“Em vez de comerem, eram comidos pela própria fome numa autofagia erosiva.”
José Américo
CORDEL DO SONHADOR
Vou’embora’à Pasagarda Aqui’eu não fico mais Morte morreu’enlutada Fome’e doença jamais Lá me deito’ à beira rio Enxergo’os verdes bravios E sinto’o gosto da paz
Vou’embora’à Pasagarda Aqui’eu não fico mais Morte morreu’enlutada Fome’e doença jamais Lá me deito’ à beira rio Enxergo’os verdes bravios E sinto’o gosto da paz
Septilha do Escritor
Orací de Cuité
Nas eiras do final do século dezenove do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelas beiras dos confins do rococó, Taitale chegou à Capital. O dia exato do mês em que esse fato entrou na História nunca se soube, contudo criara-se um burburinho local de que ele era homem enviado por Deus.
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A política tornava o vilarejo um centro de querelas regionais devido a uma localização serrana privilegiada em transição climática. A origem da tensão estava na ambição de muitos senhores do engenho que viam a pequena vila como a joia da Borborema no planalto sertânico. Ali havia quentura demais e frieza de menos, o que era favorável para a agricultura e a pecuária. Todavia, os desdobramentos da recente aprovação da Lei da Abolição, acirravam os ânimos da região, instaurando conflitos entre os coronéis e seus trabalhadores libertos.
Na capela dominical, a missa era acompanhada com atenção na pujança de Seu Vigário, que exortava os crentes com os sermões da multiplicação
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⏤ Meus amados. Não creiam nas mentiras de Satanás! O inimigo de nossas almas tentará nos convencer que é possível transformar pedras em pães. Estejamos sedentos em beber da Água Viva! — advertia o velho sacerdote da paróquia.
Nascera debaixo do límpido céu azul do Curimataú. Lugar no rabicho superior do mapa da Parahyba. Rincão de rio seco donde não se via mata, nem canto de papa-capim. De solo duro no plantio do algodão com alforje dos coronéis que atendiam pelo codinome “Nhonhô”.
Ali, corria a lenda de que, no parto do nascituro, a sua “mãe de umbigo” ficou desesperada: o menino abriu os olhos, mas não dava um pio sequer. Logo que o cordão umbilical foi cortado, a rezadeira deu umas rijas palmadas em suas nádegas, mas o que se ouviu no momento, foi só os estalos secos da mão sobre bunda fresca. O brejeiro tornou a fechar os olhos, engoliu o choro e fez bico de pirraça.
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⏤ Louvado seja Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo. Esse vai ser santeiro! — profetizou a aprendiz de benzedeira segurando um galho de arruda na segunda parte da sessão.
⏤ E para sempre seja Ele louvado. — selou a curandeira-mor que acompanhava as mais novas aprendizes.
⏤ Minha Sinhá, coloque o nome desse menino Taitale. — completou a anciã. Pegou-lhe pelos dois pés e pendurou-lhe de cabeça para baixo. Chacoalhou-lhe os quartos para o alto, soprando-lhe a moleira lactente. Depois, passou a incitá-lo à muringa. Não deu outra: o peralta sorriu. Botou a ponta da língua para fora e, como um artista de rua, debochou daquela que lhe trouxe vida à luz do dia. Tempos à frente, ela mesma o encontraria fazendo arte, debaixo de uma frondosa coitizeira, chupando umbu verde sem fazer careta.
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Tornou-se um exímio restaurador de objetos e imagens que traziam esperança e redenção ao suplício coletivo, bem como colocava sorrisos em monumentos de praças públicas. Praquelas bandas, as lamentações comunitárias eram feitas em sacras cantigas — ladainhas e coros — para os dias de provação dos devotos de Nossa Senhora das Mercês. Embora o tempo e a maldade humana assolassem os sonhos, não se perdia a esperança no Divino.
A procissão seguia o rito, intercedendo pela chuva da promessa que vinha do alto. Caminhavam lembrando de que, no chão, a água doce jorrava vida fértil nas fazendas dos Nhonhôs.
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⏤ Ó Pai bondoso, que fazes brilhar o sol e cair a chuva, tende compaixão do nosso sertão que sofre com a seca. (...) Renovai nossa esperança e nossa fé. Amém. Os cristãos empunhavam terços, cruzes e a imagem padroeira; ao tempo em que um caminhão cheio de santinhos carregava o milagre. Nossa Senhora, chorava de tristeza, pois os “santos de casa”, quase nunca seguiam o exemplo de Cristo.
Ao povo, seria então providente que, ao menos, o clamor se chegasse nos arredores de Santa Cruz e São Vicente do Seridó. Que fosse por um tempo indeterminado, dependendo da intensidade e do volume da oração, direcionada ao diretório municipal do departamento de articulação e combate à seca, não haveria alternativa a não ser dizer “amém”. Cumpria-se a máxima de que, “a voz chorosa do povo, transformara-se na rebenta voz de Deus”: Haja água!
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Foi nesse cenário, liturgicamente ensaiado, que o jovem Taitale chegou à Parahyba do Norte, buscando o refinamento artístico que pudesse mudar seu destino, o de Naucete, o seu primeiro grande amor, e o do menino que deixara em seu ventre. Vinda da Atenas Pernambucana, logo em sua chegada à Cuité, a jovem viu o forte artesão grego, dando fôlego à forma esculpida e se apaixonou artesão. Passados três anos, entre juras de amor e promessas de uma união estável, a dureza da terra, do sol e do coração do homem poderoso, à fê-la despedir-se do companheiro que rumara à Capital naquele dia. Ficara consigo o vigoroso fruto temporão de seu enlace corporal, bem como o conforto que mexia em alegria no seu ventre.
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Naucete era uma negra que exprimia um belo sorriso no rosto. Bem-educada, diziam que descendia do quilombo; demonstrava a dignidade das princesas
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Depois de sua vinda ao casarão, não se ouvia mais o grito do açoite, ainda assim, a árdua lida no campo não era coisa de gente livre. Ela seguia administrando com zelo as demandas de seu senhorio. Não era totalmente livre, tampouco era de um todo escrava, porém romântica, virtuosa e mulher inteiramente apaixonada.
Embora o Coronel fosse sisudo e avarento com os seus serviçais, a pernambucana impunha o respeito merecido. Era uma das poucas que o encarava de frente; além de Sinhazinha Ariane, a menina dos olhos traiçoeiros, a filha caçula e protegida do seu patrão.
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No próximo capítulo, a fama de Taitale cresce, o menino Orací se vê enredado por promessas de conhecimento e encanto, e um boi passa a assombrar sonhos e destinos. Entre arte, desejo e perigo, um labirinto começa a se fechar sobre todos.
Não perca. O que nasce como esperança pode se tornar tragédia.
Não perca. O que nasce como esperança pode se tornar tragédia.






























