A casa não é mais minha , mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no ...

Esquinas da alma

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A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim.

Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de
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pão fresco ainda grudado no avental. Sua sombra se fundia com a do poste, e eu, voltando da escola, sabia que casa era onde aquelas duas sombras se encontravam.

Hoje, um poste mais moderno substituiu o antigo, mas, se fecho os olhos, vejo a mancha de ferrugem em forma de flor que marcava sua base. Era meu ponto de referência no mundo: “Vivo na casa da esquina com o poste da flor de ferro”. Ninguém mais via a flor. Só eu.

Do lado oposto, a mercearia do seu Manuel, não existe mais. Transformou-se em uma loja de celulares com luzes azuis que piscam sem calor. Mas na minha esquina particular, seu Manuel ainda arruma as latas de goiabada na vitrine, e o sino da porta ainda tilinta quando entro para comprar bala de café com um tostão suado na mão.

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Às vezes, paro o carro ali, no ponto proibido agora, e olho. Os tijolos da casa foram pintados de um cinza frio. As grades, trocadas por modelos retos, impessoais. Mas na minha memória, as parreiras de maracujá ainda se enroscam no muro baixo, e o desenho que fiz com carvão, um sol com olhos de botão, ainda sorri de um tijolo perto da porta.

O menino que fui não se foi. Ele está congelado naquele espaço-tempo. Está subindo no muro para pegar a bola que caiu no quintal do vizinho. Está sentado na calçada ainda quente,
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contando as estrelas que surgem timidamente entre os fios dos postes. Está esperando, com o coração batendo no pescoço, a primeira namorada que vinha encontrar com ele “na esquina”, ainda escondida dos pais.

O passado não vive dentro das paredes que habitamos. Ele fica retido nos espaços de transição, nos limiares. Vive nas esquinas, soleiras, portões, janelas. Lugares onde se fica entre o dentro e o fora, entre o partir e o ficar.

A nova dona da casa deve achar estranho quando, às vezes, vê um homem de quarenta anos parado em frente ao portão, imóvel, olhando para o nada. Não vê que ele está olhando para tudo. Para o fantasma da bicicleta com rodinhas laterais que faz uma curva desengonçada. Para o eco das risadas escondidas noturnas. Para o último beijo de despedida antes da mudança, dado ali, debaixo do poste, com o rosto iluminado pela lâmpada amarelada que atraía os insetos.

Minha vida atual acontece em outros lugares, com outros códigos postais. Mas meu passado, teimoso, não quis se mudar. Preferiu ficar ali, na esquina, fazendo guarda. Esperando que, de vez em quando,
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eu volte para visitá-lo. Para lembrar que, antes de ser quem sou, fui aquele menino que acreditava que o mundo começava e terminava no ponto onde a rua fazia curva, e que a felicidade cabia inteira dentro dos limites daquele quadrado de calçada.

A cidade muda, as casas mudam de donos, as ruas se modernizam. Mas as esquinas da alma permanecem intocadas. E eu sigo sabendo que, em algum plano paralelo acessível apenas pelo coração, na esquina da casa onde eu morava, meu passado ainda respira, ainda joga bola, ainda espera. E, de certa forma, ainda vive.

Talvez essa seja a função mais silenciosa e importante das nossas esquinas interiores: não são museus, são faróis. Não guardam o passado como coisa morta, mas como uma bússola calma. Elas nos lembram que, em algum lugar sob o asfalto novo, ainda correm os trilhos invisíveis que nos trouxeram até aqui. E que tudo o que fomos, a alegria, a espera, o amor desengonçado, o cheiro do pão, não se perdem. Apenas se transformam em alicerce.

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