Dar forma ao objeto . Era esse, afinal, o propósito de Taitale, ainda que houvesse algum sacrifício a ser pago. Entre outros ofícios, n...

Orací e o Boi de Cuité (capítulo 2)

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Dar forma ao objeto. Era esse, afinal, o propósito de Taitale, ainda que houvesse algum sacrifício a ser pago. Entre outros ofícios, na cidade da Parahyba do Norte, ele desenvolvia a xilogravura e a talha, fabricava esculturas e modelava arte tumular. Essa última, pelo tempo e pela razão, não era de seu maior agrado.

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No início, ele relutava, mas aceitou o acaso. Marchetar a morte nunca foi coisa que prestasse. No entanto, pelo bem artístico, conformou a sua ética com a absurda passagem para o desconhecido:

⏤ Com as minhas mãos, hei de deixá-la menos desfigurada, ainda que num simples gesto de consolo. — prometeu num lampejo argumentativo.

Quando era adolescente no vilarejo, ouvia Seu Vigário na Igreja dizendo que o próprio Deus tinha feito o homem do pó da terra, ao mesmo tempo, arrancando dele a costela que modelaria a mulher. Naquele dia, o rapazinho teve certeza de que a Palavra lhe chamava para ser igual ao Criador — soou eficaz:

⏤ No princípio era o Verbo... O Senhor soprou-lhe as narinas e o fez um ser vivente. À sua imagem e de tríplice semelhança, Ele o fez! Nós, Suas criaturas, devemos então refletir a glória de nosso Pai celestial — encorajou o sacro Reverendo.

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⏤ Irmãos, foi o nosso Criador que formou a Terra e todos os animais selváticos, conforme a sua espécie. E viu Deus que era bom. — revelou o santo padre.

Ao ouvir aquela pregação, Taitale não conteve a felicidade. Correu solto pelos campos de Cuité. Quando viu tanta terra seca e tantos bichos mortos, lembrou-se do materno choro natimorto. Assim, pediu a Deus que lhe desse um sinal para confirmar qual seria a Sua imagem verdadeira.

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O menino parou debaixo de uma velha umburana que exalava o cheiro doce de uma colmeia de jandaíra, e ouviu a resposta para a sua petição:

⏤ Fogo-apagou! Fogo-apagou! Fogo-apagou! — cantava o passarinho em meio ao vale da depressão.

Deus o havia confirmado como Sua imagem, ensinando-o a desenhar a perfeição nas linhas tortas do destino; e, acaso falhasse numa ação descoordenada, repararia o registro e começaria tudo de novo.
Numa sintonia natural, o canto da ave lhe trouxe a lembrança de seu pai em seus dias de caçador. O pai o ensinara a fazer armadilha com “nó do carrasco” em pequenos barbantes, amarrados às cabeças de pregos. Enterravam os pregos no solo, cobrindo-os com um pouco de farelo do cuscuz. Escondiam-se por detrás de um coitizeiro, esperando as rolinhas descerem. O sol forte camuflava as armadilhas. As rolinhas desciam, bicando a terra em busca de alimento, mas, nos primeiros passos, tinham os pés presos em alguns dos laços espalhados pelo chão. Assustadas, se debatiam agoniadas, mas suas asas não tinham mais forças para alçarem o voo da liberdade.

Na oficina, o jovem Taitale entendeu a mensagem. Aplacou o sentimento que afligia o seu coração. Apertou os olhos arrependidos e agradeceu por estar vivo. Rogou ao seu Pai que o abençoasse no entalhe de suas mãos para poder ressuscitar aqueles seres que um dia tiveram vida abundante.
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Se não pudesse fazê-los falar, ao menos tivesse o dom de trazer um sorriso pequeno em algum rosto desalmado: fosse ao objeto inanimado, fosse ao sujeito observador, Taitale queria mudar a face da tristeza. Prometeu buscar beleza no esmero da forma, até que ela prevalecesse sobre o ambiente. Louvaria com sua arte Aquele com quem havia pactuado uma estética que sustentasse a formosura ao longo do tempo, indiferente ao conteúdo disforme que estivesse ao seu redor.

Depois das cabaças e gamelas, Taitale trazia, da madeira inerte, vida às borboletas, às flores e aos colibris, fazendo com que o decesso encarasse um belo quadro na tela da existência.

Deus o havia confirmado como Sua imagem, ensinando-o a desenhar perfeição nas linhas tortas do destino; e, acaso falhasse numa ação descoordenada, repararia o registro e começaria tudo de novo. Tinha consciência de que havia pactuado com o Artífice-Mor. A partir daquele instante, sua missão seria trazer contrariedade para a arte tumular, de tal modo que incomodasse a morte com um riso performático até a eternidade.

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Nos seus últimos dias na Escola de Aprendizes de Artífices, o artesão tinha conquistado notoriedade como mestre da oficina e foi convidado a entalhar o busto de Benjamin Constant. Com o grosso quinhão prometido, modelou a face da estátua sem nenhuma munganga, e não fez lundun do curto prazo da encomenda feita por Mestre Bernadelli.

Taitale frequentava os círculos de artistas parahybanos e era sempre indicado para ornamentar os casarões de veraneio nas praias da Capital. Essa atuação o aproximou de figuras de relevo da vida intelectual nordestina. Ainda assim, não era homem de posses, nem cercado de muitos afagos, mas gozava do respeito do povo, e isso lhe tinha grande valor.

Costumava ir ao Lyceu Parahybano, consertar mobílias datadas de 1830. Nessas ocasiões, cruzava com um tal poeta Augusto, a andar apressado no corredores da escola. Não fossem os latentes registros das letras modernas que pintavam um cenário elitizado nacional, Taitale seria o mais renomado artífice do eixo norte-sul brasileiro.

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Naquele centro de formação intelectual, ainda houve tempo de surgir um boato vindo da Rua Direita, de que o poeta somente teria tido “a inspiração” aos seus primeiros versos após vê-lo cabisbaixo com saudades de sua amada palmarense. Em excitado estado de arte e ofício, Augusto dos Anjos exaltou a impecável inspiração do labor sobre um birô de madeira, e publicou os seus primeiros versos soltos no jornal A União:

E quando a arvore, olhando a patria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!
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Diziam que fora Augusto quem aconselhou Taitale a voltar à sua terra, pois o artesão já gozava do merecido reconhecimento material da poesia. Foi o poeta do Pau d'Arco quem admoestou o artífice para que contraísse logo o matrimônio com Naucete. Deu-lhe até um poema como presente de casamento e lembrou a ele que, naqueles poucos tempos contados, tiveram início os primeiros registros em cartório no Brasil: era preciso dar nome ao menino.

Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! - Estas multidões Sonham pátrias douradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça — Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas!
Enfim, o pequeno Orací, a quem alguns chamavam previamente de “O Sonhador”, seria filho legitimado e oficializado de Taitale e Naucete: o homem retornou ao seu lugar de origem e contraiu matrimônio com aquela que o esperava.

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A Senhora Naucete continuava trabalhando na fazenda do Sinhô Sinom, enquanto o marido dedicava-se a atender uma clientela do mais exigente requinte e gabarito da oligarquia rural.

Sinom era mais um dos muitos coronéis de polainas que ocupavam vastas áreas, estendidas do Agreste aos rincões do Sertão. Nhá Perpétua, sua esposa, que supostamente havia rodado o mundo inteiro, dizia que o seu aconchego maior estava debaixo do escaldante e ensolarado céu cuiteense. Gostava de refrescar a cabeça, que fervia
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com ideias inventivas e outras caraminholas de rotina. Mandou construir uma marquise em frente ao hall de entrada da fazenda e um chafariz em cascata no centro do jardim. O patrão mandara trazer peças fundidas em bronze de Florença. Depois de pronto, a fonte aspergia gotículas sobre seus transeuntes. Como um exuberante oásis, todos se refrescavam em frente ao casarão.

Nhá Perpétua dizia à governanta, num acinte bem dosado, que se Taitale fosse tudo aquilo que o povo falava, ele seria contratado para fabricar uma estátua de Sinom. Iria dar a honra ao artesão de enfeitar o chafariz italiano. Uma escultura imponente, na entrada da mansão, de queixo elevado e com o dedo em riste, apontando para o gado nos currais.

Ao lado dela, o Coronel, orgulhoso, penteava o bigode, reclinando o corpo numa cadeira de balanço e numa satisfação desigual pela honra ao mérito alcançado. Deu dois tapinhas com o pente sobre as mãos e respondeu:

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⏤ Um dia ainda lhe pagarei essa gentileza, Perpétua. Um dia lhe darei a paga por tamanha recompensa. — repetiu, considerando a patuscada da mulher.

Quando a mulher viajava, fazia questão de lembrar de sua terra. Não era ardilosa como a jovem Ariane; e não seria a mais considerada da propriedade. Suas imperfeições faziam par perfeito com aquelas cortejadas por Sinom. Repreendia as serviçais sem nenhum motivo aparente e sobejava arrogância, resmungando em um francês mal falado, o que gerava despeitas e intrigas.

⏤ Uma tacanha moral. — diziam os empregados mais comedidos.

A madame improvisava um “sertanien” para falar da Belle Époque, preparando eventos para a elite local. Tinha uma extrema necessidade de vangloriar-se diante do seleto público da cidade e de suas redondezas, demonstrando que se relacionava, ao menos a cada seis meses, com a aristocracia parisiense. Dizia que não viajaria mais, por falta de tempo e porque, Ariane, sua filha, estava prestes a concluir o doutorado na Sorbonne.

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⏤ Vejam só, meninas! Finalmente teremos uma doutora de títulos e da palavra. Essa saberá dizer de cor e salteado o bê-á-bá do sertão e as suras do Alcorão. — esgarçando o sarcasmo que lhe lambia os beiços num lenço de seda Mulberry trazido de Lyon.

Ela fazia Naucete arrumar uma enorme mesa de madeira de lei, com utensílios de porcelana turca e talheres da prata inglesa para as reuniões com as senhoras feudais. A sua ama enfeitava o ambiente com prazer, sabendo que a ouviria arrotando um ensopado de pato europeu, com a
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boca cheia de novidades da moda feminina, em compras realizadas nas ruas da capital francesa.

Por trás das cortinas, as criadas teciam gracejos e falatórios com os hábitos da Sinhá europeia. Sussurravam que todo aquele luxo tinha sido trazido por Ariane, quando voltava das férias escolares, e que a patroa era tão sovina que guardava dinheiro em pote de compota debaixo do travesseiro. Troçavam pilhérias de que Nhanhá procurava peças nos mais antigos brechós, doadas pelas mademoiselles na Champs-Élysées para os fundos de caridade. Ela comprava espartilhos, vestidos, blusas de mangas longas de seda e chiffon; tudo numa pechincha sertaneja. Suas servas confidenciavam que tudo aquilo era para se mostrar; não era uma gastadeira de dinheiro, pois tinha apreço pelo dinheiro de verdade.

⏤ Uma pirangueira petulante e amostrada! Essa não vale um conto de réis. — diziam as serviçais, numa ousadia esclarecida.

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Era preciso a intervenção direta de Naucete, que apagava a brasa de uma fogueira prestes a arder em chamas. Às escondidas, ela mesma ria-se com o senso crítico das meninas, que sabiam muito mais do que a senhora do Coronel de polainas podia imaginar.

De certo modo, mesmo com seu estilo espalhafatoso e seu mesquinho espírito de ostentação, a esposa de Taitale gostava de sua patroa. Foi ela quem aprovou a sua admissão na propriedade, assim como sua ascensão ao posto de governanta. Apesar de todas as falhas, a seu modo, a patroa amparou a moça grávida e lhe deu algum conforto e segurança, enquanto a administradora aguardava o aconchegante abraço daquele que havia lhe assegurado proteção.

Tornava-se necessário remediar ânimos legitimados pela indignação oprimida ou pela humilhação opressora; sendo uma mulher de paz, haveria de se buscar o equilíbrio da convivência comum.
No próximo capítulo, um abuso quase consumado expõe o silêncio forçado que protege a violência dentro da fazenda. Dandara confia a Naucete um pedido desesperado: calar para sobreviver. Entre a indignação e a prudência, a governanta é levada a reviver a própria história, marcada pela promessa de liberdade e pelas contradições de um mundo que ainda insiste em explorar. Enquanto planeja lutar nas sombras, por si e pelos seus, surgem as memórias de uma infância entre privilégios ambíguos e a dura realidade do trabalho. O passado retorna para explicar a mulher que ela se tornou e preparar o caminho das escolhas que poderão mudar destinos.

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