Uma coisa tenho prestado atenção ao longo da minha formação: a sinceridade não é uma coisa muito aceita. A sinceridade parte de você querer se expressar, dizer o que sente e o que pensa. No entanto, falar o que se sente raramente encontra acolhimento. Verdades não existem além do fato fático.
Há momentos em que a realidade política brasileira parece ter sido escrita por um físico quântico com senso de humor duvidoso. Nada é exatamente o que parece, mas também nada deixa de ser o que aparenta.
Uma vez um colega me perguntou, depois de ler um texto meu denunciando bandidagem, por que eu escrevia com raiva. Fiquei pensando em responder. A pergunta não era simples. Talvez porque quem lê imagine que a indignação é raiva mal disfarçada.
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Mas eu não escrevo com raiva. Não tenho raiva de ninguém. Às vezes tenho raiva de mim mesmo, isso é verdade. O que sinto profundamente é outra coisa. O que sinto é indignação, ela que nasce quando observo certos comportamentos humanos. Uma indignação que, às vezes, chega a doer. Dói porque vejo atitudes que ferem aquilo que deveria sustentar a vida em sociedade: a ética pública. Dói porque algumas criaturas humanas, de baixas atitudes, conseguem ocupar espaços de poder na política, na Justiça e no Executivo. Não é um incômodo passageiro. É uma dor cívica que já dura quase os meus sessenta e dois anos. Uma dor de cidadão que observa o que acontece à sua volta.
Sou fascinado por cheiros; além de tudo, alucino-me por essências. “Árvores são fáceis de achar: ficam coladas no chão”, como bem disse Arnaldo Antunes. Dias atrás tive uma felicidade rara: ver uma árvore abrindo, com solenidade discreta, o filme Hamnet e perceber que ela não entrava em cena sozinha. Entrava a natureza inteira, dançando sem coreógrafo, sorrindo com os lábios e, ainda assim, convincente.