Há dores que não se explicam — reconhecem-se. A minha tem nome, Matheus, idade e uma ausência definitiva: um filho assassinado aos 16 anos. Tem tempo suficiente para saber exatamente o que significa enterrar um filho e continuar respirando com o peito em ruínas, apesar de ter certeza que é preciso continuar dividida entre dois mundos.
Ana Paula Cavacalnti com seu filho Matheus, que desencarnou com 16 anos, vítima de homicídio culposo ▪️ Acervo da autora
A narrativa, centrada em Agnes, interpretada com memorável delicadeza por Jessie Buckley, não grita. Ela sussurra — e talvez por isso doa tanto.
A dor retratada não é espetáculo; é presença constante, densa, transformadora. Vi naquela mãe a travessia que conheço tão bem: o vazio que se instala, o tempo que perde sentido, a tentativa quase instintiva de continuar vivendo quando tudo em nós quer parar.
A apresentação do filme diz que ele “explora o luto da família Shakespeare” e mostra “a transformação do sofrimento em arte”. E é exatamente isso que me atingiu em cheio. Visto que
Cena do filme Hamnet ▪️ Créditos: Agata Grzybowska /// Focus Features LLC
A trilha melancólica de Max Richter que embala a história de Hamnet, também pode ser a das “órfãs de filho”.
Saí do cinema em lágrimas, sim — mas lágrimas que não eram só de tristeza. Eram de reconhecimento. De saber que, mesmo separadas por séculos, mães enlutadas falam a mesma língua: a do amor que não morre. Eu pari três filhos. Tenho três filhos e não apenas dois. Matheus, como HAMNET, apenas atravessou a porta para outro universo.
Naquela sala, compreendi novamente que o luto e a melancolia da mãe que tem seu coração amputado não têm fim, mas podem ganhar forma.
Felicidade não é um local para se chegar.
Cena do filme Hamnet ▪️ Créditos: Agata Grzybowska /// Focus Features LLC
Fortaleci minha certeza que às vezes, um filme não é apenas uma película que retrata um texto escrito, uma experiência vivida, pode ser um encontro profundo com aquilo que somos depois da perda.
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