Esse é o nome de um quarteirão , ou alguns, em Tambaú, reduto que foi o lugar da juventude nos anos 80. Lugar de boemia, de encontro...

O Baixo Tambaú

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Esse é o nome de um quarteirão, ou alguns, em Tambaú, reduto que foi o lugar da juventude nos anos 80. Lugar de boemia, de encontros e transgressões. Lugar onde também pontos de cultura e comportamento se estabeleciam. O Bloco das Virgens, no Bar do Convívio, é um exemplo. Bares como o Boiadeiro, Travessia, O Quintal, o Peniqueiral, o Bar da Xoxota, o Do Meu Cacete, o Do Pau Mole (vale conferir os nomes!) e tantos outros. O Última Sessão, que depois virou O Apetitto (sede do Bloco As Piabas, posteriormente), com seus pratinhos nas paredes. As calçadas cheias de jovens.
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Praia de Tambaú, anos 70, em J.Pessoa-PB ▪️ Instagram: @joaopessoabrasil
A Peixada, o Chinês, a Lanchonete Natural, e a boemia correndo solta. O Empório Café fez e faz onda ainda. Ricky Mala, Suzy Lopes e seus Saraus Poéticos, e Toinho Matos, que também movimenta o Carnaval. Tudo junto mesmo.

Em 1979 e 1980, eu morava no Ed. Gravatá, no Cabo Branco, e ia perambular pelos bares do Baixo Tambaú de bicicleta. Lá encontrava minha tchurma. Os recém-separados e solteiros, disponíveis para horários e pequenas farras. Ouvir Pink Floyd, George Benson, Tim Maia, umas cervejas, e dançávamos também, improvisávamos coisas. Boas coisas. Fazer um som na casa de um, dar risadas, e umas esticadas e saideiras. Voltava de bicicleta para casa. Sozinha. Numa Tambaú que não oferecia perigo, ou pelo menos eu não tinha medo. Cantava Amor Febril!

Com o tempo, veio uma igreja, Santo Antônio, e uma missa concorrida. A Feirinha, bem feinha, e começou um abandono, e foi virando ruas sujas, abandonadas e com drogados a céu aberto.

Por esses dias, fui passear pelo Salão de Artesanato, no estacionamento do Hotel Tambaú. Já tomei um susto ao ver que o Salão existe há mais de 40 anos. E fui e vou a todos. Adoro! Quando meu companheiro, Julio Rafael, era superintendente do Sebrae, eu o acompanhava nas formalidades e aberturas oficiais. Hoje vou como sempre fui,
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Hotel Tambáu, em J. Pessoa, atualmente interditado ▪️ Foto: ALCR
anônima e saltitante, conversar com os artistas: Dadá Venceslau, Chico Ferreira e Geo. Uma renda aqui, uma panela de barro acolá, um presentinho também. Como já vou há mais de 40 anos, o que gosto mais, já tenho.

No caminho, ao chegar em frente ao Hotel Tambaú, dá vontade de chorar. Lembro quando esse lugar foi inaugurado: o meu pai, que entendia de geografia (era agrimensor), achou errado. Ninguém deveria se atrever com a natureza! Respeitá-la, sim. Mas eu, quando ia ali — e fui muito — para a piscina, almoço, cinema, boutiques, eventos de trabalho ou festas, boate, ficava maravilhada com a audácia do lugar, sua arquitetura, com a área da piscina. Era linda! A imponência do espaço, com as redinhas como cadeiras e a vista do mar. Hoje, um equipamento abandonado. Uma beira-mar tomada e invadida pela falta de respeito à natureza, pelo bicho Homem.

Parei o carro por ali e fui caminhando. O cheiro de xixi, as calçadas quebradas, a banca de revista que sumiu, o mercado de peixe, feio e malcheiroso. A feirinha com cheiro de fritura, um camelódromo a céu aberto. E depois que vimos os esgotos nas praias e os restaurantes autuados pela higiene, já não sabemos mais sobre turismo responsável.

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Ilha de Areia Vermelha (Cabedelo-PB) ▪️ Facebook: @areiavermelha
A cidade virou moda! Cresceu desorganizadamente. Não tem rua para tanto carro. Se encheu de hotel. Propaganda de Areia Vermelha, para a gente ficar assistindo aos descalabros do engarrafamento das lanchas, churrasco e sujeira no mar. Pobres peixes! Quando eu lembro que íamos para esse paraíso de bote e ficávamos naquelas pedras e naquele santuário, uns gatos-pingados, respeitando o silêncio e a beleza… me dá dó. E saudade! Ainda bem que conheci tudo isso nos bons tempos dessa cidade pequena. Não tenho nada contra progresso e desenvolvimento. Pelo contrário, torço pela minha cidade. E hoje gosto de viver aqui. E das iniciativas que deram certo. Mas tem coisas que nos dão tristeza e indignação.

O meu Bessa, que era um lugar bucólico, deserto, longe e silencioso, virou uma fila de carros dia e noite. A praia lotada de sombrinhas alugadas e caras. Serviços precários, cerveja quente. Vi pelos posts nas mídias que a praia do Cabo Branco, onde morei por esses longos dez anos, nos anos 70, e tinha aquela paisagem linda e preservada — sabíamos quem morava onde — hoje é uma calçadinha suja, lotada de barracas igualmente sujas e com cheiro de óleo reutilizado à exaustão.

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Enseada da Praia do Cabo Branco ▪️ Cacio Murilo/MTur (DP)
O Baixo Tambaú, o Cabo Branco e tantos outros lugares pedem atenção. Neste verão, eu estou enfurnada em casa. Sim! O tempo passou/passa, mas a cidade se desencarrilhou! Carro, nem pensar: já bastam as horas que passamos durante a semana paralisados no Retão de Manaíra e os seus consertos à luz do dia e outros caminhos.

E é porque não cheguei ao Centro. Assunto para outro texto. Mas já adianto: ruas abandonadas. Prédios pichados e sujos. E uma recuperação daquilo tudo levaria décadas, trabalho de uma vida inteira. Oremos!

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