Há aproximadamente 7 milhões de anos viveu a espécie Sahelanthropus tchadensis, cujo traço principal foi o início do bipedismo. Em uma curva lenta de desenvolvimento, entre 4 milhões de anos surgiu a espécie Australopithecus afarensis, cujo bipedismo era mais desenvolvido e ainda conservava traços marcadamente primatas. Entre 2 milhões de anos surgiria a espécie do gênero
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Homo, sendo o Homo habilis o primeiro a fabricar ferramentas com pedra lascada. O Homo erectus, há cerca de 1 milhão de anos, domina o fogo e seria o primeiro a migrar entre as estepes africanas para o território da Ásia e da Europa, espalhando-se. Dessa migração, há aproximadamente 400 mil anos, surgiria o Homo neanderthalensis, cujo corpo é mais robusto; começa a fabricar roupas, além de enterrar os mortos, criando grupos ou clãs, normalmente de trinta membros, tendo um princípio de organização social. E, por fim, nos últimos 300 mil anos, aproximadamente, surgiu o Homo sapiens, com linguagem, pensamento e simbolismo artístico mais robustos.
Os nossos ancestrais aprenderam a caminhar sobre duas patas, liberando as outras duas para o manuseio, aprendendo a pinça e, desse modo, especializando os pés e as mãos. Essas características modularam uma mudança comportamental no modo de interagir com o meio ambiente. Numa curva lenta de experimentação, a espécie aprendeu, através do manuseio de pedras, galhos de árvores, entre outros, a arte
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da transformação, criando as primeiras ferramentas. E a grande descoberta do fogo trouxe luminosidade, calor e proteção para uma espécie frágil em um mundo profundamente hostil e selvagem. Em posse de ferramentas e aprendendo a manejar o fogo, nossos ancestrais migraram e se espalharam, criando um contexto de maior especialização, com um princípio de ordem social e uma linguagem cada vez mais sofisticada. Os ritos de sepultamento dos mortos, o cuidado com os doentes e idosos, a caça coletiva e a organização doméstica atestam que nossos ancestrais, nessa fase, estreitavam vínculos emocionais e simbólicos entre si e o mundo.
Desse desabrochar vieram as pinturas rupestres. Nasceram como flores num campo fértil. Kósmos, do grego (κόσμος) — ordem, beleza — estruturava-se como narrativa visual nas paredes das cavernas. A espécie humana ritualizava conteúdos de ordem fenomênica, dando-lhes ordem, beleza e forma — em um ato de fundação. As primeiras epopeias, os primeiros poemas, os primeiros mitos estavam pulsando no interior das cavernas. A caverna, aqui, metáfora da mente e do coração humano, como das instâncias do inconsciente — também a caverna física, a morada, o lugar onde a vida do animal floresce — representa o *éthos* (ἦθος), o modo de ser essencial do humano.
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Seria o modo de ser essencial do humano a capacidade criativa e consciente de dar forma, ordem e beleza ao mundo das formas? Para Martin Heidegger, o humano é um ente lançado para o mistério do ser. É o Dasein (ser-aí) a pura presença. Essa condição permite ao humano ser ente histórico, com condições de fazer arte, música, poesia, em suma, de ritualizar, criando um cordão de Ariadne dentro de um labirinto kafkaniano em busca do Ser. Seria a jornada dos nossos ancestrais, e a nossa, a jornada do herói — a de sair da caverna dos instintos para a luminosidade harmoniosa da Consciência?
O PAPEL DA ARTE
Martin Heidegger, filósofos influente do século XX, associado à fenomenologia e à filosofia existencial ▪️ Foto: Willy Pragher
Para Heidegger, o papel da arte é desvelar a verdade do ser. A condição de Dasein (ser-aí) faz do humano um ser que “joga, brinca” com seu próprio ser ou, dito de outro modo, que se volta sobre si mesmo num ato de autoconsciência, tomando consciência de si mesmo e dos outros. Ele é sujeito e objeto de si mesmo. Esse ato de “jogar, brincar” — tão característico da criança e anteriormente afirmado por Heráclito na Grécia Antiga, para o qual aiṓn (“tempo”, “vida” ou “duração da vida”) é como uma criança brincando/jogando — funda no Tempo a presença do Ser. O Ser é sendo. É o símbolo do dervixe dançando na tradição sufi.
Desse modo, a arte tem como papel, nesse “jogo/brincadeira”, ritualizar e tornar presente a Consciência do Ser. Não uma consciência de classe, a qual jaz estruturada no reflexo narcísico das águas, ondas de um ego preso em suas representações, mas, sim, uma Consciência que se revela na sua pura vacuidade de representações. É o vazio do Tao.
Como a arte pode desvelar e ritualizar a verdade do ser? Aqui temos, desde Platão, um dos problemas fundamentais da estética. É famosa a expulsão dos poetas da polis de Platão. Para Platão, um dos aspectos do problema repousa sobre o uso da representação. A simulação holográfica
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que não esteja sustentada por um princípio de veracidade — entre o Amor e o Bem — aliena o sujeito da verdade do seu próprio ser. A verdade, aqui, não pode ser tratada apenas como fidelidade entre o ser e o ente representado, mas como a Consciência recicla a si mesma no eterno vir-a-ser. Toda representação se cristaliza. A forma aprisiona o espírito.
Para Platão, portanto, a arte deveria ser um caminho de reencontro com o Ser, e não uma alienação do ser, aprisionando-o na dinâmica do instinto ou criando, através de representações, prisões mentais e sensoriais em forma de classes. A Caverna de Platão é uma alegoria profunda sobre os vários níveis de aprisionamento do espírito.
Aristóteles, discípulo de Platão, investigando a questão, encontra um aspecto da representação: servir de caminho para a purgação. Promover a catarse, a purificação — aqui entendida como um espaço recreativo onde, por via da representação, o caos das pulsões e das formas de repressão podem ser ritualizados e expulsos do interior do ser humano. A arte, portanto, não seria apenas caminho de reencontro com o Ser ou, nas palavras de Heidegger, caminho de desvelamento do ser, mas também, para Aristóteles, um caminho de preparação. O ser humano carrega dentro de si inúmeras paixões irracionais que precisam de ordenamento, e a arte, como catarse, auxilia; assim como, por meio da narrativa, a arte dá ordem e coerência à realidade.
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A POESIA, A LITERATURA, OS QUADRINHOS
No mundo dos nossos ancestrais do Paleolítico, a arte surgiu como pintura rupestre; depois, linguagem verbal e artesanal. No mundo antigo — grego, romano, hindu, sumeriano — a arte primeiro se deu como poesia. De origem divina, a palavra presentificava, dando-lhe o ser e a vida. O Logos, para os gregos, ou o Dabar, para os judeus — Verbo, Palavra — dá lugar ao ser e, por sua influência, origina o mundo. Por isso, toda sociedade no mundo antigo se fundamentava
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através do canto dos poetas. Havia, por força do ser, no canto, uma melopeia que criava, no universo interior dos humanos, uma ordem estruturante em suas paixões. O canto educava, principalmente, as emoções, dando-lhes seja um caminho de purgação/catarse, seja um caminho de encontro consigo mesmo a partir das representações. Através das máscaras, o encontro com o Real.
E desse movimento, a princípio poético, veio a ser o teatro, a dança, a música, a pintura e a escultura, que, ao longo dos séculos, foram perdendo seu espaço de presença do Ser, tornando-se representação pura e simples, como uma arte sofista — cheia de aparência, vazia de Ser, produzida para manipular e alienar, como um demiurgo a produzir prisões para o espírito.
A força do Ser, no entanto, sobrepujando as formas artísticas, vez ou outra encontra um gênio por onde extravasa sua força originária.
Nesse percurso de séculos, em que a arte foi se especializando em ramos variados — e aqui não adentraremos o conceito de técnica, visto o espaço do artigo ser de cunho mais breve —, o humano foi sendo conduzido por formas mentais e emocionais que foram se tornando arquetípicas. Por força de anos de ritualização coletiva, o conteúdo artístico produzido foi se transubstanciando no conteúdo inconsciente
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da sociedade. Certos modelos mentais e padrões emocionais foram se estruturando com a força de grandes montanhas. Na vida religiosa, na vida política, na vida social, ídolos de todas as formas e cores foram criando um véu a ocultar a Realidade.
Não à toa, Friedrich Nietzsche falou sobre a necessidade de destruir os ídolos de barro. Seria necessária uma nova forma de arte, uma nova forma de criar valores. Passar, como diz Zaratustra, do camelo ao leão e, por fim, à criança, para finalmente criar valores. Sair da postura daquele que carrega o pesado fardo da vida social, religiosa e política, dizendo o sagrado “não” para toda e qualquer forma de repressão e, como um leão, rugindo contra o dragão de tudo aquilo que é velha forma cristalizada, finalmente surgir feito um sol infantil de pura presença e vazio de representações. Não à toa, Nietzsche escolhe para seu porta-voz a figura mítica de Zaratustra.
E assim falou Zaratustra: “Mais um século de leitores — e até o espírito federá”. A capacidade de tornar a letra morta em letra viva foi se perdendo; a leitura foi dando lugar ao cinema, arte historicamente situada no século XIX, onde a imagem sequencial, a princípio muda, procuraria dizer a verdade do ser não por palavras, mas por imagens. Essa arte foi se desenvolvendo junto com toda uma indústria tecnológica, assim como
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foi se nutrindo dos estudos da psicologia, sendo lentamente adestrada a um modelo de linguagem que foi se normatizando como parte do mercado de consumo. A publicidade foi nela fazendo morada, chegando lentamente e tingindo o discurso cinematográfico com tons ideológicos, mercadologicamente orientados.
E essa arte sequencial, o cinema, que não existia no período paleolítico, mas que, em certa medida, tem parentesco com a arte rupestre por sequenciar e narrar uma história com imagens e movimentos, foi se massificando ao longo do século XXI e se aprimorando em sua tecnologia. Outra arte também aparentada e nascida no século XIX, o quadrinho, ou nona arte — arte sequencial em que imagens, a princípio sem falas, foram ganhando balões e se aprofundando — também ganhou o mundo.
O QUADRINHO VAI ALÉM DO QUADRO
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O quadrinho, HQ, graphic novel ou nona arte — a depender de como se queira chamar — é uma arte que vai além do quadro. E talvez hoje seja a forma de arte que mais guarde em si um potencial de reencontro com o ser. Isso acontece por algumas razões: o leitor precisa integrar discurso imagético e discurso verbal (hoje sabemos, por estudos da psicologia e da neurociência, que cerca de 90% do discurso é não verbal), exigindo um esforço de decodificar a mensagem visual e verbal de maneira mais “natural” do que a leitura de palavras; o ritmo da leitura entre os quadros e os balões cria uma sinergia mais orgânica, como um diálogo entre planos de discurso; além disso, o leitor pode roteirizar o fluxo de leitura de acordo com o seu próprio metabolismo (pode ler e demorar-se em cada quadro o quanto quiser); há ainda a capacidade do quadrinho de metaforizar e simbolizar, criando analogias em vários planos.
O cinema, por sua vez, embora aparentado e também uma arte sequencial, ao se desenvolver junto à tecnologia e ao discurso publicitário, ganhou uma velocidade entre quadros e planos sequenciais, além de uma superficialização das narrativas que, aliada ao tempo limitado de projeção, foi depondo contra sua capacidade de criar planos de encontro com o ser. Hoje, o cinema é sobretudo uma indústria de condicionamento geracional, existindo com o propósito de criar comportamentos por meio da produção massiva e da ritualização constante de arquétipos, modelando e manipulando o comportamento individual e coletivo ao longo das gerações. O cinema tornou-se uma arma de guerra cultural usada para colonizar mentes e corações.
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O quadrinho também vai além do quadro por ser uma arte que nasce através do desenho, assim como nossos ancestrais paleolíticos desenhavam nas cavernas, surgindo como uma arte manual em que o traço comunica uma intenção, uma forma consciente. Os balões de fala, que são ao mesmo tempo narração, pensamento e discurso, fluem em um plano comum com o traço, numa carnalidade suprema entre corpo e espírito, levando-nos a um plano de interiorização da ação gestual e imagética e do som e do pensamento, numa jornada para o coração das coisas.
Crepax, Sergio Toppi, Alberto Breccia, Moebius, José Muñoz, Winsor McCay, Jordi Bernet, Osamu Tezuka, Héctor Oesterheld, Carlos Sampayo, Juan Sasturain, Sánchez Abulí e tantos outros autores criaram um plano para além do quadro, traduzindo o potencial revelador do quadrinho não como instância de aprisionamento da imagem e do discurso, mas como lugar de liberdade, onde a ideia feita de corpo e espírito — numa dialética ao modo hegeliano — encarna a História, por um lado, e, por outro, revela a verdade do ser, comunicando de forma sutil o drama humano, sempre transitando entre o instinto, as paixões e a Consciência. São exemplos de como o quadrinho vai além do quadro: não morre na forma, não se esgota na página; vive para além, numa forma poética etérica onde o encontro com o divino se torna possível e onde o encontro com as potencialidades humanas se torna fundamental.