Recordações; lembranças perseverantes . Ah, quanto é bom olhar as nossas vivências. O passado passa a ser uma ironia, porque, queiram...

Memória dos anos

L'Homme en hamac ▪ Albert Gleizes, 1921 ▪ Buffalo  Art Museum
Recordações; lembranças perseverantes. Ah, quanto é bom olhar as nossas vivências. O passado passa a ser uma ironia, porque, queiramos ou não, ele nos remete ao presente-futuro. Só é livre quem não está no tempo – Clarice Lispector sabia disso: “Experimento viver sem passado, sem presente e sem futuro e eis-me aqui livre”. Não há como negar; o passado é sequestrador – nos rapta. Não quero ser visto como saudosista com tal afirmação. Mas os cheiros,
memoria recordacao tempo nostalgia
Arte: A. Gleizes, 1911
os gostos, as imagens... ficam impregnadas na nossa “memória afetiva”. Lemos o mundo através dos conhecimentos prévios.

A infância é o campo mais fértil: o cheiro das matas, do mar, do fogão à lenha. É daí que surgem os melhores perfumes.

A vida é cíclica, por isso que soluções velhas são utilizadas para velhos problemas. Sabedoria consiste em apurar os sabores, portanto sábio é aquele que tira o melhor sabor das reminiscências.

Qual é a força que rege essa cronologia? – o homem reagindo com choro pelas mesmas causas de quando menino? Silêncios. Respostas?

memoria recordacao tempo nostalgia
Arte: A. Gleizes, 1910
Sempre gostei de pessoas mais velhas, elas nos propõem um banquete – mesas fartas com frutos de várias estações. A velhice bem administrada é aquela na qual estamos constantemente repondo as refeições, trocando as toalhas. É fase de resenhas não limitadas.

Presencio pessoas de idades diversas lastimando: “No MEU TEMPO era diferente”. É realmente lamentável, pois não souberam caminhar e ficaram presas. Estacionaram. O momento é agora, hoje!

memoria recordacao tempo nostalgia
Arte: A. Gleizes, 1911
Idade não se resume à quantidade de aniversários. Fases existem para terem continuidade, portanto, digo: tua terceira idade pode ter muitas vidas.

O tempo e suas cirandas. Anfitrião que nos convida ao específico. A ação de um adulto deve ser dissociada de uma criança, senão cai no ridículo. Entendam: uma coisa é no particular; a mesma, publicamente, pode constranger. Tempo do tempo.

Às vezes passamos longos períodos sem abrir o nosso baú de vivências. A chave já corroída, tememos quebrá-la, então não relemos a nossa história. Desconsideramos o valor da subjetividade. Vamos investigar outros cômodos. o problema é que ficamos tão acomodados... os nossos troféus vão se empoeirando na estante; essa experiência de viver é instantânea. Nem ao menos tivemos o trabalho de nos aliar ao Cronos. Amadurecer é distinguir a alma do corpo. É saber colher os cachos de sapiência na hora certa – antes eram torturas. De repente tive que amanhecer antecipadamente, o gorjeio dos pássaros deu-me uma vontade de namorar...

COMENTE, VIA FACEBOOK
COMENTE, VIA GOOGLE
  1. Anônimo7/1/26 11:46

    Sempre instigante, Leo. Parabéns. Francisco Gil Messias.

    ResponderExcluir
  2. Anônimo7/1/26 15:54

    Belíssimo texto, é bom reviver o passado, para darmos o verdadeiro valor do que vivenciamos hoje.

    ResponderExcluir

leia também