Quanta coisa a se dizer sobre Brigitte Bardot, um dos ícones do século XX, assim como foram Greta Garbo, Chaplin, os Beatles, Elvis, Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Simone de Beauvoir, Alain Delon, Bob Dylan, Hemingway, Indira Gandhi, Golda Meir, Jackie Kennedy, Pelé, Maradona, Elisabeth II e tantos mais.
Mohandas. K. Gandhi, estadista e líder espiritual indiano que transformou a simplicidade cotidiana em instrumento político, mostrando que a autoridade moral pode nascer da renúncia, e não do poder ▪️ Foto: Madhusudan, 1935
Esses ícones, sejam homens ou mulheres, têm a capacidade de representar uma época e só isso mostra a sua importância. Naturalmente, referimo-nos às pessoas de bem (ou quase), pois Hitler, Mussolini, Stálin, Mao e Pinochet não podem ser considerados propriamente ícones de seu tempo. Já Churchill, Gandhi, Roosevelt, Kennedy e Fidel, sim, goste-se deles ou não. Com frequência é tênue a linha que separa uns dos outros, os bandidos dos mocinhos (se é que estes existem de verdade).
Delicado também tornou-se considerar Brigitte um símbolo sexual, assim como Marilyn, Sophia Loren e outras mais. Que ela foi, foi, todos sabemos, mas é lícito proclamá-lo, sem ferir suscetibilidades contemporâneas? Para muitos, hoje em dia, alguém ser tido como símbolo sexual virou defeito.
Brigitte morreu aos 91 anos e encerrou sua fulgurante carreira de atriz aos 39, no apogeu da beleza. Isso diz muito sobre ela. Que poderia perfeitamente ter prolongado por pelo menos mais três décadas sua atuação nas telas, colhendo os frutos do sucesso, inclusive os financeiros, determinantes para tanta gente. Catherine Deneuve e Jane Fonda por exemplo, estão aí, em plena
Greta Garbo, atriz sueca, extremamente reservada, evitava entrevistas, eventos públicos e recusava-se a explicar sua vida pessoal. No auge da fama em Hollywood escolheu o silêncio e o anonimato. ▪️ Foto: Clarence Sinclair Bull, 1934
forma e ação. Mas não. Brigitte optou, como Greta Garbo, pelo recolhimento, já que, àquela altura, o anonimato não lhe era mais possível. Entretanto, assumiu um novo e relevante papel fora das telas: o de defensora dos animais, bandeira merecedora de Oscars.
Novinha, virou estrela mundial, sem muita consciência do que representava para muitos. Vá lá que foi, desde o começo, um sex symbol, o que foi inevitável pelas cenas de nudez que protagonizou, numa época em que tudo isso era novidade. Mas também foi mais que isso: foi a profetiza da vanguarda comportamental que os anos 1960 iriam estabelecer na sociedade ocidental. Não é pouca coisa, convenhamos. De repente, uma jovem e bela atriz aparece nas telas do mundo inteiro como Deus a fizera, nuinha, nuinha, um alumbramento, como diria Manuel Bandeira à vista de sua primeira mulher nua. E com a simples e corajosa nudez mostrou que tudo era possível, tudo era natural, libertando as mulheres – e os homens – de tanta repressão e de tanto atraso.
Brigitte Bardot, atriz parisiense que abandonou o cinema no auge da fama para dedicar-se integralmente à defesa dos animais, retirando-se da vida artística para atuar quase exclusivamente como ativista, fundando a Fondation Brigitte Bardot, referência mundial na proteção animal. ▪️ Foto: Anônimo / CC0
Brigitte, Brigitte, de tantas fotos nas revistas, fotos guardadas como relíquias de santo, no fundo de gavetas de tantos adolescentes que de santos não tinham nada. Brigitte de tantas fantasias, a maioria inconfessáveis, salvo ao padre, coitado, cada vez menos procurado naqueles tempos rebeldes em que a imanência ia tomando o lugar da transcendência. Brigitte inspiradora de tantas garotas destemidas ao redor do mundo, mudando para sempre as relações amorosas e conjugais.
A estreia de Brigitte no cinema se deu em 1952, mas o seu grande sucesso inicial é de 1956, com “E Deus criou a mulher”. Parecia mesmo que o Criador tinha feito uma mulher nova a partir da lourinha Bardot, tão revolucionária ela parecia – e era. Quando maio de 1968 chegou em Paris e daí espalhou-se pelo mundo, como uma ventania renovadora, o terreno já vinha sendo preparado para recebê-lo há pelo menos dez anos por aquela lourinha com cara de anjo e corpo e modos de mulher.
Não sei avaliá-la como atriz. Isso fica para os críticos. Talvez ela não tenha sido uma Meryl Streep ou uma Emma Thompson. Mas que importa? Ela foi o que foi, o
Brigitte Bardot: "A maioria das grandes atrizes teve fins trágicos. Quando me despedi deste trabalho, desta vida de opulência e brilho, de imagens e adoração, da busca por ser desejada, eu estava salvando a minha vida" ▪️ Foto: Jacques Brinon
que conseguiu ser – e foi o bastante. Para ela e os fãs inumeráveis. Faz parte da história do cinema - e mais: da história de milhões pelo mundo afora, a minha inclusive, modestamente.
Seu rosto na velhice revelava que não recorrera às plásticas, uma prova de caráter e de personalidade. Deixou que o tempo fizesse livremente o seu trabalho de “escultor de ruínas”, como se quisesse afirmar em alto e bom som para todo mundo: “Eis quem sou; não preciso de artifícios.”
Contraditoriamente ao que teve de revolucionária na mocidade, a estrela, no crepúsculo, resolveu dar uma guinada mais conservadora na política, a despeito de sua postura progressista na defesa dos animais e do meio ambiente. O jornalista Elio Gaspari observa que nesse movimento a atriz seguiu o próprio século XX. Mistério? Talvez. Ou, quem sabe, apenas o exercício da liberdade de pensamento e de opinião, direito sagrado de cada um. Nem por isso merece ela ser condenada ou cancelada. Quando a vida se completa com a morte, o julgamento do morto deve sempre considerar o conjunto da obra e não um ou outro aspecto isolado, às vezes fruto de equívocos e de mal entendidos. Em todo juízo os antecedentes do réu devem ser levados em conta, a fim de que o veredicto final seja correto – e mais que isso: justo.
Brigitte, Brigitte, nesta hora de adeus, as mulheres do mundo te saúdam. Os homens e os bichos, também. E os que não o fazem, não te merecem.