A poesia de Augusto dos Anjos ocupa um lugar singular - e até hoje desconcertante - no panorama da literatura brasileira. Publicado em...

A Filosofia na poesia de Augusto dos Anjos

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A poesia de Augusto dos Anjos ocupa um lugar singular - e até hoje desconcertante - no panorama da literatura brasileira. Publicado em 1912, o Eu permanece como um corpo estranho no cânone: um livro que parece destoar de seu tempo, mas que, paradoxalmente, o atravessa com uma lucidez brutal. Nele, a poesia deixa de ser refúgio estético ou exaltação lírica para se tornar campo de investigação ontológica, laboratório verbal onde se examinam, sem anestesia, a matéria, a morte, a consciência e a falência do sentido. Ler Augusto dos Anjos é, antes de tudo, enfrentar uma filosofia em versos.

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Desde o primeiro contato, percebe-se que sua poesia não se limita a tematizar questões filosóficas; ela pensa poeticamente. O poeta não usa a filosofia como ornamento cultural, mas como nervo estrutural de sua linguagem. Seu verso é atravessado por um materialismo radical, de feição científica, que dialoga com o positivismo, o evolucionismo darwinista e o determinismo do final do século XIX. No entanto, essa matriz científica não se traduz em otimismo progressista. Ao contrário: em Augusto dos Anjos, a ciência não redime; ela aprofunda o abismo.

A matéria, em sua poesia, é o princípio e o fim de tudo. O homem não é alma em trânsito para o absoluto, mas carne degradável, soma de átomos, proteínas e vermes em potência. O famoso verso - “A mão que afaga é a mesma que apedreja” - sintetiza essa visão trágica da condição humana: não há elevação moral garantida, pois o sujeito está submetido às mesmas leis físico-químicas que regem a decomposição dos cadáveres. Aqui, a filosofia que se insinua é um materialismo pessimista, próximo, em espírito, ao de Schopenhauer, embora filtrado por uma linguagem científica e por uma sensibilidade profundamente nordestina.

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A morte, em Augusto dos Anjos, não é evento metafísico, mas processo biológico. Ela começa antes do último suspiro, infiltrando-se na vida como entropia, desgaste, corrosão. O poeta dissolve a fronteira entre o vivo e o morto: o homem é, desde sempre, um cadáver em preparação. Essa concepção rompe com a tradição romântica da morte sublime e também com o simbolismo espiritualizante de seus contemporâneos. O que resta é uma ontologia da ruína, na qual existir equivale a apodrecer lentamente.

No entanto - e aqui reside a complexidade filosófica de sua obra -, esse materialismo não elimina a angústia metafísica. Pelo contrário, ele a intensifica. Se tudo é matéria, por que a consciência sofre? Se o homem é apenas um arranjo provisório de moléculas, de onde nasce a dor moral, a culpa, o desespero? A poesia de Augusto dos Anjos é atravessada por essa contradição irresolúvel: um corpo que a ciência explica, mas uma consciência que ela não consola. Nesse ponto, sua poesia se aproxima do existencialismo avant la lettre, antecipando inquietações que só ganhariam nome décadas depois.

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A linguagem é outro eixo essencial dessa filosofia poética. O vocabulário técnico - termos médicos, químicos, anatômicos - não é gratuito nem exibicionista. Ele funciona como estratégia de desidealização do lirismo. Ao nomear o mundo com palavras duras, ásperas, anti-musicais, o poeta recusa a beleza fácil e impõe ao leitor uma ética do desconforto. O verso torna-se espaço de conflito entre forma clássica (sonetos rigorosos, métricas precisas) e conteúdo corrosivo. Essa tensão revela uma consciência estética aguda: Augusto dos Anjos não destrói a forma; ele a contamina.

Do ponto de vista filosófico, essa escolha formal sugere uma visão trágica da ordem. Há estrutura, há métrica, há disciplina - mas tudo isso serve para conter, provisoriamente, o caos da existência. A forma clássica funciona como jaula para o desespero. O poeta sabe que a linguagem não salva, mas ainda assim insiste nela, como último gesto de resistência contra o silêncio absoluto da matéria.

Também não se pode ignorar a dimensão ética dessa poesia. Embora profundamente pessimista, ela não é indiferente. Ao revelar a miséria ontológica do homem, Augusto dos Anjos
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desmonta as ilusões de grandeza, orgulho e transcendência fácil. Sua filosofia poética é, nesse sentido, uma pedagogia cruel: ensina-nos a olhar para o humano sem véus, sem consolos metafísicos, sem promessas de redenção. O choque que sua poesia provoca não é mero efeito estético, mas um convite - ainda que doloroso - à lucidez.

Assim, a filosofia na poesia de Augusto dos Anjos não se organiza como sistema, mas como experiência. Não há tese final, nem síntese conciliadora. O que existe é um pensamento em estado de combustão, um lirismo que se recusa a mentir. Sua obra permanece atual justamente porque expõe, com rigor implacável, a fratura entre o saber científico e a necessidade humana de sentido - fratura que continua a definir a condição moderna.

Augusto dos Anjos é, portanto, um poeta-filósofo da decomposição: da carne, das ilusões, das certezas. Mas é também, paradoxalmente, um dos mais honestos pensadores do humano em nossa literatura. Sua poesia não oferece respostas; ela nos obriga a sustentar a pergunta até o fim.

Versos íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de sua última quimera. Somente a Ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!

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