Há dores que não se explicam — reconhecem-se. A minha tem nome, Matheus, idade e uma ausência definitiva: um filho assassinado aos 16...

Meu enxergar sobre o filme ''Hamnet - a vida antes de Hamlet''

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Há dores que não se explicam — reconhecem-se. A minha tem nome, Matheus, idade e uma ausência definitiva: um filho assassinado aos 16 anos. Tem tempo suficiente para saber exatamente o que significa enterrar um filho e continuar respirando com o peito em ruínas, apesar de ter certeza que é preciso continuar dividida entre dois mundos.

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Ana Paula Cavacalnti com seu filho Matheus, que desencarnou com 16 anos, vítima de homicídio culposo ▪️ Acervo da autora
No escuro da sala de cinema, assistindo a Hamnet (2025), de Chloé Zhao, não mergulhei apenas no filme que se projetava na tela, vi um espelho sensível, silencioso e quase sagrado, refletindo o viver de quem sentiu a dor da morte de um filho. Cada cena parecia tocar um território que só quem vive esse misto de luto e melancolia incurável, no seu estado mais antinatural, conhece. Porque perder um filho é isso: um rompimento da ordem do mundo.

A narrativa, centrada em Agnes, interpretada com memorável delicadeza por Jessie Buckley, não grita. Ela sussurra — e talvez por isso doa tanto.

A dor retratada não é espetáculo; é presença constante, densa, transformadora. Vi naquela mãe a travessia que conheço tão bem: o vazio que se instala, o tempo que perde sentido, a tentativa quase instintiva de continuar vivendo quando tudo em nós quer parar.

A apresentação do filme diz que ele “explora o luto da família Shakespeare” e mostra “a transformação do sofrimento em arte”. E é exatamente isso que me atingiu em cheio. Visto que
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Cena do filme Hamnet ▪️ Créditos: Agata Grzybowska /// Focus Features LLC
há dores que só encontram algum respiro quando se transformam — em palavra, em memória, em gesto, em silêncio respeitoso. A arte, do enredo , não cura, acolhe. Não apaga a perda, lhe dá um lugar onde repousar por ínfimos minutos.

A trilha melancólica de Max Richter que embala a história de Hamnet, também pode ser a das “órfãs de filho”.

Saí do cinema em lágrimas, sim — mas lágrimas que não eram só de tristeza. Eram de reconhecimento. De saber que, mesmo separadas por séculos, mães enlutadas falam a mesma língua: a do amor que não morre. Eu pari três filhos. Tenho três filhos e não apenas dois. Matheus, como HAMNET, apenas atravessou a porta para outro universo.

Naquela sala, compreendi novamente que o luto e a melancolia da mãe que tem seu coração amputado não têm fim, mas podem ganhar forma.

Felicidade não é um local para se chegar.

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Cena do filme Hamnet ▪️ Créditos: Agata Grzybowska /// Focus Features LLC
É antes de tudo a forma como as coisas são encaradas, é o olhar sobre a vida, é como se lida com acertos e erros; alegrias e tristezas; admiração e decepção; vitórias e derrotas; enfim, o lado bom e lado ruim do viver.

Fortaleci minha certeza que às vezes, um filme não é apenas uma película que retrata um texto escrito, uma experiência vivida, pode ser um encontro profundo com aquilo que somos depois da perda.

Se você não assistiu, assista. Tenha sua visão sobre o filme e comente aqui.


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