No século XV , quando portugueses e espanhóis se aventuraram nas suas grandes expedições marítimas, os vínculos entre a Igreja e as co...

Como a religião chegou ao Brasil e um bispo paraibano afrontou o Império

dom vital paraiba
No século XV, quando portugueses e espanhóis se aventuraram nas suas grandes expedições marítimas, os vínculos entre a Igreja e as coroas ibéricas já estavam, há muito tempo, entrelaçados. Além do interesse econômico e geopolítico, aquelas explorações tinham também um caráter religioso com o objetivo de converter à fé cristã os povos das terras a serem conquistadas. Por conta do aspecto religioso do empreendimento, os papas concediam privilégios
dom vital paraiba
Papa Alexandre VI (1431–1503), pontífice entre 1492 e 1503, no auge das grandes navegações. Espanhol de origem, exerceu o papado com forte sentido político e diplomático, em um período marcado pela expansão marítima europeia.
extraordinários aos reis da Espanha e de Portugal que se manifestavam através de duas instituições que eram também, já naquela época, muito antigas: o Padroado e as Ordens Militares.

A origem do padroado remontava aos padroeiros ou patronos de igrejas na Idade Média, aqueles que construíam os templos ou que permitiam que eles fossem edificados em suas propriedades, com a contrapartida de que a indicação dos padres e a administração daquelas igrejas ficassem sob a sua influência. Com o decorrer do tempo, o padroado evoluiu para formas mais abrangentes, como a do padroado régio português. Para o historiador inglês Charles Boxer, “o padroado real português pode ser amplamente definido como uma combinação de direitos, privilégios e deveres concedidos pelo papado à Coroa de Portugal como patrona das missões e instituições eclesiásticas católicas romanas em vastas regiões da África, da Ásia e do Brasil”.

As Ordens Militares, que tinham como principal finalidade o combate aos povos não cristãos e que então eram chamados de infiéis, surgiram na época das Cruzadas, sendo a Ordem dos Cavaleiros
dom vital paraiba
dom vital paraiba
O Castelo de Tomar, fundado em 1160, foi sede da Ordem dos Templários em Portugal. Integrado ao Convento de Cristo, é um dos conjuntos medievais mais importantes do país. ▪ Fonte: Wikimedia
Templários uma das mais conhecidas. No século XIV, foi constituída em Portugal a Ordem da Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, mais conhecida como Ordem de Cristo, para aproveitar os bens da já extinta Ordem dos Templários. Em 1459, a Ordem de Cristo recebeu do papa Calisto III a concessão da jurisdição espiritual sobre as conquistas territoriais portuguesas. “Tinha, numa palavra, os mesmos poderes que os bispos têm em sua diocese”, como escreveu o bispo D. João Evangelista Martins Terra. A partir do final do século XV, o rei de Portugal tornou-se o grão-mestre da Ordem de Cristo à qual cabia arrecadar e aplicar os dízimos que incidiam sobre os produtos das terras conquistadas e um dos principais recursos financeiros da expansão colonial portuguesa.

A estreita relação entre a Igreja e a Coroa de Portugal no período das navegações de grande curso pode ser exemplificada pela segunda expedição portuguesa para a então chamada Índias (a primeira fora a de Vasco da Gama). A partida de Lisboa da esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral foi assim descrita pelo historiador Jaime Cortesão:

dom vital paraiba
Embarcações da armada de Pedro Álvares Cabral. Livro das Armadas (c.1568) ▪ Fonte: Academia de Ciências de Lisboa
“Chegado o tempo azado e prestes as náus para a partida, a um domingo, 8 de março de 1500, dirigiu-se D. Manuel, com tôda a sua côrte ao Restelo, onde já estavam as náus com as gentes de mar e de armas, para juntos ouvirem missa na ermida de Nossa Senhora de Belém [...] Finda a missa o bispo lançou a benção a Pedro Álvares e igualmente benzeu a bandeira de Cristo, que o Rei solenemente lhe entregou, colocando-lhe também na cabeça um barrete bento que o Papa lhe mandara. Depois fêz-se uma solene procissão de relíquias e cruzes, para acompanhar Pedro Álvares ao embarque”

A presença de 17 religiosos (8 frades franciscanos e 9 padres) na frota de Pedro Álvares Cabral dava à expedição um forte caráter religioso, além do que Cabral levava uma carta do rei português para o soberano de Calecute nos seguintes termos:

“[...] mandamos pessoas religiosas e doutrinadas na fé e religião cristã, também ornamentos eclesiásticos para celebrarem os ofícios divinos e sacramentos, para que possais ver a doutrina da fé cristã que temos, dada e instituída por Jesus Cristo Nosso Senhor, nosso Salvador [...]”
dom vital paraiba
A rota de Pedro Álvares Cabral em 1500, a caminho das Índias. ▪ Fonte: Wikimedia (adapt.)
Depois de um mês de navegação, a esquadra de Cabral se afastou da costa africana para evitar uma zona de calmaria que existia no Atlântico e, no desvio da rota, na busca de ventos e correntes favoráveis, se deparou com algas no mar que indicavam a proximidade de terras que já haviam sido “achadas” anteriormente pelos portugueses. É o que afirma Joaquim Veríssimo Serrão, um dos mais renomados historiadores lusitanos: “É quase certo que a região já fora abordada por nautas portugueses e que a viagem de Cabral não foi de ‘descoberta’ mas de ‘reconhecimento’”.

dom vital paraiba
Duarte Pacheco Pereira (c. 1460–1533), navegador, militar e escritor português, autor de Esmeraldo de situ orbis, obra fundamental da geografia náutica do seu tempo. ▪ Ilustração: Grandes Portugueses, 1954
Para o professor Carlos Guilherme Mota, “a questão do ‘descobrimento’ (ou achamento) do Brasil ficou esclarecida a partir das pesquisas do historiador português Joaquim Barradas de Carvalho (1920-1980)” a quem, nas palavras de Mota, “a historiografia luso-brasileira deve a revisão da temática do “descobrimento’ do Brasil”. As pesquisas de Barradas de Carvalho indicam que o navegador português Duarte Pacheco Pereira esteve no litoral brasileiro dois anos antes de Cabral. Barradas de Carvalho afirmou que seria “impossível saber com precisão se Duarte Pacheco Pereira se considerava como o descobridor do Brasil, ou sua viagem de 1498 não foi apenas um viagem de exploração de terras já conhecidas”.

Mas, voltemos à expedição de Pedro Álvares Cabral. Como cantava a marchinha de Lamartine Babo, “dois meses depois do carnaval”, a frota de Cabral chegava à costa brasileira. Na manhã do domingo de páscoa, foi celebrada uma missa com o acompanhamento de todos os religiosos da armada. Segundo registrou Caminha, o escrivão da expedição, durante a celebração da missa Cabral segurava a bandeira da Ordem de Cristo que ele havia recebido das mãos do rei D. Manuel, quando da partida da expedição em Belém.

dom vital paraiba
GD'Art
Naquela época, os portugueses estavam mais interessados nas especiarias que poderiam ser conseguidas nas Índias do que propriamente nos produtos existentes no litoral do Brasil, o que explica que, somente em 1516, segundo o historiador Ronaldo Vainfas, chegaria um primeiro grupo de franciscanos ao território brasileiro com a finalidade de conversão dos nativos. Apesar de os missionários terem conseguido de 20 a 30 batismos na sua missão, acabaram, ao final, trucidados pelos indígenas. O martírio desses frades fez com que, durante anos, fosse rara e meramente circunstancial a presença de religiosos no Brasil. O primeiro plano missionário efetivo só foi implementado, a partir de 1549, com a chegada à Bahia da expedição de Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil. Com ele vieram seis jesuítas, como passaram a ser chamados os padres da Companhia de Jesus. Tomé de Souza recebera do rei D. João III um Regimento no qual estavam indicadas as disposições que o monarca estabelecera para a sua atuação no governo, dentre elas uma que ressaltava a importância religiosa dada pelo rei ao empreendimento colonial:

“Porque a principal cousa que me moveo a mandar povoar as ditas terras do Brasil foi pera que a jente dela se comvertese a nossa santa fee catolica”.
dom vital paraiba
D. João III (1502–1557), rei de Portugal entre 1521 e 1557. ▪ Arte: Cristóvão Lopes (atr.), S.XVI, Ig. S. Roque, Lisboa.
Os religiosos estiveram presentes na colonização das terras brasileiras desde os primeiros tempos, inicialmente com a predominância do chamado clero regular, jesuítas, franciscanos, beneditinos, dominicanos, carmelitas, entre outros. Essa situação mudaria com o acentuado regalismo — soberania do Estado com relação à Igreja — implantado pelo Marquês de Pombal, o poderoso secretário do rei português D. José I. Para Charles Boxer, em A Igreja militante e a expansão ibérica, “o exagerado regalismo da segunda metade do século XVIII fez a balança pender para o lado do clero secular e dos bispos, porque estes estavam subordinados de modo mais estrito ao poder monárquico”. Em outra das suas obras, O Império Marítimo Português, Boxer escreveu:

“[...] sucessivos reis de Portugal agiram como se os bispos e o clero do ultramar fossem, em muitos aspectos, simples funcionários do Estado [...] Davam-lhes ordens sem nenhuma consulta a Roma, controlavam suas atividades e não raro legislavam sobre matérias eclesiásticas [...] Recusavam-se a reconhecer a validade de breves, bulas ou disposições papais relacionados a assuntos situados na esfera do Padroado, e que não tivessem sido aprovados pela Coroa portuguesa [...]”
A separação do Brasil do reino de Portugal não mudaria muita coisa. O artigo quinto da primeira Constituição brasileira determinava que “A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Imperio. Todas as outras Religiões serão permittidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior de Templo”. Dentre as atribuições do Imperador brasileiro, estabelecidas no artigo 102 da Constituição, estava a de
dom vital paraiba
Página da primeira Constituição do Brasil (1824), estabelecendo, no art. 5º, o catolicismo como religião oficial do país. ▪ Fonte: Biblioteca Nacional (BN)
“Nomear Bispos, e prover os Beneficios Ecclesiasticos” e, além disso, as bulas e outros documentos emitidos pelo Papa só teriam validade no Brasil após o beneplácito do governo. Em 1827, o Vaticano concedia ao Imperador Pedro I as mesmas regalias que haviam sido dadas ao rei de Portugal com relação ao padroado e à Ordem de Cristo.

Nos primeiros anos do período imperial, a interferência do governo nos assuntos da Igreja era de tal ordem que, em 1834, um Ato Adicional à Constituição considerava os religiosos católicos funcionários do Estado e determinava que competia às Assembleias a divisão eclesiástica da Províncias. Por essa época, foi proposto na Câmara um projeto que acabava com o celibato para o clero, uma vez que, segundo o historiador Basílio de Magalhães, “o governo sabia que não existia de facto” o celibato, “favorecendo enormemente tal estado de coisas a immoralidade publica”. A propositura alcançava os padres que o arcebispo da Bahia D. Romualdo de Seixas chamava ironicamente de “os noivos”. Oliveira Lima, em 1927, na sua obra O Imperio Brazileiro, discorreu sobre a situação:

dom vital paraiba
“Os clerigos, em geral, levavam uma vida, sinão dissoluta, pelo menos escandalosa, pois que a regra do celibato continuava a ser imposta pela Curia Romana aos bispos e parochos que o Estado considerava funcionários civis segundo o Acto Addicional. O governo da Regencia, neste ponto inspirado pelo padre Feijó, achava, e o ministro dos negócios estrangeiros, Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, o declarava em noto do anno de 1834 ao representante da Santa Sé no Rio de Janeiro, que os soberanos, nos seus respectivos Estados, podiam alterar a seu belprazer, em beneficio dos seus súbditos, pontos de disciplina como era o celibato clerical”.
As relações entre a Igreja e o Estado continuaram com discordâncias que eram invariavelmente relacionadas com a interferência do governo imperial em assuntos de caráter estritamente religioso. Para o engenheiro e historiador Pandiá Calógeras, em conferência proferida em 1928, “A Egreja, é evidente, não podia assentir, e nunca admittiu tal doutrina. Apenas tolerava a situação por amor á paz”.
dom vital paraiba
Gravura representativa do Concílio Vaticano I (1869-1970), com o Papa Pio IX ao centro. ▪ Fonte: Biblioteca do Congresso, EUA.
Na década de 1870, as deliberações advindas do Concílio Vaticano I agravariam as divergências, conforme a análise de Barbosa Lima Sobrinho:

“A crise era antiga e o conflito desde muito se vinha elaborando, como uma consequência da ausência de limites definidos, entre a autoridade temporal e a autoridade espiritual. Um fato concorreu para dar maior intensidade à divergência, precipitando-a: a declaração da infalibilidade do Papa, no Concílio do Vaticano, em 1870. No regime de religiões oficiais, esse novo dogma teria, forçosamente repercussão no domínio das prerrogativas e direitos do Estado [...] Na essência, á medida que se afastava do domínio temporal, ganhava a Igreja mais força, para reivindicar autoridade nas cousas do espírito”
Era previsível que, em determinado momento e por algum motivo, um conflito aberto grave ocorreria entre a Igreja e o Império, o que veio a acontecer por provocação de uma instituição que desde a revolução nordestina de 1817 assumira papel de relevo no país: a Maçonaria. Durante o século XIX, segundo Pandiá Calógeras, as correntes maçônicas europeias eram “políticas e demolidoras”, com forte propaganda antirreligiosa, e consideravam o Estado pontifício como “uma auctoridade a ser destruída”. Diferentemente do que ocorria na Europa, esse posicionamento antirreligioso não existia nas lojas maçônicas brasileiras às quais estavam filiados e ocupavam altos graus “numerosos sacerdotes, dos mais eminentes que nossa terra tem possuído”. Mas, ainda segundo Calógeras, as sanções que eram aplicadas pelo Vaticano aos maçons (dentre elas a excomunhão) não poderiam
dom vital paraiba
José Maria da Silva Paranhos (1819–1880), o Visconde do Rio Branco, político e diplomata mineiro, destacado pela atuação na política externa do Império. ▪ Foto: A. Henschel
“entrar em detalhes locaes, quando o fenômeno abrangia o mundo inteiro”. Desta forma, a participação nas entidades maçônicas estava também vedada aos católicos do Brasil.

No início de março de 1872, o que se esperava, enfim, ocorreu e uma fagulha incendiou as relações entre o Estado e a Igreja. Em uma comemoração realizada em uma loja maçônica do Rio de Janeiro, que tinha como grão-mestre o Visconde de Rio Branco, que era o presidente do Conselho de Ministros, um padre fez um discurso seguindo os ritos maçônicos e que foi publicado na imprensa local. Advertido pelo bispo do Rio para se retratar, o sacerdote se negou a abjurar a maçonaria e foi suspenso das ordens religiosas. Considerando-se atingidas pela decisão do prelado carioca, as lojas maçônicas passaram a promover ataques intensos contra o Episcopado. Segundo Calógeras, “de Norte a Sul, explodiu a campanha. Folhetos, jornaes, conferencias, de tudo se lançou mão contra o catholicismo”.

Foi nesse ambiente conflituoso que, em maio de 1872, desembarcou no porto do Recife o novo bispo de Olinda. A diocese, que abarcava as províncias de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, estava, há cerca de dois anos, sem bispo. O novo prelado era um frade capuchinho e, no ano anterior,
dom vital paraiba
Porto do Recife na década de 1870. ▪ Fonte: BN
quando um decreto imperial o designara para o bispado de Olinda, tinha apenas 26 anos de idade e foi o mais jovem sacerdote a ser sagrado bispo no Brasil. Mas, quem era, afinal, esse jovem religioso escolhido para dirigir uma diocese tão importante, a segunda que fora criada no país?

Seu nome civil era Antônio Gonçalves de Oliveira Junior e nasceu, em 1844, segundo Coriolano de Medeiros, no sítio Jaqueira, do engenho Aurora, em Pedras de Fogo. No engenho do pai, e em Itambé, aprendeu as primeiras letras e depois seguiu para o Recife para os preparatórios para ingressar no seminário de Olinda. Em 1862, após cursar o primeiro ano no seminário, decidiu continuar os estudos teológicos na França, onde se tornou o frade franciscano Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Seis anos depois, retornaria ao Brasil para ser professor de filosofia no Seminário Episcopal de São Paulo. Foi lá que ele recebeu, em maio de 1871, essa comunicação do ministro do Interior:

“Sua Magestade o Imperador tendo em vista as virtudes e o mérito reunidos na pessoa de V. S. decidimos, por decreto de 21 do corrente, nomear-vos bispo de diocese de Olinda, vaga pela morte de D. Francisco Cardoso Aires. Fazendo-vos esta comunicação, esperamos uma pronta resposta, a fim de podermos emitir em tempo oportuno pelo ministério do Interior a carta de apresentação [...]”
Para Frei Félix de Oliva, um dos principais biógrafos de Frei Vital, o imperador Pedro II com a escolha do novo bispo de Olinda pretendia demonstrar a sua gratidão à Ordem dos capuchinhos pelos relevantes serviços prestados ao Império e o frade paraibano, além dos seus méritos, era, na época,
dom vital paraiba
Papa Pio IX (1792–1878), pontífice entre 1846 e 1878, convocou o Concílio Vaticano I e proclamou o dogma da infalibilidade papal, marcando a reafirmação da autoridade da Igreja em meio às transformações do século XIX.
o único franciscano nascido no Brasil. Frei Vital relutou em aceitar o encargo chegando a escrever uma carta ao Papa Pio IX apelando que o “livrasse do ônus do Episcopado”. Em resposta, o pontífice o convenceu a aceitar o bispado:

“Os sentimentos manifestados em tua carta, amado Filho, firmemente nos persuadem de que, se bem que ainda não tenhas idade madura para o gravíssimo cargo episcopal, és realmente a ele chamado por Deus. O conceito humilde que de ti formas, o medo do formidável ônus, o cuidado em declinar de ti a dignidade oferecida, e ao mesmo tempo a plena conformidade às disposições do alto, assim como atestam idônea disposição de tua alma para assumir tamanho ofício, assim prometem que te hão de obter largamente os auxílio do céu”
Na sua primeira Carta Pastoral dirigida aos seus diocesanos, Dom Vital estabeleceu os parâmetros da sua missão episcopal:

“Segundo Sto. Agostinho a incumbência do Bispo é repreender os turbulentos, apoiar os fracos, instruir os ignorantes, estimular os remissos, increpar os desordeiros, humilhar os soberbos, pacificar os litigantes,
dom vital paraiba
Vital Maria Gonçalves de Oliveira (Dom Vital, 1844–1878), bispo de Olinda, uma das figuras centrais da Questão Religiosa no Império do Brasil, defendendo a autonomia da Igreja diante do poder civil.
socorrer os pobres, defender os oprimidos, aprovar os bons, sofrer os maus e amar a todos!”
Dois meses após assumir a diocese de Olinda, Dom Vital acabaria envolvido no ambiente conflituoso que confrontava a maçonaria e a Igreja no país. Uma missa em ação de graças em comemoração ao aniversário de uma loja maçônica programada para uma igreja no Recife foi, de forma sutil, cancelada pelo bispo. Foi o suficiente para que começassem ataques contra Dom Vital na imprensa local com o acinte de afrontar o prelado publicando nomes de padres e dirigentes de Irmandades que pertenciam à maçonaria. A decisão tomada pelo bispo também originou distúrbios de rua com invasão de um colégio jesuíta e o empastelamento de um jornal católico. Dom Vital conseguiu afastar quase todos os sacerdotes da maçonaria (exceto dois que foram suspensos) e muitos membros das Irmandades. Aquelas Irmandades que não cumpriram as ordens do bispo foram interditadas na parte estritamente religiosa. Uma delas, irresignada com a interdição, interpôs recurso à Coroa. Para o escritor Nilo Pereira, autor de Dom Vital e a Questão Religiosa no Brasil, “origina-se, aí, judicialmente, a Questão Religiosa, que se desloca da jurisdição canônica para a civil”.

dom vital paraiba
Charge da Revista Ilustrada (nº 45, 1/12/1876): o monsenhor Pinto de Campos é suspenso por Dom Vital, bispo de Olinda, por celebrar o casamento de um maçom. ▪ Fonte: BN
O recurso impetrado pela Irmandade, apesar de ser eivado de nulidades, “um acervo de iniquidades” segundo Oliveira Lima, foi recebido pelo Conselho de Estado que determinou a suspensão da interdição e pediu explicações ao prelado sobre o seu ato. Dom Vital se negou a cumprir a ordem e respondeu ao Conselho com essas palavras: “Não posso defender-me porque seria reconhecer a competência do Tribunal Civil em matéria religiosa”. Foi então determinada a prisão do bispo de Olinda e a sua transferência para o Rio, onde seria julgado. A ordem de prisão foi cumprida no palácio episcopal e Dom Vital se apresentou aos que vieram prendê-lo devidamente paramentado como se fosse celebrar uma cerimônia litúrgica. Semanas depois, Dom Macedo Costa, bispo do Pará, que adotara posições idênticas às de Dom Vital, também seria preso.

dom vital paraiba
Dom Macedo Costa (1830–1891), natural de Maragogipe, Bahia. Como bispo do Pará, foi defensor da autonomia da Igreja frente ao Estado e entrou em conflito com o governo ao punir irmandades ligadas à maçonaria, o que resultou em sua prisão, em 1874.
No Rio de Janeiro, a presença de Dom Vital no julgamento realizado no então Supremo Tribunal de Justiça foi registrada em uma crônica escrita pelo escritor Machado de Assis:

“Nenhum lutador mais impetuoso, mais tenaz e mais capaz que D. Vital, bispo de Olinda, e a impressão que este me deixou foi extraordinária [...] Vi-o uma só vez, à porta do Tribunal [...] A figura do frade, com aquela barba cerrada e negra, os olhos vastos e plácidos, cara cheia, moça e bela [...] com um grande ar de desdém e superioridade, alguma coisa que o faria contar como nada tudo o que se ia passar perante os homens” (A Semana, Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 1897, BN)
Dom Vital não atendeu a intimação para se manifestar no processo e recusou qualquer defesa. Escreveu nos autos apenas uma frase da paixão de Cristo retirada do Evangelho de Mateus: “Jesus autem tacebat” (Jesus, porém calava-se). A sentença condenatória fundamentava-se em artigo do Código Criminal do Império:
dom vital paraiba
Charge da Revista Ilustrada: Dom Vital na balança com o poder político.
“Obstar ou impedir de qualquer maneira o efeito das determinações do Poder Moderador e Executivo”. A pena imposta ao bispo paraibano foi de quatros anos de prisão com trabalhos forçados. Para Pandiá Calógeras, o imperador Pedro II, que não era maçom nem propriamente católico, considerava que “a resistencia dos bispos figurava como tríplice ofensa: á soberania nacional, á magestade do Imperio e á dignidade eminente do imperador”. O governo tentou conseguir no Vaticano, sem sucesso, uma reprovação ao comportamento de Dom Vital, que tinha a solidariedade do clero brasileiro e de religiosos de várias partes do mundo. O impasse permanecia e, como escreveu Calógeras:

“Os interdictos continuavam de pé, e máo grado esforços e tentativas de suborno, o Govêrno não encontrava quem executasse os decretos officiaes. Poucas páginas mais bellas e nobres se depararão na Historia nossa, de justa resistencia pacifica contra ordens temporaes violadoras da liberdade de consciencia e da superioridade espiritual das convicções”

Em fevereiro de 1875, uma carta encaminhada pelo Papa Pio IX ao imperador Pedro II concluía com essas palavras: “Liberte os Bispos e ponha termo a essa dolorosa história. É o que espero do generoso coração de V. M.”. Em setembro daquele mesmo ano, vinte e um meses após a prisão de Dom Vital, um novo ministério presidido pelo Duque de Caxias conseguia que o imperador afinal concordasse em anistiar os bispos, o que ocorreu
dom vital paraiba
Diogo Velho, político paraibano, natural de Pilar. Foi promotor público, ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e ministro da Justiça. ▪ Fonte: Wikimedia
por meio de um decreto com a assinatura do ministro da Justiça, o paraibano Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque.

Após a sua libertação, Dom Vital decidiu ir a Roma relatar, de viva voz, ao Papa os acontecimentos que haviam motivado a sua prisão, recebendo do pontífice total aprovação pelos seus atos. Permaneceu na Europa por quase um ano, aproveitando para tratar da sua saúde que estava debilitada e retornou a Pernambuco sendo recebido festivamente. Reassumiu a diocese tomando várias medidas importantes, dentre elas a reabertura do Seminário de Olinda, designando como seu reitor o padre Joaquim Arcoverde que, décadas depois, seria o primeiro cardeal latino-americano. Em uma visita pastoral pela sua vasta diocese, viajando a cavalo, a saúde de Dom Vital piorou, o que fez com que ele fosse para a França em busca de tratamento. Em razão das suas precárias condições físicas apresentou ao Papa uma carta de renúncia à diocese, que não foi aceita. Em julho de 1878, aos 33 anos de idade, Dom Vital faleceu em Paris. Machado de Assis escreveu ao tomar conhecimento do seu desaparecimento: “Ha uma certa nobreza no homem que se sacrifica por uma ideia, por uma crença [...] Não parecia homem de tempera para transacções; fez do habito mortalha e retirou-se”.

dom vital paraiba
Dom Vital ▪ Instagram: imagenscatólicas
Para o escritor Câmara Cascudo, Dom Vital “dividiu as águas. Pregou a independência, a soberania, o primado do espiritual [...] Previu a sabedoria da separação da Igreja na República [...] Livrou o bispo de ser funcionário público. Arredou a mitra de dentro das pastas ministeriais. Levantou a cruz peitoral do tapete político”. Na análise de Pandiá Calógeras, o conflito religioso que sacudiu o Brasil na década de 1870 e que teve Dom Vital como a figura proeminente foi um dos fatores que contribuíram para o esfacelamento do regime monárquico no país.

COMENTE, VIA FACEBOOK
COMENTE, VIA GOOGLE
  1. Ótimo artigo. Parabéns 👏🏽👏🏽👏🏽

    ResponderExcluir

  2. Parabéns, Flávio. Mais uma vez nos surpreendendo com tantas informações históricas importantes e desconhecidas, mesmo por alguns especialistas no tema.
    Sérgio Rolim

    ResponderExcluir

leia também