A amizade é por excelência um sentimento desinteressado. Nela não interferem o sexo nem a cumplicidade. Queremos um amigo pelo prazer de ter alguém perto. Alguém com quem conversar ou ficar em silêncio. Alguém que nos compenetre tão profundamente da ideia do Semelhante, que nos permita partilhar sem reservas a nossa humanidade.
Enquanto o amor romântico busca a complementariedade, e a parceria visa ao que é útil, a amizade eclode no terreno do desinteresse. Ela é não um meio para um fim, mas (lembrando o que Kant diz sobre a arte), um fim em si mesma. Ao retirar o componente da
Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende ▪️ @lararodrigues /// X
Para se manter, a relação demanda uma boa dose de tolerância, pois não é totalmente imune às fraquezas que todo ser humano tem. Vez por outra elas se evidenciam, ameaçando turvar o clima e testando a intensidade da afeição. Nelson Rodrigues conta nas suas “Confissões” que, sofrendo de “insônias crudelíssimas”, costumava ligar para Otto Lara Resende nas madrugadas. Imagine o que é ser tirado da cama nessa hora para aliviar o tédio de um amigo que não conseguia dormir. Otto se levantava (certamente com cuidado para não acordar a mulher) e conversava por longos minutos com o autor de “Vestido de noiva”. Essas vigílias forçadas nunca comprometeram a amizade dos dois.
Montaigne e Étienne de La Boétie, união rara e absoluta de almas, fundada em afinidade total, liberdade mútua e confiança plena ▪️ Fonte: Mosaic du Midi, 1839
No ensaio “Dos amigos”, Montaigne tenta explicar o “inexplicável” que o uniu a Étienne de La Boétie. Chega à conclusão de que, em sua forma mais elevada, a amizade transcende as categorias comuns dos relacionamentos humanos. Quando questionado sobre o motivo de tamanha afeição pelo amigo, Montaigne o resume na célebre frase: “Porque era ele; porque era eu”.
Há na amizade, segundo o autor dos “Essais”, uma comunhão de essências. Queremos um amigo pelo que se irradia da sua presença – uma presença que nos acompanha tanto no diálogo exasperado, tortuoso, quanto no silêncio confortador. Ele e Étienne não eram
Vinicius de Morais: "amizade é amor sem posse, feito de convivência, cumplicidade e atenção, algo que se cultiva, como a poesia, no dia a dia." ▪️ Foto: Alécio de Andrade
Vinicius de Moraes confirma esse modo de ver quando diz que “amigo não se faz; amigo se reconhece”. Tal percepção parece transportar a amizade do campo da construção social para o do destino ou da metafísica. Quando o Poetinha diz que amigo “se reconhece”, sugere que o encontro não é o ponto de partida mas o reencontro de algo que já existia em estado latente.
A ideia de que a amizade é um “reconhecimento” evoca uma sensação de familiaridade ancestral. Nesse processo, o outro personifica uma parte nossa que sempre esteve “lá”, esperando para ser espelhada. Lembra um pouco a paixão, em que os amantes parecem sentir que conhecem um ao outro há muito tempo. Freudianamente, esse tempo pretérito é o da infância, quando se opera a identificação com a figura paterna, ou materna, que vai modelar a futura escolha do objeto amoroso.
Carl Gustav Jung (1875-1961) ▪️ Fonte: Psych Art
A frase de Vinicius (segundo a qual amigo se reconhece) confirma a experiência de Montaigne. O francês escreveu que, antes mesmo de se conhecerem pessoalmente, ele e La Boétie já se buscavam por meio dos escritos um do outro. Quando finalmente se viram, “encontraram-se tão tomados, tão conhecidos, tão ligados, que nada desde então lhes foi tão próximo”. Não houve um processo de “fazer a amizade”; houve apenas o reconhecimento de que suas almas já estavam misturadas antes mesmo de seus corpos se cruzarem.






























