéns que moradias.

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Sorri. Eu vinha pensando exatamente nisso já fazia algum tempo. As casas novas, as igrejas, os prédios: tudo tão padronizado que quase não diz mais nada. Linhas retas, vidraças enormes, fachadas que refletem mais vazio do que luz.

⏤ Realmente, como mudou a estrutura das novas casas — respondi. — Antigamente cada moradia tinha seu jeito. Lembra?

Ele viajou no tempo, sem tirar os olhos da pista.

⏤ Lembro demais. Antes, as casas tinham mais personalidade, mais identidade. Eram construídas de acordo com a cultura local, com o clima e com os materiais disponíveis. No Sul, por exemplo, casas de madeira, com telhados inclinados, preparadas para o frio. No Nordeste, paredes firmes, janelas amplas e arejadas, feitas para aliviar o calor. No Sudeste, os prédios e arranha-céus acompanhando o ritmo das metrópoles. Sem contar a decoração interna, que revelava, nos quadros e nas estantes, a história de cada famíla.

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⏤ Agora — continuei — até as igrejas, que antes tinham torres, sinos, vitrais e detalhes artísticos, parecem galpões com cruz.

Meu pai deu um riso curto, meio irônico, meio saudoso.

Enquanto antes observávamos eiras, beirais, grades e paredes que imprimiam estilo, arte e cultura, hoje tudo parece ser tudo padronizado. As fachadas têm excesso de vidraças e pouca identidade.

Por alguns segundos ficamos em silêncio — aquele estranhamento dúbio de quem vê o mundo mudar numa velocidade que não pediu licença. Era como folheássemos um álbum de memórias arquitetônicas enquanto avançávamos pela cidade.

⏤ Talvez seja isso mesmo — falei, quebrando o silêncio. — O novo chega meio desconfortável. A gente estranha, compara, sente falta do que tinha. Mas, com o tempo, vai aceitando... E quem sabe, contribui de uma melhor forma a nossa nova realidade:
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velocidade, praticidade, funcionalidade.

Ele assentiu, apertando o volante como quem segura uma lembrança antiga.

⏤ Certo, errado, bonito, feio… A vida segue, meu filho. Elis Regina já cantava: “O novo sempre vem.”

Pouco depois chegamos ao aeroporto. Desci com a mala na mão, e ele seguiu para o trabalho e para a cidade.

Já no local, o evento literário aconteceu justamente num prédio antigo, restaurado — daquelas joias que resistem ao tempo, como as de Ouro Preto. Ali, entre paredes que guardam passado, entendi: o novo chega, sim… mas o velho, quando bem cuidado, permanece como chão para que a mudança tenha onde pisar.

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