Apenas quatro cadeiras rodeavam o tampo de fórmica reluzente mesmo sem a limpeza com flanelas. Era o móvel mais importante da pequena ...

A mesinha amarela

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Apenas quatro cadeiras rodeavam o tampo de fórmica reluzente mesmo sem a limpeza com flanelas. Era o móvel mais importante da pequena sala ainda sem os sofás para os amigos e os parentes. Os que nos chegassem, se passassem de quatro, serviam-se de vários almofadões dispostos em ambiente único a serviço das refeições e das visitas.

“Uma casinha de bonecas”, brincava minha mãe com aquela que levei ao altar e, passado algum tempo, lhe deu três netos. Tínhamos na parede, uma tela de Marcos Pinto, presente de casamento, e
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um macramê – painel têxtil entrelaçado com fios de algodão –, pagamento que me fez o jornalista Barreto Neto por tê-lo substituído em período de férias como correspondente de “O Estado de S. Paulo”. Tínhamos, ainda, na sala única, um relógio de pilhas e uma radiola com uns 20 discos adquiridos no tempo de solteiros. Ah, sim, um telefone fixo, também.

A varandinha com dimensões insuficientes para uma rede, dois dormitórios com armários e camas, um banheiro e uma cozinha diminuta com fogão e geladeira compunham os demais cômodos. O terceiro morador, hoje professor de Biologia da UFCG, nos veio em 1979, passados um ano e um mês da data em que eu e a mãe nos casamos. Os dois seguintes nos chegaram, subsequentemente, com diferença arredondada de dois e de sete anos, em relação ao mais velho. Quando bebês, todos sentaram no tampo da mesinha redonda para sopinhas e papas. Não menos, é claro, para nossos afagos e chamegos.

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A casinha de bonecas, é bom que se diga, não tinha formato nem dimensão diferente das outras 27 erguidas em área adquirida defronte ao Centro de Treinamento de Miramar, o Centremar, pelos jornalistas e publicitários que então éramos, quase todos jovens e em inícios de carreira.

As ampliações igualmente financiadas pela Companhia Estadual de Habitação Popular aconteceriam, pouco a pouco, na conformidade do aumento dos salários e do crescimento de cada uma das nossas famílias. Foi negócio intermediado pela Associação Paraibana de Imprensa sob a então presidência do querido Gonzaga Rodrigues. O Código de Urbanismo do prefeito Cícero Lucena, em sua primeira gestão, redefiniu os
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limites territoriais de zonas diversas da cidade fazendo o bairro do Castello Branco engolir a parte que habitávamos. Enquanto isso, o Centremar dava lugar ao Seminário que, ali, atualmente, forma padres diocesanos. Entendamos: assim como ocorre às pessoas as cidades também crescem e mudam.

“Isso vai se desenvolver muito. Os prédios do Altiplano do Cabo Branco já estão à beira do Rio Jaguaribe. Logo mais, atravessarão para o lado de cá”, avisou-me, há pouco, o primogênito a quem repassei a casa (já então ampliada) onde ele e os irmãos deram os primeiros passos. Tal perspectiva de expansão o agrada.

Mal sabe ele das saudades do seu velho pai. Hoje, dali distante, a rua que me vem à mente ainda tem a terra batida onde eu, ele e seus irmãos chutávamos bola e empinávamos papagaios. A confecção dava-se com hastes das folhas de coqueiro, papel-jornal e cola branca. Bastava-nos, depois disso, fazer a rabiola, ajustar e atar o cabresto ao rolo de linha, providência sem a qual nossos inventos não subiriam ao céu nas férias escolares dos dezembros, coincidentes com as minhas.

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Víamos, da nossa antiga rua, o horizonte feito de água. Nele, o vai e vem de um navio, ora em direção ao porto de Cabedelo ora no sentido do Recife. “Ele não anda?”, perguntava-me, impaciente, foi não foi, o filho do meio. Eu, então, pedia que ele não reparasse naquele movimento de lesma por uns 15, ou 20 minutos. Nós nos concentraríamos, nesse ínterim, no trave a trave. “Já posso olhar?”, perguntava-me findo esse tempo. Permissão concedida, ele se admirava: “Andou dois palmos”.

O crescente paredão de edifícios, embora ainda ao longe, nos impossibilitou, depois disso, a visão de bela porção do Atlântico. Do mesmo modo, assim também ocorreu à maior parte
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dos moradores de Miramar, bairro cuja denominação quase ficou sem sentido. Além disso, o mesmo obstáculo à visão do abraço entre as águas e o céu também cuidou de nos impedir a escuta das ondas nas noites calmas de verão.

Na rua de que sinto saudade, meus filhos pequenos não se assustaram, felizmente, quando um coquetel molotov pôs fogo no carro do correspondente da Revista “Veja”. Certamente, os anjos da guarda zelavam por seus sonos e sonhos enquanto nós, os vizinhos, acudíamos com extintores o colega apavorado com a resposta de agentes da ditadura à matéria na qual ele apontava os que, na Paraíba, ajudavam, clandestinamente, no financiamento da infâmia e do arbítrio.

Naquela rua, eu vi meus filhos crescerem. Acompanhei suas caminhadas às Faculdades onde graduaram-se em Biologia (o primeiro deles), em Tecnologia da Informação (o segundo) e em Música (o caçula, agora, também, cursando Veterinária).

Tive à mesa – desta vez mais ampla e com maior número de cadeiras – algumas de suas namoradas. E feliz fiquei quando dois deles escolheram aquelas com as quais viriam a casar.
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Do primeiro desses matrimônios surgiu meu único neto.

Porém, é a lembrança da mesinha amarela que, de modo mais profundo, me toca a alma. Nela, a moça que me quis dispôs o alimento comprado com o salário magro, mas que de mim fazia o provedor de um lar edificado e fortalecido, passo a passo, cuidadosamente. Não houve lua de mel. Dispensamos a viagem, de comum acordo, em troca da Chefia de Reportagem que então me era oferecida no Jornal “A União”. Assim também acordado, ela deixou o emprego para cuidar do nosso primeiro filho, doentinho até os três anos de vida. Duas cirurgias renais e os cuidados maternos fizeram nosso guri vingar, crescer, progredir profissionalmente e nos dar nosso neto.

Tenho falado a Miguelzinho de papagaios ao vento, de bolas em terra batida, do barulho noturno das ondas e de navios no horizonte. De tanto disso falar, penso que ele, espantosamente, contraiu as minhas saudades. Já associa a mesa mais ampla dos seus primeiros anos de vida àquela amarelinha e redonda do pai e dos tios. Acho que aos seus próprios netos, ele contará, algum dia, de um avô que semeava lembranças. Tomara.

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