O ensaio original que define os dois conceitos de liberdade do filósofo russo Isaiah Berlin (1909–1997), intitulado Esperança e Medo, foi originalmente proferido como uma palestra em 1957 e publicado em 1958. Essa coletânea oferece uma estrutura conceitual para compreender — nos dias atuais — as disposições emocionais que atravessam a experiência humana em contextos políticos, sociais e existenciais. Ao articular liberdade negativa e liberdade positiva, Berlin defende uma tese para pensar o pluralismo, os riscos do autoritarismo e a
Isaiah Berlin, filósofo, historiador nascido em Riga e naturalizado britânico, importante pensadore liberal do século XX ▪️ Imagem: National Portrait Gallery, Londres
complexa relação entre valores, escolhas e emoções como o medo e a esperança, que ocorrem tanto na ação individual quanto na vida coletiva em sociedades complexas.
Para Isaiah Berlin, a liberdade negativa refere-se à ausência de imposição, isto é, ao espaço no qual o indivíduo pode agir sem interferência arbitrária de outros ou do Estado. Já a liberdade positiva diz respeito à possibilidade de o sujeito ser senhor de si mesmo, isto é, de dispor de condições materiais, sociais e morais para realizar seus objetivos e de governar sua própria vida, concretizando aquilo que considera racional ou autêntico. O problema surge quando a liberdade positiva é reinterpretada como autorização para que forças externas — partidos, líderes ou ideologias — determinem o que seria o verdadeiro interesse do indivíduo.
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Embora ambas sejam legítimas, o pensador alerta para os perigos inerentes à absolutização da liberdade positiva, que historicamente serviu de justificativa para regimes autoritários ao impor uma concepção única do verdadeiro bem ou da vida racional aos indivíduos em nome da emancipação, transformando a promessa de autonomia em instrumento de dominação. Essa crítica está diretamente vinculada à defesa berliniana do pluralismo axiológico. Segundo o autor:
“Os valores humanos são múltiplos, irredutíveis e, muitas vezes, incompatíveis entre si, e não existe uma hierarquia racional única capaz de ordenar definitivamente bens como liberdade, igualdade, justiça, segurança ou felicidade. A tentativa de harmonizá-los a um princípio absoluto — seja a liberdade plena, seja a igualdade total — conduz a conflitos trágicos e à tirania.”
Isaiah Berlin, 1991
Sir Isaiah Berlin ▪️ Arte: Sir Lawrence Gowing /// National Portrait Gallery, Londres)
Nesse sentido, o pluralismo não é uma fragilidade moral, mas uma condição constitutiva da vida humana e um pressuposto normativo das sociedades democráticas. É neste cenário tensionado que medo e esperança podem ser compreendidos não apenas como emoções individuais, mas como forças políticas e sociais profundamente vinculadas à questão da liberdade. O medo, entendido como antecipação de ameaças e perdas, desempenha um papel ambíguo. Do ponto de vista biológico e psicológico, trata-se de um mecanismo de autopreservação, associado à ativação de respostas de luta ou fuga. Contudo, em sua dimensão social, o medo pode paralisar a ação, inibir a criatividade e favorecer a aceitação de restrições à liberdade em nome da segurança.
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Historicamente, regimes autoritários exploraram o medo — do inimigo externo, do caos, da escassez — para legitimar o controle e o terror, favorecendo soluções autoritárias. A esperança, por sua vez, projeta o sujeito para o futuro, sustentando a motivação diante da incerteza e da adversidade. No entanto, Berlin adverte que a esperança, quando absolutizada em projetos políticos totalizantes, pode se tornar igualmente perigosa. Utopias que prometem um futuro plenamente reconciliado frequentemente legitimam sacrifícios presentes em nome de um bem supremo ainda por vir, corroendo liberdades concretas em nome de uma falsa redenção abstrata.
A relação entre medo e esperança é, portanto, tensional, dialética e estruturalmente política. Ambas funcionam como forças de mobilização social, especialmente em contextos de crise. Discursos eleitorais, regimes autoritários e movimentos populistas recorrem reiteradamente a esses afetos, alternando narrativas de ameaça e salvação. O medo excessivo pode imobilizar e levar à renúncia da liberdade negativa; a esperança absoluta pode obscurecer os riscos e justificar sacrifícios presentes em nome de um futuro idealizado.
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Essa dinâmica reflete o problema central identificado por Berlin: a impossibilidade de conciliar plenamente valores e impulsos humanos sem conflitos. Reconhecer essa tensão não significa resignar-se à paralisia, mas aceitar a necessidade de escolhas trágicas e compromissos provisórios. Nesse sentido, a defesa berliniana do pluralismo pode ser interpretada como uma tentativa de conter os excessos emocionais da política, insistindo na moderação, na tolerância e no reconhecimento dos limites humanos.
Na política contemporânea, discursos mobilizam medo e esperança como estratégias de engajamento coletivo, muitas vezes simplificando dilemas complexos e reduzindo o espaço do pluralismo. Na área da saúde, especialmente em situações de crise, profissionais vivem o pêndulo entre o medo do erro ou da perda e a esperança de cura, sendo compelidos a sublimar emoções para agir com responsabilidade ética em expectativas irreais.
Já na espiritualidade e na filosofia, medo e esperança estruturam narrativas sobre sentido, finitude e liberdade interior, como se observa na tradição cristã e em reflexões sobre a morada interior do sujeito moral. No cristianismo, por exemplo, a tensão entre temor e confiança estrutura a relação do fiel
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com o divino. Berlin dialoga indiretamente com essa tradição ao enfatizar a importância de um espaço mínimo de autonomia moral que resiste tanto ao terror quanto à sedução das promessas religiosas.
Medo, esperança e liberdade não são conceitos isolados, mas elementos interdependentes da experiência política e moral moderna. Enfrentar o medo é condição para a ação livre, assim como aceitar a incerteza é requisito do pluralismo. Nesse sentido, o pensamento de Isaiah Berlin permanece atual ao lembrar que a liberdade não consiste na eliminação dos conflitos, mas na capacidade de conviver com eles sem recorrer a soluções autoritárias.
Sua contribuição também reside em mostrar que não há solução final para essas tensões: viver em liberdade implica aceitar conflitos, perdas e escolhas trágicas. Assim, conviver com o medo, a esperança e as liberdades negativa e positiva é reconhecê-las como coexistentes em tensão, refletindo sua complexidade indivisível na condição humana. Isso não significa eliminar a incerteza, mas reconhecer os limites da razão e da ação humana, optando por seguir em frente com dignidade e resiliência, sem ceder à paralisia nem à ilusão de perfeição.