Eu tinha 12 anos , a idade atual do meu neto, quando atravessei a rua em busca da Biblioteca Pública de Pilar. Juracy, a atendente, afa...

O caçador de mosquitos

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Eu tinha 12 anos, a idade atual do meu neto, quando atravessei a rua em busca da Biblioteca Pública de Pilar. Juracy, a atendente, afagou-me os cabelos antes de sugerir e me emprestar “O caçador de mosquitos”, do mineiro Clemente Luz. Esqueci por décadas o nome desse autor, mas nunca o que ele contou em 117 páginas.

O menino que então eu era impressionou-se, profundamente, com os cuidados e os saberes de Dengão. O aumentativo trai a pouca idade do personagem central, um estudioso do tema,
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um guri aplicadíssimo no trato dos riscos para a saúde humana decorrentes da picada de insetos. Coitada de Juju, a quem a dengue pegou para valer. Pois bem, o pequeno sábio não apenas identificou o culpado como ainda mobilizou a meninada para a eliminação daqueles focos em água parada na pracinha onde todos brincavam.

Mas é o vaga-lume, um inseto do bem, que me traz a lembrança de Dengão, seus amigos e suas providências. Na parte mais lúdica da trama, nosso heroi improvisa uma lanterna natural, um frasco cheio deles, para iluminação de trilhas noturnas. Meus cabelos brancos não me tiraram a adoração por esse bichinho. O menino que habita a minha alma – acho que todos, em diferentes graus, ainda trazemos conosco a criança que fomos – confere a cada pirilampo, assim também chamado, o prestígio das abelhas que produzem mel e própolis e polinizam 90% dos alimentos do mundo.

Encanta-me a missão instintiva desses bichos que pulam e voam. Borboletas e mariposas também servem à polinização sem a qual não há reprodução de flores e sementes úteis aos sistemas alimentares.
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A joaninha, a vespa, o louva-a-deus são caçadores eficientes e ajudam no controle de pragas. Na fase de larva, os vaga-lumes são predadores vorazes. Têm cardápio com lesmas e vermes. Adultos, podem visitar flores, mas focam mesmo é na reprodução. Cometem, então, o milagre de acender o rabo, ou o peito, a depender de cada espécie. Contam que há no mundo inteiro mais de 3 mil delas, a maioria habitando o Brasil.

São insetos do bem, repete a criança que trago na alma. É um bicho como qualquer outro e com seu papel bem definido na Natureza que o aprimorou em benefício do equilíbrio ambiental, replica o idoso que me tornei. Ainda bem que meu menino ganha essa briga.

Tenho três filhos, o mais novo já passado dos 35 anos. Quando pequenos, descíamos da serrana Areia, a caminho de casa, ocasião em que estacionei à margem da estrada, ali construída em zigue-zague, para a contemplação de vaga-lumes ao cair da noite. Saímos do carro e nos pusemos, encantados, sob o pisca-pisca de milhares deles, até o frio nos empurrar de volta aos nossos assentos, de onde a mãe não se arredou ao optar pelo mesmo e hipnótico
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espetáculo com os vidros erguidos. “É assim que namoram. Quando gostam da cor e da duração do liga-e-desliga as fêmeas respondem aos machos na mesma frequência e os casais se formam”, expliquei aos meus pirralhos.

Afirmo que desde então nunca mais vi tantos vaga-lumes no mesmo lugar e a um só tempo. Pesaroso, sou informado de que eles estão desaparecendo, em escala planetária, em razão de problemas sucessivos. Isso inclui perda de habitat, uso mais extensivo de pesticidas, mudanças climáticas e poluição luminosa. Entre os pesquisadores há os certos de que metade da população mundial de pirilampos terá desaparecido nos próximos 30 anos. Que absurdo!

Pesquisa que há pouco fiz responde-me que Ziraldo, também mineiro, detinha admiração profunda por Clemente Luz, em virtude, notadamente, de livros inscritos nos gêneros didático e infanto-juvenil. Ziraldo foi leitor devoto de obras como “Bilino e Jaca, o Mágico”, “Infância humilde de grandes homens”, “Aventura da bicharada” e “Pedro Pipoca”. E aplaudiu o autor de “Invenção da Cidade” (uma coletânea de textos adultos sobre a criação e o cotidiano de Brasília), “Ombros caídos” e “Minivida”.

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De Clemente Luz, nascido em Delfim Moreira, no ano de 1920, conta-se que se estabeleceu em Brasília antes mesmo da sua inauguração oficial. E que deixou este mundão de Deus, em 1999. Foi o primeiro a distribuir o “Jornal do Brasil” na nova Capital da República, foi redator e colunista do “Correio Braziliense” e da Empresa Brasileira de Notícias, a EBN. Na Rádio Nacional de Brasília, seus artigos e crônicas eram lidos, diariamente, para os operários encarregados da edificação da cidade.

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Clemente Luz, cronista e escritor ligado à formação cultural de Brasília, ativo sobretudo nas primeiras décadas da capital federal.
O autor de cujo nome eu me havia esquecido até a procura recente e infrutífera por seu “O caçador de mosquitos”, teve a seu serviço Victor Filho, um dos mais importantes ilustradores brasileiros de livros didáticos e infantis. Este último também fez carreira nos Quadrinhos, com passagens marcantes pela Ebal (a Editora Brasil-América) e a Outubro, ora ilustrando clássicos do gênero ora desenvolvendo personagens próprios. “Capitão Tarumã”,
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Correio da Manhã (RJ), 1964
uma de suas tiras mais difundidas, teve roteiro de Barbosa Lessa, figura central do Movimento Tradicionalista Gaúcho.

O aplicativo de Inteligência Artificial a quem recorri em busca de “O caçador de mosquitos” não sabe de reedições da obra lançada, em 1953, com o selo da Agir Editora. Recomendou-me, então, buscas em livrarias e sebos. Uma pena...

A imagem da lanterna viva, feita com vaga-lumes, ajudou a imortalizar esta cena no imaginário dos leitores de Clemente Cruz. Mérito, também, de Victor Filho. Clássico da leitura infantil brasileira e ainda estudado academicamente, a crer-se na segurança das minhas fontes, o livro que eu procuro tem, infelizmente, o sumiço dos vaga-lumes. Ah, sim, Juju curou-se e os pirilampos foram soltos depois da iluminação daquelas noites.

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