Nem toda dor requer silêncio. Algumas passam, outras permanecem… outras nos transformam. A dor na poesia – sonetos nasce desse território onde a experiência deixa de ser apenas ferida e se converte em linguagem.
Alguns me conhecem pela escrita do cordel, pela declamação, pela defesa da identidade nordestina. Mas, antes, vieram os versos livres e os sonetos.
Raniery Abrantes ▪️ Acervo do autor
Minha formação literária moldou-se no diálogo com a tradição: o cordel ampliou minha voz; o soneto estruturou meu pensamento poético. Este livro representa um retorno consciente à forma clássica do decassílabo, não como exercício de nostalgia, mas como reafirmação estética. Nesta obra, a dor não é apenas grito. É estudo e construção. Não é desabafo… é elaboração.
Escolhi, conscientemente, a dor como eixo temático porque ela é uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais íntimas do ser humano. Amor e dor caminham juntos desde sempre.
Quanto ao soneto, é forma que me impõe, sobretudo, disciplina. A métrica organiza o que, dentro, poderia ser dispersão. A rima cria tensão e equilíbrio. A estrutura me obriga a pensar cada palavra. Nada está solto. Tudo se alinhava.
Em “Viagem”, apresento uma travessia simbólica que é também interior:
Um dia, viajei pelas alturas…
Vi, embaixo, florestas, catedrais.
GD'Art
Oceanos e grutas abissais,
Escultores e suas esculturas.
Vários povos, incríveis criaturas…
Purgatórios, infernos e umbrais.
Senti desejos lânguidos, carnais,
Cenários que ensejavam aventuras.
Pelos mares, perdido, naveguei,
Pelas ilhas, ferido, me curei,
Silente, procurei por meu espaço.
Em rios e cascatas me banhei,
O destino furtivo alinhavei,
E me achei no sorriso de um palhaço.
Essa viagem não é apenas geográfica ou imaginária; é um deslocamento interno. Perder-se, ferir-se, curar-se, procurar outro espaço: tudo converge para um reencontro inesperado, e o sorriso do palhaço sintetiza essa descoberta de que a verdade humana muitas vezes habita a contradição.
Já em “A dor que mora em mim”, a dor surge como presença silenciosa, constante, estruturante:
A dor que mora em mim não tem um nome,
Não grita, não se mostra em solo aberto.
É sombra que caminha em campo incerto,
El Mehdi Rezkellah
É algo sem sentido e me consome.
Não sei de onde vem, mas me carcome,
E cresce vagarosa em meu deserto.
É fera que não quero ver por perto,
Vagueia nua, nunca mata a fome.
A dor que mora em mim não tem um nome,
Não grita, não se mostra em solo aberto,
É algo sem sentido e me consome.
Não sei de onde vem, mas me carcome,
E cresce vagarosa em meu deserto,
Vagueia nua, nunca mata a fome.
Não há excesso. Não há teatralização. A dor não precisa gritar para existir. Ela se instala, caminha, consome e, ao mesmo tempo, me obriga a compreendê-la.
A dor na poesia – sonetos é, para mim, fruto de travessia e partilha. São dores que superei, dores que guardei em silêncio e dores que talvez nunca desapareçam completamente,
El Mehdi Rezkellah
mas que aprendi a transformar em versos, ritmos, arquiteturas e palavras.
Ao leitor, peço apenas uma leitura atenta (não isenta de críticas), pois não escrevi este livro para comover superficialmente, mas, pretensiosamente, para tocar onde a experiência humana é comum a todos nós.
Por fim, registro aqui a minha gratidão ao professor Milton Marques Júnior (meu antigo professor do ensino médio), cujo prefácio rigoroso e generoso amplia o horizonte crítico da obra e a insere com lucidez no diálogo com a tradição lírica do soneto (captou bem a influência do nosso maior gênio poético: Augusto dos Anjos).
À poetisa Annecy Venâncio, pelo posfácio sensível e profundo (me fez chorar várias vezes), que iluminou as camadas mais íntimas desta escrita e compreendeu o que nela é elaboração, necessidade e redenção.
À jovem artista Sofia César (grata revelação), pelas ilustrações delicadas, dialógicas e viscerais, que captaram a essência dos poemas e lhes ofereceram uma dimensão visual igualmente reflexiva.
E à Editora Sanhauá, pela confiança, paciência, cuidado editorial e compromisso firme com a literatura do nosso “pequeno torrão”.