Há quem diga que a mente humana tem um estranho costume de encontrar formas onde elas não existem. Enxergamos rostos nas nuvens, fig...

Efeito Pareidolia

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Há quem diga que a mente humana tem um estranho costume de encontrar formas onde elas não existem. Enxergamos rostos nas nuvens, figuras nas montanhas, silhuetas nas sombras. A ciência chama isso de pareidolia. Talvez não seja apenas um mecanismo do cérebro, mas um gesto desesperado da alma que deseja preencher vazios.

A morte também nos transforma em caçadores de formas, porque depois que alguém parte, passamos a enxergá-lo em muitos lugares. Na cadeira que permanece vazia, no perfume que insiste em
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atravessar um corredor, na música que toca por acaso, no jeito como um desconhecido sorri na rua. Não é a presença da pessoa, é a saudade desenhando contornos sobre a ausência.

Dizem que rir é temperar o choro, e talvez seja mesmo, porque o riso não apaga a dor, ele apenas impede que ela tenha o gosto amargo da eternidade. Há um momento em que as lágrimas já não conseguem carregar tudo o que sentimos, e então o riso surge, tímido, como quem pede licença para lembrar que a vida ainda respira entre os escombros, semelhantes ao sentimento triste, pela morte de um ente querido.

O que se perde quando uma pessoa morre não é apenas a sua voz, seus gestos ou seu abraço, mas sim aquilo que nós éramos para ela. Morre o filho que existia apenas no olhar da mãe, morre o amigo que dentro de alguém vivia uma emoção distinta. Morre a versão de nós mesmos que jamais poderá se repetir novamente, e isso é para sempre.

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Há perdas que não encontram substitutos porque nenhum novo encontro devolve exatamente aquilo que partiu. Somos únicos na memória de quem nos ama, assim como cada pessoa amada ocupa um lugar impossível de ser repetido.

É possível colar um esparadrapo no coração de quem perdeu alguém muito querido? É possível juntar os cacos?

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Talvez não, porque o coração não cicatriza como a pele, ele aprende a pulsar rachado. Descobre que algumas dores deixam de sangrar, mas nunca deixam de existir. Os cacos não desaparecem, tornam-se parte da arquitetura de quem sobrevive, e, curiosamente, é pelas frestas que a luz encontra passagem.

Talvez a vida também seja uma espécie de pareidolia, porque nos mantemos olhando para os fragmentos daquilo que fomos, daquilo que perdemos, e do que ainda resta, e insistimos em encontrar um sentido. Não porque ele esteja claramente desenhado, mas porque continuar vivendo exige esse delicado ato de imaginar formas no caos.

Talvez seja justamente isso que nos torne humanos, essa capacidade de transformar ausência em lembrança, lembrança em amor, e amor em uma presença silenciosa que nem mesmo a morte consegue apagar. Já que estamos de passagem, e eventualmente alguns descem mais cedo do trem, mantenha-se atento a paisagem com sorriso nos olhos, e se permita costurar novos trilhos.

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